'Ele descobriu que tinha o dom de ajudar as pessoas', diz pai de PM morto em SP por falso policial

Empresário acusado de matar soldado e dois colegas fingia ser policial para a própria família

São Paulo

O juiz de casamentos Alex Passerini Pinto, 66, iniciou, no último sábado (8), as celebrações no 18º cartório de registro de civil do Ipiranga, zona sul da capital paulista, de uma forma diferente do que fez nos últimos 24 anos.

“Eu sempre começo dizendo: ‘estamos todos reunidos aqui com muita alegria para celebração deste casamento’. Mas, eu não consegui falar isso não. Não consegui dizer, porque, na verdade, eu não estava. Eu tive que segurar minhas lágrimas para seguir em frente", contou ele à Folha.

Alex havia acabado de receber um telefonema da mulher, Leonida, informando que o filho dele, o soldado da Polícia Militar Victor Rodrigues Pinto, 29, havia sido morto em confronto com criminoso na zona oeste da capital. "Eu não conseguia acreditar no que havia acontecido com meu filho. Ele sempre foi muito cuidadoso. Sempre, sempre. Eu tinha segurança nele. Era infalível”, afirmou.

Victor foi um dos policiais mortos por um falso policial civil durante uma abordagem na av. Escola Politécnica, ao lado do campus da Universidade de São Paulo, na zona oeste da capital paulista, na madrugada do último sábado. Na ocorrência também foram assassinados o sargento José Valdir de Oliveira Junior, 37, e o soldado Celso Ferreira Menezes Junior, 33. Segundo a Polícia Militar, essa pode ser a ação com maior número de mortos da história da corporação.

O pai de Victor disse que decidiu continuar a celebração dos casamentos, mesmo diante de uma notícia tão triste, porque não queria estragar o dia da alegria de tantas pessoas —havia 17 celebrações marcadas para aquela manhã.

Foi também um sentimento de amor ao próximo, conta Alex, que levou o filho a ingressar na PM. Depois de salvar a vida uma criança de afogamento, em 2010, decidiu que queria fazer mais. “Ele descobriu que tinha o dom de ajudar as pessoas”, disse o pai. “Queria ajudar as pessoas e ser justo com elas.”

O policial militar Victor Rodrigues Pinto, 29, morto no último sábado (8) na zona este de capital; na foto, de 2017, ele havia deixado o bigode em homenagem ao pai, o juiz de casamento Alex Passerini Pinto - Arquivo de família

Victor ingressou na corporação em 2013. Havia três meses que estava na Força Tática do 23º batalhão, na capital, lugar em que, segundo a família, tentava ser aceito havia anos. “Ele estava muito feliz”, disse o pai.

Segundo o comandante da companhia da Força Tática, o tenente Vinício Augusto Volterelli Tavares, 38, os três policiais eram exemplares e benquistos por todos os colegas de farda. “O profissionalismo deles era tamanho que, mesmo perto do término do serviço, ainda estavam realizando atividades de patrulhamento e foram fazer a abordagem. Eles poderiam estar mais próximos do batalhão, para recolher, mas não. Estavam atentos ao policiamento.”

Segundo a investigação policial, os três policiais foram mortos por Cauê Dorreto de Assis, um empresário de 24 anos que se passava por policial civil havia cerca de um ano, mesmo para a família e amigos.

Entre os amigos que acreditaram nessa versão estava o dono do carro em que estavam naquela noite, o consultor de vendas Vitor Mendonça Ferreira, 24, a única testemunha do crime e quem ajudou os investigadores a entenderem dinâmica de uma ação que deixou perplexa a polícia paulista.

Segundo ele, Cauê decidiu abordar um motoqueiro que estava em atitudes suspeitas e com a placa da moto encoberta. Quando ele realizava a abordagem, apareceu a viatura da Força Tática do outro lado da avenida. Cauê liberou, então, o motoqueiro e voltou para o carro do amigo para deixarem o local. Ao perceber que a viatura seguia o carro deles, o próprio Cauê mandou que o colega estacionasse para, segundo a testemunha, ele “trocar umas ideias” com os PMs.

A testemunha disse que tudo parecia bem porque tinha certeza de que, após os PMs confirmarem a identidade do policial civil, todos iriam para casa. Ao parar o carro, Cauê se apresentou como agente policial, com um distintivo no peito, entregou a arma aos PMs e a funcional para conferência.

Ainda segundo Ferreira, ele e o falso policial ficaram ao lado de um PM, enquanto os outros dois foram até a porta da viatura para checar as informações no banco de dados da polícia. Foi nesse momento que Cauê teria dito à testemunha: “Vitinho, deu ruim”.

O empresário sacou, então, uma segunda arma, uma pistola 9mm, escondida na cintura, e passou a atirar contra os policiais. Victor caiu primeiro, depois o sargento José Valdir. Por fim, Celso, o motorista, provável autor do único disparo que acertou o peito de Cauê.

Ferreira saiu correndo tão logo ouviu o primeiro disparo para pedir ajuda. A polícia acredita na versão dele.

Logo após a sequência dos disparos, passou pelo local o também policial militar Guilherme Bechara de Oliveira, 27. Ele diz que avistou uma viatura da PM do outro lado da avenida, estacionada atrás do Fox branco, em posição de abordagem, mas não percebeu a movimentação esperada dos policiais nessa ação. A cena causou estranheza e, por isso, decidiu checar.

Ao se aproximar dos veículos, viu dois policiais caídos ao chão e um terceiro dentro da viatura, todos baleados. O PM chamava apoio por telefone quando viu sair do Fox um rapaz que, cambaleando, pegou uma arma no chão, ao lado da viatura. Oliveira sacou a pistola e determinou que o suspeito levantasse as mãos. “Eu sou policial civil”, disse Cauê, sentando-se na calçada, antes de cair para o lado, desfalecido.

Todos foram socorridos, mas nenhum deles sobreviveu.

Policiais que participaram da investigação dizem acreditar que Assis decidiu atacar os policiais como forma de manter a farsa, que terminaria com a consulta dos PMs ao banco de dados. Uma evidência disso seria o fato de Cauê ter arrancado da viatura o tablet onde pesquisariam seus dados.

“Ele era inteligente, vaidoso, frio, calculista e insensível. Características típicas de um psicopata”, disse o delegado Marcelo Jacobucci, divisionário do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa).

De acordo com o delegado Rodolpho Chiarelli Junior, que participou do início das investigações, Cauê não tinha antecedentes criminais. Tinha família estruturada e trabalhava como empresário da noite. “A família ficou chocada não só com as circunstâncias do crime mas também com a constatação de que ele [Cauê] não era policial”, disse o delegado. “A mãe nos disse que o filho havia chegado na sexta pela manhã, logo após ele sair do plantão."

Alex, pai de Victor, considera o último domingo (9) o pior Dia dos Pais da sua vida. O filho, conta, tinha combinado de passar na casa dele para deixar um presente. “Ele sempre me dava alguma coisa. Agora, não saberei o que tinha planejado para mim."

Victor morreu três dias antes de nascer seu filho, Samuel Victor. O bebê deu ao avô o que ele diz ser a única alegria desses dias. “Agradeço pelas homenagens à memória do meu herói, ídolo e amado filho.”

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que rotineiramente homenageia policiais e soldados mortos em serviço (sobretudo em São Paulo e Rio de Janeiro, governados por desafetos políticos), visitou o bebê na própria quarta-feira.

Além disso, a Secretaria de Comunicação do governo federal, em mensagem no último fim de semana, equiparou as mortes às de mais de 100 mil brasileiros vítimas da Covid ao lamentar a superação da marca de óbitos.

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Policiais mortos por falso policial civil:

Sargento José Valdir de Oliveira Junior, 37, estava na Polícia Militar havia 14 anos. Deixou uma filha adolescente, Gabrielly, e mulher, Bianca, que está grávida de gêmeos

Soldado Victor Rodrigues Pinto da Silva, 27, estava na Polícia Militar havia quase 7 anos. A mulher, Ana Carolina, deu à luz o primeiro filho do casal na última terça (11)

Soldado Celso Ferreira Menezes Junior, 33, estava na instituição havia mais de 10 anos. Filho de um policial civil

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