Descrição de chapéu Obituário Roque Ferreira (1955 - 2020)

Mortes: Ícone socialista no interior, foi líder ferroviário e vereador

Ex-vereador em Bauru, Roque Ferreira morreu aos 65 anos vítima da Covid-19

São Paulo

"Jogue duro", costumava dizer Roque Ferreira aos companheiros de militância, aos amigos e aos familiares. O bordão estava diretamente relacionado à trajetória no sindicalismo e na política que o tornou um ícone da esquerda em Bauru (a 329 km de São Paulo).

Foi na cidade no interior de São Paulo que ele liderou ferroviários, foi vereador durante dois mandatos (entre 2009 e 2016), disputou outras diversas eleições e formou politicamente dezenas de jovens que o acompanhavam em leituras marxistas e andanças por portas de fábricas, assentamentos rurais e movimentos sociais.

Roque fazia parte do comitê central da Esquerda Marxista e da coordenação nacional do Movimento Negro Socialista. Um dos fundadores do PT em Bauru, trocou o partido pelo PSOL em 2015 após anos de insatisfações com os rumos do partido que ajudou a construir.

Roque Ferreira segura o microfone em meio a multidão
O sindicalista e ex-vereador Roque Ferreira em uma das centenas de manifestações de que participou - Reprodução/Facebook

Além de sindicalista e militante político, Roque também era carnavalesco. Ele foi um dos fundadores da escola de samba Império da Vila Nova Esperança, em Bauru, e dirigiu a agremiação durante 15 anos. Os enredos da escola falavam sobre exclusão e racismo.

Este ano ele era pré-candidato a prefeito pelo PSOL até ter o caminho interrompido pelo novo coronavírus. Internado desde o dia 22 de agosto, o socialista morreu na sexta-feira (4) aos 65 anos.

Apesar dos impedimentos da pandemia, o sepultamento atraiu amigos e admiradores que organizaram uma carreata e acompanharam o cortejo funerário. Alguns seguiram com os punhos para cima, para fora do carro, fazendo o tradicional símbolo de luta. Outros carregaram bandeiras identificadas com a ideologia do homenageado.

Como em uma assembleia sindical, o microfone do carro de som levado até a porta do cemitério foi compartilhado entre várias pessoas presentes para discursos que misturaram reverência a Roque e pedidos de "Fora Bolsonaro".

Uma das despedidas mais tocantes partiu da mulher, Tatiana Calmon, que cantou "Naquela Estação", de Caetano Veloso, João Donato e Ronaldo Bastos, na frente de um bar escolhido para o encontro dos amigos que fariam a homenagem. O bar é ponto de encontro de militantes de esquerda.

A canção, cuja letra fala da despedida de alguém que fica na estação enquanto vê seu amor partir em uma viagem de trem, foi escolhida sob medida para o ferroviário que foi líder sindical e mobilizou a categoria contra a privatização da antiga Rede Ferroviária Federal - sem sucesso.

Outra homenagem foi feita por admiradores que deixaram flores na chamada "esquina da resistência", no calçadão de Bauru. Antes da pandemia, Roque passava os sábados no local protestando, distribuindo panfletos, divulgando publicações socialistas e conversando com quem se interessasse.

O ex-vereador recebeu homenagens também fora da cidade.

"Roque nos deixa, mas ficam o exemplo, sua generosidade e seu compromisso popular", afirmou o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP). "Foram muitos anos de admiração e parceria com esse lutador de primeira qualidade nas trincheiras do nosso povo", lembrou o ex-deputado federal Renato Simões (PT-SP).

Além de Tatiana, Roque deixou quatro filhos e dois netos.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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