Mesmo sem Harvard e patentes, alunos mantêm admiração por professora

Checagem da Folha aponta que parte dos registros pedidos por Joana D'Arc Félix não foi concedida

Paulo Gomes Bruno Fávero
Franca (SP) e Rio de Janeiro

A pesquisadora Joana D'Arc Félix de Sousa, 55, não tem o pós-doutorado em Harvard nem parte das patentes que afirmava ter, mas preserva a reputação entre seus alunos. 

A trajetória acadêmica que atraiu a mídia —inclusive a Folha— tem imprecisões e dados falsos, mas também feitos raros e um trabalho reverenciado por quem o conhece.

"Falavam da professora e eu achava que ela não existia", diz Verônica Marques, 19.

Para a estudante, era inesperado uma mulher negra e pobre, de origens semelhantes às dela, ter doutorado, reconhecimento internacional e ainda lecionar na Escola Agrícola de Franca, a 22 minutos de carro do centro da cidade a 400 km de São Paulo.

A ex-aluna de Joana D'Arc Félix, Ângela Ferreira de Oliveira, 22, na casa de sua família em Claraval, com prêmios e certificados de participação em feiras, concursos e congressos científicos
A ex-aluna de Joana Félix, Ângela Ferreira de Oliveira, 22, com prêmios e certificados de participação em feiras, concursos e congressos científicos - Paulo Gomes/Folhapress

Félix está na berlinda desde que o jornal O Estado de S. Paulo revelou, em 14 de maio, que ela não passara por Harvard, algo depois apagado de seu currículo Lattes

Nova apuração da Folha mostra que a professora tampouco tem 15 pedidos de patentes depositados em seu nome, ao contrário do que afirmara o jornal anteriormente.

"Errei em algumas falas, peço desculpas, porque eu não quero decepcionar meus alunos, meus ex-alunos. Eles têm em mim uma referência de que eles também podem chegar lá", disse Félix à Folha

A quebra de confiança tem levado Félix a ser criticada agressivamente em redes sociais nos últimos dias. 

A aluna Verônica afirma que se sentiu ofendida com isso. "Leio comentários [em notícias] de que ela é uma fraude e parece que estão falando de mim. Ela é doutora. As pessoas que não a conhecem falam de um jeito que parece que ela é uma piada, e ela não é."

Sua colega Hávilla Cardoso, 23, aluna na Escola Agrícola, afirma que superou depressão e ansiedade porque a professora a motivou. "O trabalho dela não é só científico. É mostrar que eu sou capaz."

As estudantes afirmam que pensaram que a professora de química era alvo de campanha difamatória, "fake news".

Depois de constatarem que Félix mentira, afirmam que isso não invalida o trabalho feito com elas. "Ela continua sendo a doutora Joana", diz Hávilla. 

A professora afirmou à Folha que nunca buscou notoriedade. "A minha luta é em prol da educação, motivar esses alunos." Para tanto, apresenta sua trajetória e ressalta seu trabalho de fazer de adolescentes pesquisadores.

Entre os feitos, ela citava o pós-doutorado em Harvard e as patentes. Uma dúvida surgida de incongruências sobre sua idade (ela já disse ter 55, 48 e 37 anos) levou ao exame do pós-doutorado pelo Estado, e, depois, das patentes pela Folha. Nenhum deles existe.

A alegação que fez sobre Harvard Félix chamou de "falha". Diz que considerou pós-doutorado uma orientação remota recebida de 1997 a 1999 de um professor de química de Harvard, William Klemperer.

O docente morreu em 2017, e a universidade afirma não poder negar nem confirmar o contato entre Félix e ele. A reportagem tentou contato com cinco familiares e colegas de Klemperer na época. O único que respondeu foi Kelly J. Higgins, pesquisador do grupo de Klemperer de 1992 a 1999. 

Ele afirma nunca ter ouvido falar de Félix. "Ele [Klemperer] era físico-químico e teria sido incomum, se não inédito, ter orientado, em qualquer tipo de pós-doutorado, uma química orgânica", afirmou. 

"Isso dito, Klemperer tinha muitos interesses científicos e não posso descartar a possibilidade de que ele tenha tido contato com ela, mas não como orientação contínua."

As buscas em quatro repositórios —Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), Espacenet, Ompi e Google Patentes— indicam sete pedidos de patentes no nome de Félix, sendo dois no exterior, todos já sem validade.

Dos depositados no Brasil, dois foram arquivados em 2012 por inadimplência (inventores pagam para ter seus pedidos analisados) e dois foram indeferidos em 2011 por não cumprir requisitos legais.

"Os requisitos são: novidade, atividade inventiva e aplicação industrial", diz o advogado Raul Mahfuz, especialista em propriedade intelectual do escritório Cesnik, Quintino e Salinas. "A análise é extremamente técnica, sempre feita por perito do Inpi."

Um quinto pedido que surge no Google Patentes como depositado no Brasil não aparece no arquivo do Inpi.

Por fim, os dois pedidos arquivados no Brasil foram depositados na Ompi (Organização Mundial da Propriedade Intelectual) na Alemanha, mas constam como "retirados" --não estão mais tramitando.

O advogado da professora, Paulo A. Ramos, afirma que desde maio de 2002 sua cliente "iniciou processo de registro de sete patentes e ainda possui oito projetos prontos para serem levados ao Inpi". 

Ele afirma que Félix só foi informada dos indeferimentos pela Folha. Dados do Inpi, porém, mostram que ela recorrera por meio do escritório especializado Beérre Patentes e Marcas, de Campinas. 

A pesquisadora foi condenada a pagar mais de R$ 369 mil à Fapesp (Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo) por não ter prestado contas de benefício, como mostrou a Folha. Seu advogado afirma ter contatado a fundação para sanar a questão. 

A pesquisadora Joana D'Arc Félix de Sousa, após palestra
A pesquisadora Joana D'Arc Félix de Sousa, após palestra - Gabriel Cabral/Folhapress

O trabalho como professora, contudo, continua. 

A Escola Agrícola faz parte do Centro Paula Souza, que coordena as escolas técnicas no estado de São Paulo e é referência em ensino público.

São oferecidos a 500 alunos os cursos integrados de biotecnologia e agropecuária, e os técnicos de agropecuária, agronegócio, cafeicultura, meio ambiente e curtimento. 

Félix leciona no primeiro e nos dois últimos. Professores do ensino técnico não precisam fazer pesquisa acadêmica, mas a forma como Félix trabalha com os alunos se aproxima da iniciação científica e é seguida por outros.

O diretor, Cláudio Ribeiro Sandoval, diz que a polêmica com a professora não influencia o trabalho e descarta sanções. "Ela é concursada. Quanto ao trabalho que ela desenvolve, não tenho do que falar." 

O Centro Paula Souza afirma que Félix apresentou os certificados de graduação, mestrado e doutorado da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) —mesmo que seu pós-doutorado fosse real, é um tipo de atividade que não culmina em diploma.

Vinda de família pobre (ela conta que o pai trabalhava em curtume e a mãe era empregada doméstica), Félix diz ter sido aprovada na Unicamp aos 14 anos, como treineira, mas que só ingressou aos 19. 

A Unicamp confirma que ela iniciou a graduação em 1983, encerrando o seu vínculo após a conclusão do doutorado, em 1994. Sua tese foi publicada naquele ano no periódico científico americano Journal of American Chemical Society, referência mundial.

O trabalho se perpetua. Na cozinha de uma casa na pequena Claraval (MG), município limítrofe a Franca, aquela que Félix descreve como sua aluna mais premiada exibe à reportagem medalhas, troféus e certificados de concursos, congressos e feiras nacionais e internacionais. 

Ângela Ferreira de Oliveira, primeira de nove irmãos, tem 22 anos e cursa o terceiro ano de licenciatura em química na Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em Uberaba. 

"Eu pareço a Joana", diz, aludindo à trajetória da professora. "Aqui [na região] é casar, ter filho e trabalhar na fábrica de calçados. Ela foi a primeira pessoa a acreditar em mim."

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