Empresária foi de aulas em casinha alugada a uma das maiores franquias de ensino de inglês

Raquel Lam abriu primeira unidade em Higienópolis em 1969; rede hoje tem mais de 80 unidades

Laura Mattos
São Paulo

Ela não gosta de falar a idade e brinca que inaugurou a Red Balloon, há 50 anos, “antes de nascer”. Foi em 1969 que Raquel Lam abriu a escola de inglês para crianças em uma casinha alugada no bairro de Higienópolis, em São Paulo.

Ninguém sabia bem por que aprender a língua, o negócio ficou três anos no vermelho e tinha tudo para dar errado. Mas se tornou uma das maiores franquias do Brasil, hoje com mais de 80 unidades.

A ideia foi de um amigo que também soube apostar no mercado de educação, João Carlos Di Gênio. Ele estava começando no ramo de preparação para vestibular com o Objetivo.

Estudante de medicina da USP, tinha como professores alguns colegas de faculdade, entre eles Drauzio Varella, também fundador do cursinho, que dava aulas de química, e Moyses Lam, que ensinava inglês e era namorado de Raquel.

Mulher idosa, de cabelos loiros e olhos azuis, posa olhando para a câmera, usando um suéter rosa, com a mão na cintura
Raquel Lam, fundadora da escola de inglês para crianças Red Baloon - Divulgação

​Di Gênio percebeu o entusiasmo com que a jovem falava sobre as aulas particulares de inglês que dava para crianças da elite paulistana em casarões dos Jardins. Ela lhe contava que, para prender a atenção do aluno, pedia a autorização da mãe dele para circular pelos cômodos.

Na cozinha, mostrava apple, banana, rice, beans. Nos quartos, abria o guarda-roupas para pegar t-shirts, shorts etc. Ia para o jardim ver flowers, cantava, fazia teatro.

Começava ali a criar a metodologia que seria reconhecida como inovadora, ao constatar que a criança aprende melhor se estiver se divertindo e que deve mudar periodicamente de atividade para não se cansar. “Não deixava ficar mais de 20 minutos na mesma coisa.”

No banco de trás do seu fusquinha vermelho, carregava outro segredo de seu método. Eram dezenas e dezenas de cartolinas com figuras que ela recortava de revistas. “Realidade”, “O Cruzeiro”, “Manchete” —não sobrava uma inteira na sua mão, as amigas e as donas de salão de beleza que o digam.

Das fotonovelas e radionovelas tirou inspiração para amarrar os conteúdos com histórias, que tinham até gancho para atrair os alunos para a próxima aula.

Di Gênio mandou fazer na marcenaria do Objetivo os móveis para a nova escola, organizou um concurso entre seus alunos de onde saiu o nome Red Balloon e entrou como fiador do imóvel na rua Bahia. O pai de Raquel não se conformava. Por que uma moça tinha que se meter a abrir um negócio? “O que vou dizer a meus amigos?”, dizia ele.

Mas foi com ele que Raquel aprendeu a não desistir. Judeu polonês, conheceu a mãe de Raquel quando os dois saíram de um campo de concentração ao final da Segunda Guerra. O casal foi para a Bolívia, abriu um açougue, mas teve de deixar La Paz quando Raquel nasceu —ela não se adaptou à altitude.

Em São Paulo, seu pai não conseguia se estabelecer. “Pedia pipoca para minha mãe e ela me dizia que não tinha dinheiro.”

Um primo que migrara para os EUA começou a enviar produtos em navios para o pai de Raquel vender. “Agora já posso dizer: ele teve de virar contrabandista. Eu o ajudava nas entregas. Eram canetas Shaeffer, rádios Hitachi e roupas Ban-Lon. Ele tinha habilidade para não chamar a atenção, técnicas de sobrevivência dos campos de concentração. Dizia que a guerra é uma universidade.”

Com esse dinheiro, Raquel pôde se formar em química industrial e estudar inglês. “E comprar pipoca à vontade.”

O pai também a socorreu quando o número de alunos da Red Balloon era tão pequeno que não pagava o custo. Nos primeiros três anos, não chegou a 50. Para divulgar a escola, Raquel pegava nomes e endereços do bairro na lista telefônica e, aos sábados e domingos, entregava cartas com folhetos na portaria dos prédios e na porta das casas.

Um ano depois da inauguração, começou a entender como administrar a escola, e Di Gênio saiu da sociedade, deixando sua parte de presente ao casal de amigos.

METODOLOGIA

Ela seguia nas aulas, aperfeiçoando a metodologia que criou intuitivamente. Desde o início, manteve como única opção turmas com duas aulas semanais de duas horas cada uma, para crianças a partir dos três anos. Não cedeu à insistência de pais que reclamavam da mensalidade alta (R$ 827 hoje em SP), não queriam sobrecarregar os filhos e encontravam carga horária menor nas concorrentes que foram surgindo.

A Red Balloon cresceu e mudou de sede duas vezes, sempre em Higienópolis. Quando tinha 25 anos, em 1994, já com cerca de 400 alunos, ganhou uma segunda unidade, em Moema, uma sociedade entre Raquel e sua irmã. Logo no primeiro ano, o novo estabelecimento recebeu entre 400 e 500 matriculados.

Dois anos depois, inaugurou a terceira, no Morumbi, bem-sucedida logo no início. “Nesse tempo já havia uma noção da importância do inglês. As famílias viajavam para fora, teve a moda da Disney, já se pensava que podia ajudar no vestibular e no currículo.”

Outro fato, na opinião dela, favoreceu o seu mercado: “As escolas regulares, tanto públicas quanto privadas, nunca foram boas no ensino de inglês. Não davam importância para isso, colocavam uma aulinha ou outra na grade curricular”.

Michel Lam, 44, filho de Raquel, a convenceu a transformar a Red Balloon em franquia a partir em 2002. Ela então passou a, além de administrar suas escolas, cuidar da rede.

Certa feita, foi até uma cidade do interior onde percebeu problemas na unidade. Visitou a principal concorrente dizendo que queria matricular seus netos, observou os detalhes e depois puxou a orelha do franqueado: “Como não sabe o que a outra escola oferece?!”, disse a ele, para quem reclamou ainda da toalha puída no banheiro.

Teve uma crise de choro após vender a franquia para a Abril Educação, apesar do ótimo negócio (cifra que, como a idade, prefere que não seja divulgada). Já havia feito reuniões nos EUA com a Disney, interessada em abrir escolas de inglês no Brasil. E sempre participou das negociações, selando a venda em um encontro com Roberto Civita (1936-2013), dono da Abril.

A rede foi depois adquirida pelo grupo Somos, posteriormente incorporado pelo Kroton, o maior de educação do País.

Quando venderam, já existiam mais de 60 unidades, e o trabalho era árduo. A família também percebeu que as escolas regulares começavam lentamente a colocar o ensino da língua inglesa em primeiro plano e considerou a probabilidade de, a longo prazo, haver uma redução de alunos em cursos de inglês, especialmente nos bairros de elite, com oferta crescente de ensino básico bilíngue e internacional.

Negócios à parte, Raquel se preocupava com seu dia a dia, em que o trabalho não raro ocupava até 20 horas: “Não posso parar de trabalhar”. A família inaugurou uma escola bilíngue de ensino infantil e fundamental, a Red House, também em Higienópolis, em que Raquel é diretora-geral.

Ela cuida da parte administrativa, participa de decisões pedagógicas e muitas vezes vai ao portão coordenar a entrada e saída de alunos, uma correria que envolve até bronca nos pais que furam a fila dos carros. Nada de mais para uma jovem que nem tinha nascido há meio século, quando começou nesse negócio.

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