Criminosos fecham saídas de cidade no interior de SP e enfrentam PM por horas

Bando em Botucatu tinha de 20 a 30 criminosos e usava fuzis e metralhadoras; um suspeito morreu

São Paulo e Ribeirão Preto

Em uma das mais audaciosas ações criminosas vistas em solo paulista, um grupo de bandidos armados com fuzis e metralhadoras enfrentou por mais de duas horas as forças de segurança de São Paulo, entre elas unidades de elite da Polícia Militar como Rota, Gate, COE e Baeps, durante o roubo a uma agência do Banco do Brasil na noite de quarta (29) e madrugada desta quinta (30) em Botucatu, a 238 km da capital.

Praticamente todos os criminosos conseguiram escapar levando o dinheiro do roubo, montante cujo valor ainda não divulgado. Um deles foi baleado e morto durante um dos confrontos com policiais já pela manhã.

Estima-se entre 20 e 30 intregantes no grupo. Dois PMs ficaram feridos, sem gravidade e não correm risco de morte. Um deles foi ferido no calcanhar e, outro, no braço e na perna.

Foi a terceira vez que cidade paulista foi alvo desse tipo de ação. Segundo a polícia, porém, essa foi a mais audaciosa de todas elas.

“Nada se compara ao que aconteceu nesta madrugada", disse o coronel Aleksander Toaldo Lacerda, 48, comandante da região (CPI/7). “O que diferenciou essa ação foi principalmente o ímpeto desses infratores de buscarem o confronto com finalidade de tentar escapar do cerco policial, fugirem da cidade. Isso surpreendeu mesmo, de eles buscarem esse confronto a todo momento”, afirmou.

Policiais desarmam explosivos deixados pelos bandidos armados que atacaram agências bancárias em Botucatu (SP), a 235 quilômetros de SP, e levaram pânico à cidade no final da noite desta quarta-feira (29) - :Divulgação/Policia Militar

As buscas pelos criminosos continuavam na tarde desta quinta. O acesso a Botucatu estava monitorado pelos PMs, e parte do comércio ficou com as portas fechadas em razão do risco de alguns criminosos ainda estarem escondidos em casas abandonadas.

A prefeitura divulgou comunicado pedindo para que os moradores permanecessem em casa para evitar riscos desnecessários.

Câmera de monitoramento registra a movimentação de policiais do GATE, Policia Militar e Rota durante a ação de bandidos armados que atacaram agências bancárias em Botucatu (SP) - Reproducao

De acordo com a polícia, a ação criminosa teve início por volta das 23h30 de quarta-feira (29) com um ataque à sede do batalhão da PM, na Vila Silvinha. Dois veículos foram colocados em frente do quartel, em um deles foi ateado fogo, para evitar a saída de viatura no reforço das outras. Os criminosos também passaram a disparar contra as guaritas para encurralar os PMs de plantão.

Enquanto isso, outra parte do bando se instalou no centro da cidade com objetivo de arrombar o cofre da unidade regional do Banco do Brasil, onde fica armazenado o dinheiro recolhido de outras agências da região. Foram utilizados explosivos para romper o cofre. A força da explosão danificou outros prédios do entorno, incluindo agências bancárias que tiveram os vidros quebrados.

Cerca de 25 policiais militares estavam de serviço na cidade no momento do ataque.

Logo no início dos ataques, segundo a PM, que foi dado início a chamado plano de contenção, montado justamente para enfrentamento de ataques a unidades bancárias. O plano foi criado após uma ação criminosa em Ourinhos, na divisa com o Paraná, quando bandidos também atacaram uma base da PM e cercaram uma delegacia equanto roubavam bancos da cidade.

De acordo com Toaldo, policiais de cidades da região se deslocaram para Botucatu para fecharem os principais acessos de cidade. Policiais da Rota, Gate e Coe, que participavam de treinamento de tropas do Baep em Bauru, também se deslocaram em apoio. Um grupo de PMs de São Paulo foi para a região para integrarem o bloqueio.

Ao todo, 220 policiais militares, em 70 viaturas, cercaram a cidade, além de um helicóptero.

Houve ao menos quatro grandes confrontos entre policiais e bandidos, quando estes tentaram deixar a cidade com o dinheiro e se depararam com os bloqueios. Parte dos criminosos, segundo a polícia, abandou os veículos em que estava e se embrenhou na mata.

Outra parte, acredita-se, pode ter fugido para casas abandonadas –por isso o receio dos moradores.

Além dos veículos abandonados, a polícia apreendeu um metralhadora .50 —capaz de derrubar aeronaves—, sete fuzis (556 e 762), uma metralhadora 9mm, além coletes a provas da bala, entre eles capazes de suportar tiro de fuzil (nível 3). Só de armamento estima-se um investimento superior a R$ 1 milhão.

Dois malotes com dinheiro foram recuperados.

De acordo com a PM, evitar um confronto dentro da área urbana é um estratégia para evitar ao máximo colocar em risco a vida de inocentes. Para a PM, o plano de contenção será ajustado diante da análise do caso, mas, em princípio, o resultado foi considerado satisfatório.

“Fazendo uma análise da aplicação dele [do plano], primeira vez, em uma situação dessas ainda, ele foi satisfatório uma vez que os infratores não conseguiram o intento de saírem com armamento, e a quantidade de dinheiro”, disse o coronel Lacerda.

MEDO

Com os ataques criminosos e a operação policial ainda em curso em Botucatu, o HC (Hospital das Clínicas) da Faculdade de Medicina de Botucatu, adiou consultas e cirurgias eletivas marcadas para esta quinta-feira. Todas serão remarcadas.

As unidades de pronto-socorro estão atendendo somente emergências, e com portas fechadas, e a divulgação diária de dados referentes ao novo coronavírus também foi adiada.

A intensidade da ação da quadrilha fez a Prefeitura de Botucatu publicar comunicado ainda durante a madrugada pedindo para que todos os moradores permanecessem em suas casas “e não procurem possíveis pontos danificados pela cidade”, para não colocar em risco a segurança de todos e não interferir no trabalho das polícias.

Muitas lojas não abriram nesta quinta-feira, já que proprietários e funcionários ficaram com medo por não saber exatamente se a quadrilha havia fugido ou se ainda estava escondida em regiões da cidade.

Com isso, a Secretaria da Saúde também suspendeu o funcionamento das unidades básicas de atendimento. Exames e consultas foram reagendados.

“A medida se faz necessária para proteger a população e servidores e também em decorrência de instabilidade nas redes de energia elétrica e internet de grande parte das unidades”, diz a prefeitura.

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OUTROS CASOS

Maio 2020

Ourinhos (371 km da capital). Bandidos atacam base da PM e cerca delegacia enquanto roubam agências bancárias da cidade. Um refém foi usado como escudo humano.

Outubro de 2019

Campinas. Grupo invade terminal de cargas do aeroporto de Viracopos, em Campinas. Três criminosos foram mortos e cinco pessoas feridas, quatro delas vigilantes e policiais atingidos

Abril 2019

Guararema (Grande SP). Bando com cerca de 25 criminosos atacou duas agências da cidade. Três suspeitos foram presos e 11 deles foram mortos pelos PMs

Outubro de 2018

Ribeirão Preto (313 km da capital). Quadrilha em ao menos 21 veículos, participaram de ataque à sede da empresa de valores Brinks. Um suspeito foi morto e outros três presos pela polícia durante confronto.

Setembro de 2018

Bauru (329 km da capital). Grupo enfrenta policiais para roubar agências bancárias da cidade. Bando usou drone para monitorar a movimentação das forças de segurança

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