Varandas ganham novos usos na pandemia

Sacadas em SP viram floresta, sala de aula, oficina de tear e palco em lares de famílias isoladas pelo novo coronavírus

São Paulo

Isoladas há três meses, famílias têm se virado para fazer da casa um espaço que dê conta do home office, do lazer e do descanso. Nessa busca por um lar adaptável, as varandas de apartamentos caíram como luva nas mãos de pessoas que têm feito delas pequenas "ilhas de respiro".

É o caso da médica intensivista Gabriela Paes Leme Lorecchio, 34, que vive no entorno da avenida Paulista.

Sua especialidade é a mais procurada nesta pandemia, e a rotina é exaustiva. Enfrenta 12 horas de plantão e, às vezes, dobra a jornada para cobrir a ausência de algum colega.

Cumprir só o script casa-hospital-casa sem nenhuma atividade extra a deixou exaurida. Com esse sinal de alerta aceso, a médica se lembrou do tempo em que era criança e tinha muito contato com a natureza na fazenda dos avós, em Uberlândia (MG). E desse baú afetivo tirou uma ideia. "Me propus criar minha própria floresta", diz Lorecchio.

A ampla cobertura de seu apartamento foi verdejando com a chegada de heras, jiboias, espadas-de-são-jorge e palmeiras. "Eu fui cuidando delas e relaxando a minha mente. Tenho um oásis hoje".

A pressão não mudou, afirma a médica. "Continuo perdendo pacientes, vendo colegas se contaminando, mas tenho minha válvula de escape."

Já a advogada Jeruza Lisboa Pacheco Reis, 50, fez da sacada de seu apartamento, em Mogi das Cruzes (Grande SP), uma oficina de artesanato.

Reis diz que sempre levou uma vida agitada fora de casa na prestação de atendimento jurídico, mas o coronavírus a colocou de quarentena junto aos quatro filhos --a caçula tem 9 anos--, e ao marido.

"Eu passei a fazer comida, tomar conta da casa, ajudar a caçula nas lições da escola e a trabalhar em home office. Não tem sido fácil", conta ela.

Procurando distração, Reis se lembrou de uma frase que sempre ouviu da avó Helena, 97: "Na vida, só acontece o que a gente tece". O mantra de inspirou a neta a agir. A advogada comprou pela internet um tear, de 90 centímetros de comprimento, e fez curso online para operar o equipamento.

Nele, passou a tecer a ansiedade em lãs que viraram meias, cachecóis, toucas e echarpes que ganharam os guarda-roupas dos filhos e até do bispo da Diocese de Mogi, Dom Pedro Luiz Stringhini, 66.

"Lãs e agulhas são o meu divã. Estou, agora, fazendo um curso pela internet de bordado francês", diz.

Longe dos palcos desde março, a consagrada cantora lírica Marília Vargas, 43, faz na varanda de seu apartamento no Ipiranga, espetáculos com hora marcada: sempre às 16h50 nas terças e nas sextas-feiras. "É quando o sol está no auge por aqui", diz.

A artista passou a cantar para expurgar o rastro de tristeza deixado pelo coronavírus. Começou com uma das Bachianas Brasileiras, de Heitor Villa-Lobos, em 5 de maio. "Ouvi um 'você é linda' seguido de aplausos". Não parou mais.

Com longo alcance vocal, Marília se diz beneficiada por um fenômeno acústico criado pelo vento que carrega sua voz por toda a vizinhança.

Já Melissa Dazanni, 45, viu na sua varanda um lugar de trabalho. Ela leciona química de forma remota para alunos do ensino médio do Colégio Objetivo, na capital paulista.

Envidraçada, a varanda localizada no 10º andar, na Pompeia, recebe a visita de passarinhos, do cachorro Nico, 16, e do sol. "Virou um espaço aconchegante onde me sinto muito bem para passar o conteúdo aos meus alunos", afirma.

E nem foi preciso muita mudança, conta a professora, que antes usava o espaço para fazer churrascos. "Só adaptei o layout dela com uma mesa e cadeira apropriadas."

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