Gestão França amplia cursos a distância, mas não contrata professor

Polos de ensino do governo de SP foram abertos com falta de supervisores e mediadores

Marcelo Toledo Rogério Gentile
Ribeirão Preto (SP) e São Paulo

O governador de São Paulo, Márcio França (PSB), candidato à reeleição, criou 87 novos polos de ensino universitário a distância neste segundo semestre, mas inaugurou boa parte deles sem contar com o número adequado de professores supervisores e de professores mediadores.

O governador Márcio França (PSB), candidato à reeleição, anuncia novas vagas na Univesp em julho - Divulgação - 3.jul.2018/Governo de SP

Uma das principais bandeiras da campanha de França, a Univesp (Universidade Virtual do Estado de SP) possui 50 mil alunos em 330 pontos de ensino situados em 290 cidades.

 

No início de junho, para atendê-los, a universidade precisava contratar mais 94 supervisores, que atuam à distância, e 1.100 mediadores, responsáveis pela orientação e acompanhamento das atividades e provas presenciais.

A gestão, no entanto, mediante concurso, conseguiu contratar apenas 64 supervisores e cerca de 760 mediadores. A Univesp nega que haja prejuízo educacional com o déficit.

Nas duas últimas semanas, a Folha constatou que, em diferentes cidades, os cursos estão sendo realizados, a despeito da falta desses profissionais.

São os casos de 11 polos consultados (Altinópolis, Arealva, Araraquara, Cajamar, Cristais Paulista, Morro Agudo, Piracicaba, Pitangueiras, Presidente Venceslau, São Lourenço da Serra e Serrana), que improvisam sem servidores em ao menos um dos cursos ofertados.

Os mediadores têm entre as atribuições fazer a interlocução e a comunicação dos conteúdos entre o autor da disciplina e os alunos. Deve também manter contato permanente com os estudantes por meio da plataforma virtual, colaborar com a coordenação do curso e acompanhar o desenvolvimento das atividades presenciais e virtuais.

Em Presidente Venceslau, por exemplo, há uma mediadora para pedagogia, mas não para dois cursos de engenharia. Com isso, a profissional tem auxiliado alunos desses outros cursos. Mesma situação ocorre em Morro Agudo, com uma mediadora para três cursos. Em São Lourenço da Serra, além da ausência de dois mediadores, o laboratório de informática ainda não está operando como deveria.

À Folha funcionários dos polos relatam que o profissional faz falta e que outros estão tentando desempenhar a função. Dizem que dúvidas comuns aos cursos são mais facilmente respondidas, mas que conteúdos específicos estão exigindo a busca de auxílio com tutores virtuais —cujo retorno pode ocorrer apenas no dia seguinte.

Alunos relataram que a ausência prejudica as atividades, principalmente por serem polos novos e haver dúvidas em relação a procedimentos.

O número de mediadores por polo, contratados por R$ 2.500 mensais, com jornada de 40 horas semanais, varia conforme o total de cursos disponíveis. O correto é um para cada curso.

As aulas nos novos polos foram abertas para até cinco carreiras —pedagogia, engenharias de produção e computação, matemática e gestão pública. Nem todas as cidades têm todos os cursos. Em cerca de 40 delas, são dois os cursos disponíveis.

Na época da implantação do seu novo modelo pedagógico, no início do semestre, a presidente da Univesp, Fernanda Gouveia, declarou que “a presença do mediador nos polos garante a excelência na qualidade da aprendizagem”.

O projeto de ensino a distância é chamado por Márcio França de “revolucionário”, uma das principais “marcas” de sua administração.

França foi secretário do Desenvolvimento, pasta à qual a Univesp está vinculada, até abril, quando assumiu o governo em substituição a Geraldo Alckmin (PSDB), que deixou o cargo para disputar a Presidência da República.

Segundo declarou em entrevistas ao longo da campanha, até o final do próximo ano todo aluno que se formar no ensino médio terá garantida​ uma vaga na universidade virtual sem necessidade de passar por vestibular.

Em um ano, a Univesp passou de 3.000 alunos para os cerca de 50 mil, uma “meta ousada de universalização”, segundo a instituição de ensino. São oito cursos oferecidos: matemática, química, física, biologia, pedagogia, engenharias de computação e produção e o curso de tecnologia em gestão pública (parceria com o Centro Paula Souza).

Por isso, conforme a Univesp, em junho ela iniciou a implantação de um novo modelo pedagógico com a abertura do processo de seleção para contratar os mediadores presenciais, funções criadas para a nova formatação.

Dos mais de 4.000 inscritos, metade foi classificada e haverá nova convocação para preencher vagas remanescentes, segundo a Univesp.

Outro problema que tem afetado os alunos é a instabilidade do ambiente virtual de aprendizagem. Em setembro, foram registradas 13 queixas no site Reclame Aqui, 9 delas referentes a problemas no acesso ao sistema.

Falta de mediadores não prejudica ensino, diz governo

A ausência de mediadores não representa prejuízo educacional aos alunos da instituição, de acordo com a Univesp.

Por meio de sua assessoria, a universidade informou que o mediador é um “reforço ao suporte acadêmico já disponibilizado ao aluno”. “Nos polos onde não há mediadores presenciais, os tutores virtuais continuam oferecendo todo o apoio necessário aos alunos.”

De acordo com a Univesp, nos polos os estudantes também têm apoio de orientadores, funcionários destacados pelas prefeituras.

A universidade prevê contratações de mais mediadores após o término do período eleitoral, quando, pela legislação, elas poderão ser realizadas novamente.

Questionada sobre o total de mediadores e supervisores em falta nos 87 novos polos, a Univesp informou apenas que todos contam com profissionais “presenciais e/ou virtuais”.

Sobre as dificuldades dos alunos para acesso ao ambiente virtual, a universidade disse que implantou um novo sistema operacional e que “instabilidades pontuais“ ocorreram devido à migração de tecnologias. “Nenhum aluno será prejudicado para a entrega de atividades.”

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