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'Migrantes da pandemia' se mudam com crianças para ruas do centro de São Paulo

Famílias de outros estados ou cidades passam a morar nas praças Princesa Isabel e da Sé

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Famílias que passaram a morar na praça Princesa Isabel, no centro de SP, durante a pandemia

Famílias que passaram a morar na praça Princesa Isabel, no centro de SP, durante a pandemia Bruno Santos/ Folhapress

Artur Rodrigues Bruno Santos
São Paulo

O menino de seis anos monta um quebra-cabeça do Homem-Aranha, enquanto uma garotinha de quatro anos balança numa rede. Ali perto, outra criança assiste a uma aula pelo telefone celular.

Poderia ser mais um dia normal na vida dessas crianças, não fosse pelo fato de que elas fazem tudo isso a céu aberto, nas praças e calçadas da cidade de São Paulo, que vive uma onda de frio.

Seus pais migraram de outros estados ou vieram de outras cidades de São Paulo, após perderem empregos e casas na esteira da pandemia do coronavírus.

Acabaram em barracas improvisadas, aglomerando-se nas ruas no centro paulistano, um polo de atração graças à oferta de alimentos e de outras doações trazidas por diversas entidades. No entanto, encaram as baixas temperaturas e as dificuldades de criar crianças nas ruas da cidade.

Mônica Santos com um dos filhos em uma barraca na praça Princesa Isabel, no centro de SP
Mônica Santos com um dos filhos em uma barraca na praça Princesa Isabel, no centro de SP - Bruno Santos/ Folhapress

Mônica Santos, 22, está apenas há dois meses em São Paulo com o marido e dois filhos, um deles um bebê de sete meses. Com a piora da economia ao longo da pandemia, ela resolveu se mudar de Maceió (AL) para não passar fome.

Ela passa os dias na praça Princesa Isabel, ao lado da região conhecida como cracolândia, que foi tomada por diversas pessoas em situação parecida, algumas em barracas feitas com sacos de lixo.

Mônica dorme em um albergue municipal com a família, de onde sai cedinho e vai para a praça. “A maioria das pessoas de lá do albergue sai de lá e vem para cá, para esperar dar 17h, pegar a vaga e voltar”, diz ela.

Ela define a experiência no abrigo como humilhante, diante da falta de higiene e de estrutura.

Uma vez na rua, sem local para deixar os filhos enquanto procura um emprego, vê pouca perspectiva de saída dessa vida. Ela diz que tentou uma vaga em uma creche pública para o filho mais novo, mas não conseguiu.

Atualmente, as unidades operam com grandes restrições de capacidade devido à pandemia, tornando situações como a dela bastante comuns.

O jeito é tentar entreter as crianças como pode, com brinquedos doados. Com frequência, diz ouvir ameaças de notificação ao conselho tutelar por parte de agentes públicos. “Eu nem sei ler e quiseram que eu assinasse um papel”, diz.

Ela não é a única a viver com crianças por ali. Mãe de três filhos, Tainá Alves, 27, é uma das vizinhas de barraca. Há cerca de um ano, o marido dela perdeu o emprego, em Santa Catarina, e a família resolveu tentar alguma oportunidade em São Paulo.

Ela diz que já passou por um centro de acolhida para famílias e diz que também recebeu ameaças de notificação ao conselho tutelar ao sair para “manguear”, como chama o ato de pedir doações pelas ruas.

No dia em que conversou com a Folha, o tempo era quente, o que aumenta a população na praça. Nas noites mais frias, Tainá diz que usa o dinheiro que consegue nas ruas para pagar pernoites em hotéis baratos da região.

Desiludida com a situação em São Paulo, ela pretende voltar para seu estado natal. “Mas ainda não consegui juntar o dinheiro das passagens”, diz.

A prefeitura tem um programa para pagar as passagens de volta para pessoas em situação de dificuldade. Segundo a gestão, esse programa seria ampliado, possibilitando que os pedidos fossem feitos em um número maior de equipamentos.

Nas ruas, porém, a reportagem constatou desconhecimento sobre o programa. O padre Julio Lancellotti, vigário para o Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, diz que há lentidão da prefeitura nesse serviço, que tem demanda cada vez maior.

“Ouço diariamente pessoas com problemas que querem voltar [para suas cidades ou estados]”, diz o padre, que também notou uma maior presença de migrantes nas ruas da cidade.

O padre diz também que o perfil da população em situação de rua tem mudado, com maior proporção de famílias, em um mundo normalmente de homens solteiros. Com isso, muda o tipo de atendimento demandado —alternativas como locação social são muito mais desejadas do que acolhida em equipamentos municipais.

“A resposta da prefeitura é sempre institucional e de tutela. As pessoas não querem ser tuteladas, querem autonomia”, afirma o religioso.

Os dados da prefeitura confirmam o aumento do número de famílias nas ruas procurando por esses serviços, que, apesar disso, permanecem atuando com vagas ociosas.

Dados da Secretaria Municipal de Assistência Social de São Paulo mostram que os serviços de acolhida que recebem famílias e aqueles para mães com bebês tiveram uma média mensal de atendimentos 66% maior neste ano, na comparação de janeiro a maio em relação ao mesmo período do ano passado. A média mensal de vagas ocupadas passou de 7.192 para 11.938.

A rede para a população em situação de rua, diz a prefeitura, atua com ociosidade média acima de 1.000 vagas.

Além das famílias vindas de fora do estado, também há outras que migram de cidades da Grande São Paulo. É o caso de Kelly Keiko Maruya, 45.

Apesar de alugar uma casa em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, ela acaba passando boa parte do tempo morando na praça da Sé, com o marido e a filha de quatro anos. A opção por encarar a vida na rua se deve à dificuldade de se sustentar na própria cidade, onde há menos oportunidades de trabalho e doações.

No centro paulistano, ela consegue vender perfumes e cosméticos, enquanto o marido tem uma espécie de bar móvel, que cabe numa sacola, bem ali no meio da praça.

Como muitos que vivem por lá, ela acha que os albergues não atendem suas necessidades.

“Aqui muitas pessoas têm móveis, moram em lugar longe e querem vir para São Paulo. Esses prédios que estão vazios... podiam fazer para nós que temos crianças na rua. O pessoal não quer ir para os cafundós do Judas, porque aqui [no centro] é o lugar do dinheiro”, diz ela.

Enquanto trabalha, a filha de quatro anos usa a praça como quintal. “O pai dela coloca a rede para ela balançar e brincar. O celular também, a gente tem um celular e coloca para carregar à noite e ela fica assistindo quando dá”, diz.

O wi-fi da praça acaba sendo uma das saídas usadas pelos pais para manter as crianças entretidas. Enquanto as escolas não retomam o atendimento presencial, algumas também fazem aulas remotas com os aparelhos.

Essa foi a solução adotada por Everton José dos Santos, 40, que foi parar na praça da Sé após perder um emprego atuando em uma empreiteira. "As escolas estão paradas, então eles fazem pelo celular. A praça tem wi-fi", diz.

Fora isso, ele diz que é preciso ficar de olho nas crianças, porque na rua "só se aprende coisa ruim".

Everton morava até março em uma casa alugada no Itaim Paulista, no extremo leste da capital. Após perder o emprego, teve de abandonar o lugar, deixando até os móveis que tinha. "Você não coloca uma estante na rua, uma televisão na rua", diz. "Você passa lá, a casa está vazia."

Questionada sobre as crianças em situação de rua fora da escola, a gestão Ricardo Nunes informou que Secretaria Municipal de Educação "atende no momento até 35% da capacidade nas unidades". "A presença em sala de aula não é obrigatória e as atividades são repassadas por meio do Google Sala de Aula e em atividades impressas para os alunos que não frequentam o presencial", diz a gestão, lembrando que a partir de agosto os alunos serão atendidos de acordo com a capacidade física de cada unidade.

A prefeitura informou que há oito CAE (Centros de Acolhida Especiais) para famílias, com 864 vagas, nas regiões da Mooca, Sé, Ermelino Matarazzo, Penha e Santana.

"Os centros de acolhida destinados a famílias garantem acolhimento e atendimento a qualquer núcleo familiar. O diferencial dos serviços dessa modalidade é a possibilidade de famílias compartilharem o mesmo quarto", diz a gestão.

A rede, diz a gestão, atua com ociosidade. “Os equipamentos funcionam 24 horas de maneira ininterrupta e há em média 1.100 vagas ociosas diariamente em toda a rede de acolhimento voltada para população em situação de rua”, diz a gestão.

A gestão ainda afirmou que "a população pode ajudar as pessoas em situação de rua solicitando uma abordagem social por meio da Central 156 (ligação gratuita, opções 0 + 3), que funciona 24 horas por dia".

Nesta quarta, o poder público anunciou o programa Noites Solidárias, com acolhimento emergencial para 400 pessoas na estação do metrô Pedro II (linha vermelha, próximo à praça da Sé), um pedido do padre Lancellotti.

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