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Iniciativa conecta produtores com dificuldade de escoamento a famílias de baixa renda

Os alimentos vêm do chamado cinturão verde, área ao redor da capital paulista

Lucas Rodrigues
Agência Mural

Professora de sociologia na rede estadual e moradora de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, Solania Horti, 37, se surpreendeu ao saber que pequenos produtores na Grande São Paulo estavam destruindo alimentos por não conseguirem vendê-los devido à crise da Covid-19.

Enquanto isso, famílias estavam com dificuldades para conseguir comida durante a pandemia por causa da falta de renda. Foi o que estimulou Solania a criar o ‘De Ponta a Ponta’.

A ideia consiste em comprar a produção encalhada dos produtores para destinar para famílias com dificuldades nas periferias de São Paulo.

Os recursos são arrecadados por meio de doações. "Se a gente pode ser um elo entre quem tem comida e quem precisa dela, então vamos pensar em como fazer isso", conta Sol, como é conhecida.

Sol morou por 30 anos no Campo Limpo, distrito da zona sul de São Paulo, e é voluntária na UPM (União Popular de Mulheres), que atua há mais de 30 anos na região.

Sol (à esquerda) e voluntários do projeto de Ponta a Ponta (Arquivo Pessoal) - (Arquivo Pessoal)

Professora concursada desde 2010 em várias escolas de São Paulo, teve contato com as famílias de vários bairros o que facilitou a criação dessa rede.

Os alimentos vêm do chamado cinturão verde, área ao redor da capital paulista que ainda mantém produção agrícola em cidades como Mogi das Cruzes.

É lá que vive o agricultor Antônio Carlos Parreira Guedes Filho, 36, dono do Sítio Itapeti. Produtor de hortaliças orgânicas, ele estava com dificuldade para escoar a colheita e começou a participar do projeto em junho.

"Não consegui vender toda a produção. Tive que reduzí-la a 40%", diz. A medida impactou a variedade das hortaliças que também diminuíram em razão da baixa demanda. O faturamento do sítio caiu pela metade.

Atualmente, ele trabalha, basicamente, com folhagens como alface, couve, almeirão e escarola. Devido ao cenário imprevisível, os produtores estavam com medo de continuar a plantar. "A produção é pequena, mas muitos dependem dela", afirma.

Situação ainda pior foi enfrentada por Veruza Siqueira Fernandes, 36, dona do sítio Coração da Serra, também em Mogi das Cruzes. Para este ano, ela ampliou a produção e planejou a compra de um trator pequeno para ajudar nos trabalhos. Entretanto, a ampliação gerou mais perdas.

Antes do surto da Covid-19, Veruza chegou a comercializar mil unidades de hortaliças e 600 kg de legumes, semanalmente. Com o agravamento da pandemia, a produção foi reduzida pela metade.

"Perdi muito tomate. Ele é um alimento que dá muito trabalho para produzir. Então, quando você vê um tomate indo para o lixo, você fica decepcionado. Dá vontade de desistir", desabafa.

A relação de alimentos perdidos é longa e inclui ainda alfaces, abóboras e pimentões. Em valores, Veruza calcula que perdeu entre R$ 3.000 e R$ 4.000 mensais nos primeiros meses de pandemia.

Assim como Antônio, Veruza também conheceu o projeto por meio de uma indicação, e passou a vender o excedente para o projeto. Atualmente, dez produtores participam.

Criadora do De Ponta à Ponta, Sol é vice-diretora da escola estadual Professor José Monteiro Boanova, localizada na Lapa, na zona oeste. Os produtos são recebidos no colégio, onde é feita a montagem e a distribuição das cestas. Eles estimam que 300 famílias das zonas sul e oeste de São Paulo receberam alimentos.

Morador do Jaguaré, na zona oeste, o frentista Edson Barros da Silva, 32, se surpreendeu ao receber a cesta pela primeira vez com verduras e hortaliças. "Pensei que seria como essas convencionais. Não deixa de ser cesta, né? O que vale é a atitude", afirma.

Sol (à esquerda) e voluntários do projeto de Ponta a Ponta (Arquivo Pessoal) - (Arquivo Pessoal)

Vizinha de Edson, a diarista Maria Eliete Souza da Silva, 58, conheceu o projeto por meio dele. Para ela, a cesta ajuda bastante no orçamento. "O que levo daqui eu não preciso comprar", conta.

Além das famílias, cozinhas comunitárias também têm recebido doações. A cooperação não é fixa e funciona da seguinte forma: se, após a montagem das cestas, sobra algum alimento, ele é doado para a cozinha comunitária.

A chef Urideia Andrade, 35, é dona do buffet Flor de Mandacaru, localizado no Jaguaré, zona oeste da capital paulista, e foi obrigada a fechar o local em razão da quarentena.

Com a cozinha ociosa, Andrade se uniu a outras organizações e começou a produzir marmitas para distribuir nas comunidades. "A ideia da cozinha não é só alimentar as pessoas, mas, principalmente, a alma e a esperança por dias melhores".

Sol afirma que ele vai continuar mesmo após o fim do surto do novo coronavírus. A ideia é estreitar a relação entre a comunidade e os agricultores.

"Queremos levar os alunos para visitarem as hortas, desenvolver oficinas de aproveitamento dos alimentos. Aproximar os alunos das famílias da terra", diz.

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