Descrição de chapéu

Geografia e evolução da Polícia Civil e das milícias explicam Jacarezinho

Mas isso não é desculpa para os que tomaram as decisões erradas ou foram partícipes na ação

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Guaracy Mingardi

Analista criminal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ex-investigador, é autor do livro "Tiras, Gansos e Trutas" (Scritta, 1992)

São Paulo

A primeira reação à tragédia ocorrida no Jacarezinho é o assombro devido à quantidade de mortos, pelo menos 28. A segunda são as inevitáveis perguntas: Por que entrar atirando? Haveria necessidade de ação imediata? Os procurados não poderiam ser rastreados um por um e presos quando estivessem longe de suas bases?

Para responder essas perguntas é necessário ir além do óbvio e olhar a evolução da criminalidade organizada e da política criminal.

Não é nenhuma surpresa para quem acompanha a segurança pública carioca a preferência por operações, em detrimento da investigação e do trabalho de inteligência. Esse caminho faz parte da opção tomada há décadas por quase todos os Secretários de Segurança e Chefes da Polícia Civil.

Com o surgimento do Comando Vermelho na década de 1970 e seu controle armado de vastas porções do território carioca, a atuação das polícias foi mudando paulatinamente. Já que não tinha acesso ao território dominado pelo CV, a Polícia Civil deixou de fazer investigações nele, focando os inquéritos nos crimes cometidos no ”asfalto”.

Enquanto isso a Polícia Militar se aparelhava para a guerra, ampliando suas unidades de confronto, como o Bope, e as empregando cotidianamente nos tiroteios contra traficantes. Primeiro o CV, depois as organizações rivais, como o Terceiro Comando.

Esse movimento foi, aos poucos, sendo imitado pela Polícia Civil, que criou suas próprias unidades de confronto, treinando e selecionando seus homens para o tiroteio, e não para a investigação. E isso levou a mudança do perfil dos delegados e investigadores. Cada vez mais ingressavam na instituição jovens que se viam como guerreiros, combatentes.

Na década de 1960 havia uma disputa velada na Polícia Civil por dois posicionamentos institucionais. Um deles representado por Perpétuo de Freitas, conhecido por ter inúmeros informantes e pela sua capacidade de prender criminosos procurados. O outro lado da moeda foi ocupado por Milton Le Coq, cuja fama era baseada na valentia e no fato de trazer os criminosos, vivos ou mortos.

Por uma série de circunstâncias, ambos foram assassinados com poucos dias de diferença. Le Coq por um criminoso conhecido e Perpétuo por um colega policial, pertencente ao grupo rival.

O que interessa hoje é que, com o correr dos anos, a Polícia Civil carioca foi sendo ocupada, cada vez mais, por discípulos de Le Coq. Policiais que acreditam que investigar é chato e não libera adrenalina. E que entrar semifardado no morro e trocar tiros com criminosos é sua função real, aquela que a sociedade espera deles.

Portanto não é de hoje que muitos policiais civis preferem a ação imediata ao trabalho investigativo. Não é nem mesmo uma exclusividade carioca. Há décadas, quando eu estava na Polícia Civil paulista, um chefe dos tiras disse que para ser investigador seria necessário ter paciência, principalmente para fazer campanas, entrevistar pessoas etc. O problema é que os novatos, segundo ele, preferiam fazer tudo na trombada, na sorte. Ou seja, usando mais a força do que o cérebro.

O segundo fator que explica a chacina de Jacarezinho tem a ver com eventos mais recentes. Um deles é a escolha do Comando Vermelho como alvo. Por que não o Terceiro Comando, ou uma das milícias? O motivo mais óbvio é que o CV é constituído de jovens sanguinários, sem qualquer preocupação com a comunidade e que odeiam a polícia. E por sua vez são odiados pelos policiais. Já com as milícias existe uma acomodação, inclusive porque vários deles são policiais, ex-policiais ou bombeiros.

Outro fator, não muito conhecido, é que existe também uma certa aliança entre o Terceiro Comando e alguns grupos milicianos. Inclusive consta que determinados locais, tomados pela milícia, foram repassados a essa organização criminosa. Com uma divisão clara dos interesses: os traficantes cuidam da venda das drogas, enquanto a extorsão dos moradores e comerciantes fica por conta da milícia. E assim um pouco da relação existente com os milicianos acaba por servir de guarda-chuva aos criminosos.

A geografia também teve seu papel no evento. A favela fica a cerca de 500 metros da Cidade da Polícia, local onde se concentram quase todas as unidades operacionais da PC. O que faz com que alguns vejam o controle dela por traficantes como um acinte.

Portanto não foi o acaso que levou aos eventos do dia 6 de maio –a história institucional da Polícia Civil, os arranjos políticos dos criminosos e a geografia ajudaram a desencadear a tragédia. O que não desculpa aqueles que tomaram as decisões erradas ou foram partícipes na ação.

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