Governo Bolsonaro escolhe delegado para a presidência do Inep, responsável pelo Enem

Delegado da Polícia Federal Elmer Coelho Vicenzi já foi diretor do Denatran

Paulo Saldaña
Brasília

Um delegado da Polícia Federal vai assumir a presidência do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). O ministro da Educação, Abraham Weintraub, escolheu Elmer Coelho Vicenzi para presidir o órgão, responsável por estatísticas e avaliações da educação e exames como o Enem.

Sem experiência na área de educação, Weintraub assumiu a pasta na semana passada após a demissão de Ricardo Vélez Rodríguez.  Escolheu para os principais cargos de secretários e auxiliares uma equipe também distante do debate educacional, com perfil de gestão. 

Agora, a escolha do delegado surpreendeu servidores do Inep, segundo a Folha apurou. A nomeação sairá nos próximos dias, segundo o MEC (Ministério da Educação). 

Vicenzi é delegado da PF e foi diretor do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito). Graduado em Direito, é especialista em direito penal e tem MBA em Planejamento, Orçamento e Gestão Pública pela FGV (Fundação Getúlio Vargas). Também foi professor da Academia Nacional de Polícia.

O Inep está sem presidente desde o dia 26 de março, quando o ex-ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez exonerou Marcus Vinicius Rodrigues. Vélez o responsabilizou pela suspensão da prova de alfabetização deste ano, medida tornada sem efeito após má repercussão.

Delegado da Polícia Federal Elmer Coelho Vicenzi deve ser nomeado presidente do Inep
Delegado da Polícia Federal Elmer Coelho Vicenzi deve ser nomeado presidente do Inep - José Cruz/Agência Brasil

O chefe de gabinete do Inep, general Francisco Mamede de Brito Filho, vinha respondendo pelo instituto desde então. A diretoria de Avaliação da Educação Básica do Inep, responsável direta pelo Enem, continua sem titular.

A realização do Enem é o maior desafio do Inep neste momento. A gráfica que imprimia a prova desde 2009 anunciou falência no final de março e até agora o instituto não tem um novo plano definido. 

A RR Donnelley imprime as provas do Enem desde 2009 por meio de apenas dois processos licitatórios: em 2010 e 2016. Este último é investigado no TCU (Tribunal de Contas da União) por suposto direcionamento a essa empresa.

As inscrições para o Enem ocorrem entre 6 e 17 de maio e as provas, em 3 e 10 de novembro. No ano passado, o Enem recebeu 5,5 milhões de inscrições. O resultado serve como porta de entrada para praticamente todas as universidades federais do país.

Ainda falta a definição sobre a realização do Saeb, avaliação federal que compõe o Ideb (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). Ao voltar atrás da suspensão da avaliação de alfabetização, o governo também tornou sem efeito todas as regras do Saeb deste ano.

A contratação de gráfica para a impressão do instrumento também passa por questionamentos do TCU.

Weintraub trocou a Casa Civil pelo MEC depois que seguidores do escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarimo, passaram a atacar Vélez e auxiliares próximos. Os ataques, iniciados após demissões atingirem o grupo, provocou um racha que paralisou as ações no MEC e culminou na demissão de Vélez.

Ao assumir, Weintraub disse que chegava para "decretar a paz", e quem não estiver de acordo, terá que sair. O novo ministro também é admirador de Olavo.

Weintraub manteve o secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, que é ex-aluno de Olavo, mas puxou profissionais da área econômica do governo.

Para a Secretaria Executiva, cargo número 2 na pasta, o nome escolhido foi Antonio Paulo Vogel de Medeiros, ex-braço direito de Weintraub na Casa Civil. Ele substituiu o brigadeiro Ricardo Machado, no cargo desde o dia 29, que se tornou assessor especial do ministro.

A secretaria de Educação Básica será ocupada por Janio Macedo. Advogado, atuou por 35 anos no Banco do Brasil. Era secretário-adjunto da Secretaria de Gestão e Desempenho de Pessoal, ligada à Secretaria Especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital.

O novo titular da Secretaria de Educação Superior será o economista Arnaldo Barbosa de Lima Junior. Era diretor de Seguridade na Fundação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal do Poder Executivo.

A Secretaria da Educação Profissional e Tecnológica será comandada por Ariosto Antunes Culau. Economista de formação, é servidor público federal do quadro do Ministério da Economia.

A Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior será comandada por Silvio José Cecchi, que ocupou o mesmo cargo na gestão Michel Temer e estava com Weintraub na Casa Civil. Cecchi também atuou em posições importantes de grandes grupos educacionais, que exercem pressão sobre a subpasta.

O destino da secretaria de Especializadas continua incerto. Apesar da definição de trocar as secretarias, Bernardo Goytacazes continua no cargo até agora.

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