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Brasil é rápido para vacinar, mas envio de doses é limitado, diz coordenadora do programa de imunizações

Em entrevista, Francieli Fontana admite problemas com número reduzido inicial de doses, mas nega que campanha seja interrompida

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Brasília

Em meio às críticas de lentidão na campanha de vacinação, a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, Francieli Fontana, atribui a situação atual à baixa disponibilidade inicial de doses e atrasos na entrega por produtores.

“Se tivéssemos uma disponibilidade maior de doses pelo fornecedor, com cronograma de entrega regular, teríamos como vacinar de forma acelerada. Como dependemos da entrega do produtor, planejamos a entrega em cima desses quantitativos”, diz em entrevista à Folha.

O problema coincide com o atraso na obtenção de insumos, aponta. Com poucas doses, algumas capitais já afirmam que podem interromper as campanhas. Para Fontana, a situação não deve ser lida como interrupção. “Se os quantitativos enviados já chegaram ao fim, os municípios fizeram um bom trabalho e já vacinaram o público definido de acordo com as doses enviadas”, disse.

Segundo ela, a previsão da pasta é de envio de mais 4,9 milhões de doses após o Carnaval.

Alvo de cobrança do STF (Supremo Tribunal Federal) por falta de um cronograma dos públicos prioritários, a coordenadora diz que a pasta deve atualizar o plano para deixar mais clara a ordem prevista e que o próximo envio deve ser centrado em idosos de 85 a 89 anos.

Atualmente, o ministério avalia incluir mais três grupos entre aqueles na fila de prioridade: pessoas que vivem em abrigos, refugiados e trabalhadores de aeroportos.

Mulher segura microfone e fala
Francieli Fontana Sutile Tardetti Fantinato - Michel Jesus/Câmara dos Deputados

O Brasil é hoje reconhecido por ter um dos maiores programas de vacinação do mundo. Mesmo assim, o ritmo de aplicação das doses tem sido considerado lento por especialistas. O que leva a esse cenário? Iniciamos a campanha em 18 de janeiro, de acordo com os quantitativos de doses que recebemos. Foram distribuídas primeiro 6 milhões de doses do Butantan, depois 2 milhões da AstraZeneca, 906 mil doses do Butantan e no último final de semana mais 2,9 milhões do Butantan. Estamos trabalhando numa estratégia com as vacinas do Butantan de encaminhar duas doses, o que reduz pela metade o público prioritário [devido ao intervalo de mais curto de aplicação das doses em relação à vacina da AstraZeneca]. Foram 9,8 milhões de doses para 4,6 milhões de pessoas.

Quando se fala que a vacinação está atrasada, não vejo dessa forma. Pegamos um público indígena de difícil acesso, e encaminhamos doses para 100% desse grupo, por exemplo. Além disso, a aplicação das vacinas fica a cargo dos municípios, e cada um organiza sua estratégia de vacinação.

O andamento da campanha está acontecendo de acordo com a disponibilidade de doses. Se tivéssemos uma disponibilidade maior de doses pelo fornecedor, com cronograma regular, teríamos como vacinar de forma acelerada. Mas como dependemos da entrega do produtor, planejamos a entrega em cima desses quantitativos.

Já enviamos doses que servem para 100% dos idosos institucionalizados, 100% da população indígena, 73% dos trabalhadores de saúde e 100% da população acima de 90 anos. O próximo grupo prioritário vai ser o grupo de 85 a 89 anos e o restante dos trabalhadores de saúde.

Prefeituras de diferentes capitais já dizem que, caso não receberem mais doses, devem interromper a campanha. Como deve resolver essa situação?
A campanha não será interrompida. Se os quantitativos enviados já chegaram ao fim, os municípios fizeram um bom trabalho e já vacinaram o público definido de acordo com os quantitativos enviados para atendê-los na integralidade, exceto trabalhador de saúde, para o qual foi enviado 73%. Destaco que após o Carnaval já temos previsão de novas doses, que assim que forem entregues ao Ministério da Saúde, serão enviadas imediatamente aos estados, que abastecerão seus municípios.

Até o dia 23, vamos receber 4,9 milhões de doses, e há previsão de mais quantitativos até o fim do mês. Acreditamos que a partir de março tenhamos um cenário mais positivo pelos produtores.

O STF pediu esclarecimentos do Ministério da Saúde sobre o cronograma de vacinação. Estados e municípios também dizem que faltam orientações mais precisas. Como deve ficar esse cronograma? E por que houve atraso nessa definição?
O cronograma depende da capacidade produtiva e das negociações [com fornecedores]. Não temos, como PNI, muita governabilidade em relação ao calendário de entrega de doses. Recentemente, por exemplo, era para termos recebido do Butantan 3,2 milhões de doses, e acabamos recebendo 2,9 milhões.

Estamos sendo cautelosos nesse sentido de tentar atender na integralidade o grupo que estávamos prevendo, e isso sempre alinhado a aquilo que o produtor nos passa. O Butantan, por exemplo, passou uma previsão até abril de 42 milhões de doses. Precisamos ter um pouco de cautela para entender se isso vai ser regular, porque receberam agora os insumos [para fabricação].

Ter um cronograma fechado [de aplicação das doses] sem ter um cronograma regular de entrega é um risco para programar a campanha de vacinação.

O maior problema hoje então é o volume de doses?
É. Estamos recebendo um quantitativo ainda limitado. E temos um plano inicial para atender 77 milhões de brasileiros [em grupos prioritários]. Se for pensar em duas doses, nossa necessidade é de no mínimo 154 milhões delas, um número que aumenta se considerar o risco de 5% de perda. Precisamos então receber esses insumos e o produto para poder fazer a estratégia de vacinação.

O Brasil é muito rápido em vacinar. Temos experiência. Mas não podemos comparar com campanhas anteriores onde já tinha um cronograma de entrega muito mais definido, como na influenza. Hoje, não tendo essa regularidade, tendo escassez mundial e essa questão do IFA, estamos sendo cautelosos.

Quantas doses o PNI considera hoje para vacinação?
Temos previstas 354 milhões de doses que foram adquiridas de diferentes produtores. Em cima desse quantitativo, conseguimos vacinar todos os grupos prioritários, e temos intenção de ampliar para os demais grupos que tenham indicação de vacinas.

Em todos os documentos que o PNI vem emitindo, dizemos que queremos vacinar toda a população dentro das indicações. Com as doses previstas, é possível vacinar ao menos 150 milhões de pessoas.

Há uma estimativa de em quanto tempo vamos conseguir terminar a campanha e vacinar toda a população?
Não temos como passar uma data final de campanha sem ter uma distribuição regular. A partir de julho, por exemplo, a ideia é que haja entrega de vacinas 100% produzidas pela Fiocruz. A data final depende da confirmação desses cronogramas. Há duas novas negociações em andamento [para compra de vacinas], uma da Covaxin e outra da Sputnik.

Uma vez que já se sabia da necessidade de vacinação, não dava para o ministério ter feito essas negociações mais cedo e com mais produtores, em vez de apostar em uma só vacina? O PNI chegou a fazer uma recomendação para aumentar o número de doses?
O papel do PNI começa a partir do momento em que a vacina está disponível, em que ela passa pelos ensaios clínicos, tem a liberação da Anvisa e há a incorporação de tecnologia. Nosso papel começa a partir daí [equipe que acompanha entrevista diz que a aquisição é feita pela secretaria-executiva do ministério, e não passa pelo PNI]. Recomendamos sim que se adquira vacinas suficientes, porque não faria sentido elaborar uma estratégia sem ter vacina, e foram feitos acordos.

Hoje o Ministério da Saúde sabe de fato quantas doses foram aplicadas?
Temos em nosso painel 1,5 milhão de doses aplicadas, mas temos um atraso na inserção dessas informações. Estamos trabalhando para melhorar essa informação em conversa com estados e municípios, para mais rapidamente possível para termos acesso [a esses dados]. Temos município que tem conectividade, e outros que não tem. São problemas que não estão relacionados ao ministério, são relacionados a municípios.

Mas esse problema já não poderia ser resolvido? O último balanço do consórcio de veículos de imprensa, por exemplo, apontava 4,6 milhões de doses aplicadas. Com quase um mês de vacinação, o ministério não poderia ter um monitoramento melhor?
O consórcio usa dados agregados, que é muito menos complexo de ser recebido. Tivemos o cuidado de trabalhar com sistema de informação nominal, porque é uma campanha que exige uma rastreabilidade do indivíduo vacinado, tendo em vista que é uma vacina nova. Tenho que saber que você tomou a dose de uma vacina e vai tomar outra da mesma, porque não existe intercambialidade. Estamos fazendo esforços para que os problemas do sistema sejam resolvidos, e orientado municípios para que façam a inserção de dados no menor tempo possível.

Mesmo com as recomendações do PNI, vemos estados adotando critérios diferentes de vacinação. Há estados que decidiram vacinar todos os trabalhadores da saúde, até mesmo da área administrativa, ou que incluíram mais grupos. Quais podem ser os impactos?
Dos trabalhadores de saúde, fizemos um escalonamento para facilitar na ponta. Primeiro era para vacinar as próprias equipes de vacinação, os das equipes de longa permanência e depois os da urgência e emergência na linha de frente da Covid, e depois os demais. Essa era a orientação geral. Mas houve uma flexibilização para que a decisão final fosse com estados e municípios. Eles poderiam adequar à realidade local, desde que dentro do que foi enviado, senão inviabiliza a estratégia de vacinação.

Sobre as outras iniciativas, fizemos uma nota orientando que se siga as recomendações do Ministério da Saúde tendo em vista que temos quantitativo limitado de doses. Se eu mando vacinas para o grupo acima de 90 anos e estão vacinando acima de 85, não tenho como garantir doses extras neste momento.

Mesmo tendo uma lista de grupos prioritários, faltam orientações específicas. Um exemplo é o grupo de pessoas com comorbidades. Já sabem como vão organizar e quais devem ser os primeiros a receber a vacina?
Esse grupo é de 17 milhões de pessoas. O que estamos pensando em fazer quando começar essa fase: se recebermos um quantitativo de 34 milhões, vamos colocar todos em um momento só. E aí a pessoa vai apresentar uma receita, um relatório médico ou um prontuário que comprova a situação. Mas se não recebermos quantidade suficiente, nossa estratégia vai ser aplicar por faixa etária. Então começaríamos com pessoas de 50 a 59 anos de idade com comorbidades. Quanto maior a idade e com comorbidades, vemos que o risco para a Covid aumenta.

Temos visto pedidos e lobby de algumas categorias para entrarem no plano de vacinação como prioridade. Avaliam aceitar algum deles?
Quando definimos os grupos prioritários, observamos o risco de complicação e morte, a manutenção do funcionamento dos serviços de saúde e dos serviços essenciais. Contemplamos a maioria dos grupos que entravam nesses objetivos.

Também recebemos 45 pedidos extras de inserção. Vemos que muitos desses pedidos são de pessoas já priorizadas mas que achavam que estavam excluídos do plano.

Alguns grupos que solicitaram e que estamos avaliando incluir são aqueles que vivem em abrigos, refugiados e pessoas que trabalham no aeroporto, porque inicialmente entraram só uma parte dos aeroviários. Vamos discutir com a câmara técnica, porque não é uma decisão unilateral.

Vemos alguns estados pedindo para usar todas as doses, sem reservar a segunda. Também já foi citada a possibilidade de dose única. Isso está em avaliação?
Temos duas vacinas. A da AstraZeneca tem intervalo de 8 a 12 semanas para a segunda dose. Mandamos a vacina para uma dose agora e mandaremos outra quantidade para a segunda.

Em relação à Coronavac, enviamos já as duas doses para garantir esquema completo. E a nossa orientação continua de guardar a segunda dose, porque a eficácia da vacina é com duas. Quando os estudos avançarem, e à luz de novas evidências, isso pode ser rediscutido.

O que acontece com os municípios que não reservaram a segunda dose?
Nesse momento, com cronograma irregular, há um risco de não conseguir fazer a segunda dose. Se vacinarem a mais, talvez não consigam garantir a segunda dose, e não podemos garantir a eficácia da vacina, porque os estudos foram feitos com doses nesses intervalos. Por isso precisa ter cuidado para ter atenção no que foi estudado.

Há uma preocupação sobre novas variantes que têm sido identificadas. Qual a orientação do PNI diante disso?
As variantes vêm sendo acompanhadas pelo Ministério da Saúde por meio de vigilância genômica, Nesse momento a orientação nossa é a mesma da OMS, de continuar a vacinação com as vacinas disponíveis até entender melhor esse cenário.

Vemos alguns países que estão mais avançados na vacinação dizendo que veem uma queda no total de casos que coincide com o aumento na vacinação. Em quanto tempo podemos ter esses resultados no Brasil?
Estamos ainda no começo da campanha. Vamos ver esse impacto só mais a longo prazo, quando atingirmos um público prioritário maior. Se eu conseguir vacinar os grupos prioritários até o fim do primeiro semestre, já posso fazer uma avaliação para verificar se teve impacto ou não.

Há previsão de quando podemos chegar a uma imunidade coletiva [com as vacinas]?
É muito cedo para falar em imunidade coletiva. Precisamos ter um pouco de cautela em relação a isso. Nossa orientação é que se mantenham medidas como uso de máscara, álcool em gel e evitar aglomerações. Independente da vacinação, essas medidas devem ser mantidas.

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