MEC desiste de nomear ex-integrante da gestão Temer para secretaria

Ligado ao MDB, perfil de Silvio Cecchi desagradou membros da pasta, como militares

Paulo Saldaña
Brasília

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, desistiu de nomear Silvio Cecchi como secretário de Regulação do Ensino Superior, subpasta responsável por autorizações de instituições particulares. O recuo tem a ver com o perfil de Cecchi, que atuou na pasta durante a gestão Michel Temer (MDB).

Biomédico, Cecchi já atuou em grandes grupos educacionais, como Anhanguera e na FMU-SP. Na gestão Temer, ocupou uma diretoria da secretaria de Educação Superior, a partir de 2016, e por indicação do MDB assumiu em agosto de 2018 a mesma secretaria de Regulação (Seres) para a qual foi anunciado.

A chegada de Cecchi ao MEC, revelada pela Folha, foi anunciada por Weintraub no último dia 10. 

Mas o perfil incomodou membros do MEC. Cecchi teria insistido em montar toda sua equipe, desagradando a ala militar que, embora enfraquecida, ainda atua no ministério. O coronel Marcos Heleno Guerson de Oliveira Júnior comanda a diretoria de Política Regulatória da Seres.

O descontentamento interno com a escolha começou ainda na semana passada. A Seres é considerada uma das secretarias mais complexas do MEC por cuidar de toda burocracia de regulação do ensino superior particular. A posição sempre foi alvo de pressão de empresas do setor.

Cecchi deve continuar na Casa Civil, onde atua na subchefia de Articulação e Monitoramento.

Folha questionou o MEC sobre quem será o novo chefe da Seres, mas até a publicação desta reportagem não havia recebido retorno.
 

INTERESSES DO SETOR PRIVADO

Na manhã desta terça-feira (16), Weintraub recebeu em seu gabinete, segundo a agenda oficial, Antonio Veronezi, conhecido defensor dos interesses do setor privado de ensino superior.

Veronezi é próximo do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS). Em 2017, Onyx o indicou para um prêmio de educação na Câmara. 

Mais cedo, portaria publicada no Diário Oficial da União oficializou a nomeação de seis novos auxiliares, incluindo os novos secretários de Educação Básica, Janio Macedo, e de Educação Profissional, Ariosto Culau.

Macedo estava na Secretaria Especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital e Culau, no Ministério da Economia.

Outros dois ex-membro da Casa Civil, assim com Weintraub, vão para ao MEC. O advogado Auro Tanaka e o tenente-coronel da reserva do Corpo de Bombeiros de Brasília Paulo Roberto serão assessores do ministro.
 
Paulo Roberto havia feito parte da equipe de transição na área de educação, mas o ex-ministro Ricardo Vélez Rodríguez não o aproveitou na equipe. Sem espaço com Vélez, seguiu para a Casa Civil.

O MEC confirmou a exoneração de dois integrantes de grupos antagônicos na pasta. Rubens Barreto, oriundo do Centro Paula Souza, de São Paulo, deixa definitivamente o cargo de adjunto da secretaria executiva, como também adiantado pela Folha, e Bruna Becker, seguidora do escritor Olavo de Carvalho, não é mais assessora especial do ministro.

No início de março, seguidores de Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo, passaram a atacar Vélez e auxiliares próximos depois que demissões atingirem o grupo. No alvo, militares e técnicos do Paula Souza.

A disputa provocou um racha que intensificou a paralisia das ações no MEC e culminou na demissão de Vélez.  Barreto chegou a ser anunciado como secretário executivo no lugar de Luiz Antonio Tozi, mas Vélez foi impedido de nomeá-lo por pressão de olavistas.

Weintraub definiu na segunda-feira que o delegado da Polícia Federal Elmer Coelho Vicenzi para presidir o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). O órgão, ligado ao MEC, é responsável por estatísticas e avaliações da educação e exames como o Enem.

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