Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Novo presidente do Inep diz que quer rever questões do Enem contra 'postura ideológica'

Para Rodrigues, pedido de Bolsonaro para ver prova representa 'preocupação com o Brasil'

Natália Cancian
Brasília

O novo diretor-presidente do Inep, instituto ligado ao Ministério da Educação, Marcus Vinícius Carvalho Rodrigues, disse nesta quinta-feira (24) que planeja um novo modelo para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) sem questões "ideológicas" e que discutirá a possibilidade do presidente Jair Bolsonaro (PSL) ter acesso prévio à prova.

“Vamos analisar o banco de questões e fazer com que tenha postura não ideológica e que priorize o que realmente é necessário, que é respeitar nossas crianças e nossos adolescentes”, disse.

Marcus Vinícius Carvalho Rodrigues (esq.), novo presidente do Inep, em 2014
Marcus Vinícius Carvalho Rodrigues (esq.), novo presidente do Inep, em 2014 - IBE-FGV/Divulgação

Rodrigues disse ainda que o pedido do presidente Jair Bolsonaro para ter acesso prévio à prova será analisado e que a demanda é “legítima”. 

“Eu como presidente do Inep posso ter acesso legal à prova. Isso será conversado e dentro dos aspectos legais será discutido”, afirmou.

Crítico de perguntas feitas no exame de 2018, como uma menção a linguagem da comunidade LGBT, Bolsonaro disse em novembro que pretendia "tomar conhecimento" das questões com antecipação, para privilegiar "questões realmente voltadas ao que interessa”.

"Essa prova do Enem, vão falar que eu estou implicando. Agora pelo amor de Deus. Esse tema da linguagem ‘particulada’, aquelas pessoas, o que isso tem a ver? Vai estimular a molecada a se interessar por isso agora. No ano que vem, pode ter certeza, não vai ter questão dessa forma. Nós vamos tomar conhecimento da prova antes”, afirmou à época.

A afirmação gerou críticas da ex-presidente do instituto, Maria Inês Fini, para quem a medida poderia ferir o sigilo do exame, que no ano passado teve 5,5 milhões de inscritos. 

Questionado sobre o sigilo, Rodrigues rebateu a crítica e disse que a declaração de Bolsonaro representa uma “preocupação com o Brasil”.

“Temos um presidente que representa os anseios de uma mudança. E eu estou aqui dentro desse princípio”, disse. “Uma coisa é não ser de praxe [ter acesso à prova], outra coisa é o acesso legal.”

As declarações sobre o exame ocorreram logo após cerimônia de posse de Rodrigues no cargo.

Engenheiro e ex-consultor organizacional, Rodrigues foi nomeado na terça-feira (22), após uma série de sinais de hesitação do novo governo em torno da escolha dos cargos do instituto, que é responsável pelo Enem e por avaliações da qualidade do ensino.

Ligado aos militares que atuam no governo Bolsonaro, o novo diretor fez cumprimentos ao grupo no evento e, em discurso, afirmou que o Brasil precisa de uma escola sem ideologia e que é preciso “resgatar valores”.

“Hoje precisamos de uma nova escola, com novos paradigmas, que resgate nossos valores, que tenha como diretrizes o respeito à família e à pátria, e que busque a eficaz formação de cidadões [sic] íntegros, éticos, com conhecimento e trabalhadores”, afirmou.

Ele defendeu ainda que o país busque um modelo de escola "que tenha resistência a ideologias e crenças inadequadas e inconsequentes", as quais, segundo ele, "têm origem em interpretações superficiais de pseudo-intelectuais ou de um oportunismo político-partidário que levou nosso país a uma situação insustentável.”

O novo presidente disse ainda que deve divulgar em breve um documento com 32 metas prioritárias —entre elas, uma revisão "criteriosa" dos indicadores usados para avaliação do ensino e incentivo a novas tecnologias em sala de aula, informou. 

Afirmou ainda que pretende “fazer mais com menos” e citou Rui Barbosa, dizendo que hoje "o homem tem vergonha de ser honesto", em uma referência ao que chama de "resgate de valores". 

DITADURA MILITAR

A cerimônia foi acompanhada pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez. Em discurso, o ministro fez uma espécie de "revisão" da história do Brasil e disse que o país tem intercalado alguns momentos de "volta ao esquema centralizador", como o da ditadura militar, que, para ele, foi “querido pela sociedade brasileira”.

“Os militares não caíram de Marte. Eles foram chamados pela sociedade brasileira para corrigirem como uma espécie de poder moderador os jugos enviesados pelos que tinham enveredado a República. Mas terminaram abrindo espaço de novo para a vida político-partidária. Tem um pequeno viés autoritário, expresso na famosa frase do general Figueiredo: 'julgo fazer desse país uma democracia, e prendo e arrebento quem se opuser'. A democracia se instaurou via decreto, uma coisa estranha, estranhíssima, porque estranha é nossa história, como um princípe sair correndo estabelecer a capital numa colônia. Mas isso obedecia a um pensamento estratégico", disse. 

Para ele, o Inep tem papel essencial para “preservação da memória nacional” e para “reconstrução da democracia”.

Sem entrar em detalhes, defendeu ainda uma revisão na "política educacional". 

“Nossas más performances nas provas internacionais indica que não temos refletido suficiente nos dados que se apresentam ao Inep. Precisamos elaborar novas políticas educacionais”, disse.

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