Descrição de chapéu Folhajus

Após três meses, investigação sobre sumiço de meninos em Belford Roxo (RJ) patina

Lucas Matheus, Alexandre e Fernando Henrique estão desaparecidos desde o final de dezembro

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Rio de Janeiro

Todo domingo a família de Lucas Matheus da Silva, 8, e Alexandre da Silva, 10, se reunia para almoçar. Era o que os primos pretendiam fazer naquele 27 de dezembro de 2020. Eles jogaram bola de manhã e voltaram para tomar banho.

Como a comida ainda não estava pronta, beliscaram um pão e desceram para brincar de novo no campo de futebol com o amigo Fernando Henrique Soares, 11, que os esperava. Só que a hora do almoço chegou e eles nunca retornaram.

Lucas Matheus, Alexandre e Fernando Henrique estão desaparecidos desde aquela tarde. Enquanto isso, as famílias aguardam na comunidade de Castelar, em Belford Roxo (região metropolitana do Rio de Janeiro), resultados das investigações que já duram mais de três meses.

“Mês que vem é meu aniversário, queria ele como presente na minha vida. Tenho outros dois meninos, o de 5 anos pega uma toalha e limpa meu rosto quando estou chorando. Fico triste porque não sou mais a mesma”, diz Tatiana Ribeiro, mãe de Fernando.

O sumiço voltou a suscitar dúvidas a partir da repercussão do caso de Henry Borel, morto aos 4 anos dentro de casa, e gerou comparações entre a atenção dada pelas polícias, pela mídia e pela sociedade em geral a casos ocorridos em áreas ricas ou pobres, com crianças brancas ou negras.

A defensora pública Gislaine Kepe, que está acompanhando as mães dos meninos, não vê essa relação entre os dois casos especificamente. Apesar de citar o atraso no início das buscas pelos garotos, ela afirma que as diligências estão sendo feitas e que a demora na apuração de desaparecimentos ocorre em qualquer classe social.

“Vejo um despreparo da Polícia Civil em geral na busca de pessoas desaparecidas. Ela é equipada para investigar crimes, e nem sempre há crimes envolvidos nessas ocorrências, por isso é preciso criar grupos especializados, como já existe na cidade do Rio”, diz.

Jovita Belfort, superintendente estadual de pessoas desaparecidas, concorda: “A polícia está muito mais preparada para trabalhar com homicídio. Desaparecimento envolve várias variantes e causas, contato com um leque de instituições como hospitais e abrigos. É preciso especialização”.

Mas as famílias veem descaso. "Naquele dia em que fomos na delegacia, se tivessem puxado as câmeras, ido atrás das crianças, tenho certeza de que teríamos tido uma resposta”, diz Tatiana. As mães ouviram de policiais que só poderiam registrar o sumiço 24 horas depois, sendo que o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê buscas imediatas.

“Eles demoraram e ainda está demorando, porque o caso do Henry em menos de um mês teve resultado. Me sinto humilhada porque não tenho dinheiro, meu filho não é branco. Tenho certeza que se eu morasse em Copacabana, Leblon, essas crianças estariam aqui", critica.

Lucas, Alexandre e Fernando, os três meninos desaparecidos em Belford Roxo (RJ) ao final de dezembro
Lucas, Alexandre e Fernando, os três meninos desaparecidos em Belford Roxo (RJ) ao final de dezembro - Reprodução

A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, responsável pelas investigações, tem um setor dedicado a desaparecimentos e montou recentemente uma força-tarefa que vai contar também com recursos da Delegacia de Descoberta de Paradeiros da capital.

A pista mais concreta divulgada até agora é a gravação de uma câmera de segurança que mostra Lucas, Alexandre e Fernando andando normalmente em uma rua de um bairro vizinho. O horário da filmagem marca 13h39min.

A polícia já havia colhido imagens de dezenas de câmeras, mas como a qualidade estava ruim não havia identificado as crianças. Elas foram reconhecidas no início de março, após limpeza e análise feitas pelo Ministério Público estadual com um programa mais sofisticado.

Uma das linhas de investigação é que os meninos teriam sido pegos pelo tráfico local, como confirmou o delegado titular Uriel Alcântara, mas os elementos que levam a essa conclusão ainda não estão claros. Ele disse que não conseguiria conversar com a reportagem nesta sexta (16).

A Defensoria tenta conseguir informações que não atrapalhem a apuração para passar às famílias. “Não temos certeza dessa linha de investigação, até porque não sabemos as diligências realizadas até agora. Estamos solicitando a atualização das peças do inquérito, mas até agora não enviaram”, afirma Kepe.

Em janeiro, um vizinho chegou a ser levado pelas famílias à delegacia porque teria dito que “ganharia muito dinheiro com três meninos” dias antes de os garotos sumirem. O envolvimento dele, porém, foi descartado pela polícia. Ele disse ter sido torturado por traficantes da comunidade.

Segundo nota da delegacia, as crianças teriam saído de onde moram, em Castelar, para a feira de Areia Branca, percurso de aproximadamente 2,7 km, “em que os diversos caminhos possíveis foram percorridos e onde foi registrada a passagem delas em vídeo” —uma hipótese não confirmada é de que um deles teria ido comprar um passarinho.

A polícia diz que já fez mais de 80 diligências, além de buscas em diversos bairros do Rio e de cidades da Baixada, onde imagens foram coletadas e apresentadas às famílias. Também rebate que começou a apuração “imediatamente após a comunicação do desaparecimento”, com o registro da ocorrência e um primeiro depoimento formal.

Procurado para dar entrevista, o Ministério Público respondeu que não seria possível e informou que, “por ora, não há novidade a ser divulgada e que as investigações prosseguem em conjunto com a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense”.

A Baixada Fluminense tem um problema crônico de desaparecimentos, com cerca de 15 registros diários, segundo Bruno Dauaire, secretário estadual de Direitos Humanos. A taxa foi de 32 casos a cada 100 mil habitantes na região em 2020, contra 28 no estado todo.

Para se ter uma ideia, o RJ registrou quase tantos desaparecimentos (3.350) quanto homicídios dolosos (3.544) no ano passado, de acordo com dados do ISP (Instituto de Segurança Pública).

O sumiço dos meninos de Belford Roxo acelerou a publicação de um decreto pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em fevereiro, que regulamenta a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas.

Tatiana ainda torce para ver o filho soltar pipa, jogar bola de gude, comer batata frita e lanchar com ela quando receber o Bolsa Família, como costumava fazer. “Se não vi o corpo, para mim eles estão vivos. Quero meu filho vivo ou morto. Se estiver morto vamos fazer um enterro digno”, diz.

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