Bolsonaro cancela entrevista em Davos e culpa comportamento da imprensa

Ministros Sergio Moro, Paulo Guedes e Ernesto Araújo também não falaram aos jornalistas

Mesa no centro de imprensa onde aconteceria entrevista coletiva de Jair Bolsonaro com os ministros Sergio Moro, Paulo Guedes e Ernesto Araújo
Mesa no centro de imprensa onde aconteceria entrevista coletiva de Jair Bolsonaro com os ministros Sergio Moro, Paulo Guedes e Ernesto Araújo - Luciana Coelho/Folhapress
 
Maria Cristina Frias Luciana Coelho Lucas Neves
Davos

O presidente Jair Bolsonaro decidiu cancelar uma entrevista coletiva que concederia a jornalistas em Davos, no Fórum Econômico Mundial, 40 minutos antes de ela acontecer.

A equipe do Fórum foi pega de surpresa. Bolsonaro se reuniu com o presidente da Suíça, Ueli Mauer, e com o ex-premiê britânico, Tony Blair, após almoçar com investidores e apresentar os prospectos para o Brasil.

Em seguida, porém, ele tomou o caminho de volta a seu hotel em vez de se dirigir ao centro de imprensa, onde faria um pronunciamento seguido de entrevista coletiva com os ministros Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça).

O assessor da Presidência Tiago Pereira Gonçalves disse a repórteres que aguardavam o presidente no hotel que o cancelamento da entrevista coletiva se deu devido à “abordagem antiprofissional da imprensa”.

Depois de a informação ser publicada, a comitiva mudou a versão duas vezes: primeiro, uma assessora e o ministro Augusto Heleno (GSI) afirmaram que o presidente quis se poupar de uma agenda carregada. Mas os demais compromissos foram mantidos. Passada uma hora, o ministro Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral) afirmou que o presidente retornara ao hotel porque precisara trocar a bolsa de colostomia que usa.

Na manhã desta quarta (23), Bolsonaro declarou em entrevista à agência Bloomberg que, se seu filho Flávio Bolsonaro for culpado no caso envolvendo movimentações atípicas em sua conta, ele pagaria por isso. Desde então, os jornalistas brasileiros têm insistido em perguntas sobre o caso ao presidente, que responde apenas com silêncio.

Jornalistas seguem o presidente Jair Bolsonaro em Davos
Jornalistas seguem o presidente Jair Bolsonaro em Davos - Maria Cristina Frias/Folhapress

Os jornalistas ficaram no centro de imprensa aguardando uma possível entrevista dos ministros, mas eles também não apareceram. O local para a primeira conversa do presidente e dos ministros com a imprensa brasileira, que já estava preparado, ficou vazio.​ 

Repórteres estrangeiros —portugueses, mexicanos, suíços, alemães e chineses— ficaram estupefatos com o cancelamento do evento, comunicado oficialmente pela organização do Fórum 17 minutos após o horário em que a entrevista começaria.

A organização não ofereceu motivos para o cancelamento e pediu aos jornalistas que perguntassem à delegação brasileira —a equipe do Fórum levou quase uma hora para entender o que havia acontecido. 

A assessoria de comunicação do presidente tentara organizar uma declaração antes do encontro bilateral com o premiê italiano, Giuseppe Conte, mas o brasileiro se recusou, alegando falta de tempo.

É incomum que um chefe de Estado ou governo não dê nenhuma entrevista coletiva em Davos, evento visto como uma vitrine mundial para investidores.

No fim da tarde, o assessor que atribuiu o cancelamento do encontro da comitiva brasileira com a imprensa à suposta hostilidade dos repórteres veio cobrar da Folha explicações pela divulgação da informação.

Exaltado, ele abordou a reportagem ao lado do bar do lobby do hotel em que a delegação está hospedada. No fim da altercação, tocou levemente o ombro do jornalista Lucas Neves, mas não fez ameaças nem o intimidou.

Foi conduzido para fora do ambiente por outros repórteres que estavam no local e por funcionários do estabelecimento.

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