Descrição de chapéu Coronavírus

Casos de Covid-19 crescem 1.200% na periferia de Salvador

Crescimento dos casos coincide com queda nos índices de isolamento social

Salvador

Na avenida Afrânio Peixoto, no subúrbio de Salvador, feirantes e vendedores ambulantes estendem-se pelas calçadas em meio a um intenso vaivém de pedestres com máscaras no rosto.

“É todo dia assim, o maior movimento. A maioria não fica em casa porque tem que trabalhar, né?”, afirma a ambulante Irinácia Alves, 55, que vendia garrafas de água mineral no canteiro central da avenida, na altura do bairro de Plataforma.

Com um índice de isolamento social declinante, Salvador vive uma explosão dos casos de Covid-19 nos últimos 40 dias. Nos dez maiores bairros da periferia da capital baiana, havia 458 infectados registrados em 22 de maio, número que saltou para 5.949 em 1º de julho.

O crescimento foi de mais de 1.200%, o que mostra um avanço recente mais acelerado nos bairros mais pobres. Levando em conta os 163 bairros de Salvador, o crescimento no mesmo período foi de 420%.

Ao todo, a capital baiana registrou 36,8 mil casos da Covid-19 e 1.234 mortes pela doença até sexta-feira (3). O número de pacientes graves também cresceu: a capital tinha neste sábado (4) uma ocupação de 84% dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Homem de amarelo com máscara em murinho em praça
Morador usa máscara em Paripe, no subúrbio de Salvador, que tem registrado crescimento no número de infectados na pandemia  - Ricardo Borges/Folhapress

“Estamos atravessando nosso momento mais difícil. Eu peço que as pessoas compreendam a necessidade de manter as medidas [de isolamento social]”, afirmou o prefeito Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM).

Os números são considerados alarmantes pelas autoridades de saúde. Em bairros como Paripe, Itapuã e São Cristóvão os casos da Covid-19 cresceram de maneira exponencial nos últimos 40 dias— mais de 1.000%. No Beiru, o número de moradores contaminados subiu mais ainda, a uma taxa superior a 2.000% no mesmo período.

A situação é semelhante em Pernambués, bairro com 65 mil habitantes e que hoje é o terceiro com mais casos do novo coronavírus em Salvador. Em 22 de abril, eram apenas 9 infectados de Covid-19 na região, número que cresceu para 818 na última quarta-feira (1º).

A disseminação do novo coronavírus coincide com a recente queda nos índices de isolamento social na capital baiana. Segundo dados do governo do estado, o isolamento chegou ao seu máximo no estado no dia 22 de março, ainda no início da pandemia, com 58% da população em casa. O índice foi caindo nos últimos três meses até chegar ao seu nível mais baixo em 19 de junho, quando registrava 34%.

No dia 23 de junho, data em que tradicionalmente se comemorariam as festas de São João, medidas de restrição foram ignoradas. Feiras e mercados públicos tiveram grandes aglomerações de pessoas.

Na Feira de São Joaquim, maior da cidade, houve até engarrafamento de carros no entorno. Os estreitos corredores do local ficaram apinhados de consumidores à procura de ingredientes para pratos típicos juninos como milho verde e amendoim.

À noite, véspera do São João, foram registradas 495 queixas por poluição sonora, sendo a maioria em bairros com forte expansão de casos da Covid-19, caso de Pernambués, Itapuã e Fazenda Grande do Retiro. A prefeitura flagrou 39 fogueiras nas ruas e ordenou que fossem apagadas.

Autoridades locais avaliam que houve afrouxamento do isolamento social pela população justamente no período mais crítico da pandemia. Por outro lado, veem como positivo o fato da máscara facial ter sido adotada pela quase totalidade das pessoas nas ruas da cidade baiana. Em bairros da periferia, kits com três máscaras de tecido são vendidos por R$ 10.

Salvador ainda mantém regras mais rígidas comparada a outras capitais do país. Seguem fechados os shoppings, academias, salões de beleza, escolas e estabelecimentos comerciais com mais de 200 metros quadrados, com exceção de supermercados.

Mas já houve flexibilização em alguns setores. Desde o dia 1º de junho, foram autorizadas a funcionar clínicas, concessionárias, lavanderias, açougues, lojas de decoração e de matérias elétricos.

A prefeitura não adotou o bloqueio total das atividades em nenhum momento da pandemia e optou por restrições mais rígidas temporárias em bairros com maior índice de crescimento da doença. Em boletim divulgado na sexta-feira (3), o comitê científico do Consórcio Nordeste sugeriu que fosse decretado lockdown na capital baiana.

Na quinta-feira (25), sete bairros da cidade estavam com medidas restritivas em andamento, o que inclui barreiras no trânsito, distribuição de máscaras faciais e realização de testes rápidos.

Em cada uma dessas áreas com restrição, são realizados 200 testes por dia. E os resultados mostram que a doença segue se alastrando. No bairro da Santa Cruz, quatro em cada dez testes feitos deram positivo.

No Beiru, em todos os dias que foram feitos testes, pelo menos 30% das pessoas estavam contaminadas.

Em Paripe, bairro do Subúrbio Ferroviário que teve medidas restritivas até 30 de junho, pelo menos uma centena de moradores formavam uma fila em um dos principais largos do bairro para a realização de testes rápidos no dia 24 de junho.

A dona de casa Selma Ferreira, 48, acompanhou os dois filhos, de 25 e 18 anos, para realizarem os testes. A mais velha, que trabalha como caixa em supermercado, teve sintomas como dor de cabeça e perda de apetite. O mais novo chegou a ter febre.

“Ficamos preocupados, principalmente porque a minha mãe, que tem 80 anos, mora próximo da gente. Ela fica em outra casa, mas é no mesmo terreno, é difícil não ter contato”, afirma Selma. Ela e o marido estão desempregados —o trabalho da filha mais velha é atualmente a única fonte de renda da família.

A poucos metros do local da testagem, ambulantes ocupavam as calçadas e pedestres aglomeravam-se nos pontos de ônibus e em um mercado público. Os veículos do transporte coletivo também circulavam cheios, com passageiros em pé.

​“É aquela coisa, o pessoal não respeita o isolamento. Acho que a gente precisa de medidas mais duras”, afirma o motorista Hipólito Santana, 46, que ficou sem trabalho e passou a atuar como ambulante na crise: “Sei que é difícil, vou ser prejudicado. Mas a gente tem que evitar o pior”.

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