Na volta às aulas nos EUA, lista de material escolar inclui até mochila antibala

Exercícios de simulação de presença de atiradores geram controvérsia no país

Fernanda Ezabella
Los Angeles

Caderno novo, canetinhas coloridas, lápis de cor, fita crepe e escudo à prova de bala. Ou melhor mochila antibala? Talvez um fichário balístico e um spray de pimenta? Na volta às aulas nos EUA, produtos de segurança pessoal se misturam à lista de material escolar, em meio aos temores de tiroteios em massa que, neste ano, deixaram cerca de 250 mortos e 1.000 feridos.

Nenhuma escola foi palco de massacres em 2019, mas cerca de 20 incidentes com armas de fogo em escolas deixaram 8 mortos e 30 feridos. Em 2018, foram 94 incidentes e 55 mortos. Lousas à prova de bala, câmeras, campainhas e detectores de metais fazem parte de uma indústria de segurança escolar que movimentou quase US$ 3 bilhões em 2017.

“A probabilidade de um atirador entrar numa escola é muito, muito pequena”, disse à Folha a professora Amy Klinger, cofundadora da ONG Educator's School Safety Network, dedicada a criar treinamentos e recursos de segurança escolar baseados em educação.

Policiais e estudantes se encontram pela primeira vez após tiroteio em escola na Flórida, em 2018
Policiais e estudantes se encontram pela primeira vez após tiroteio em escola na Flórida, em 2018 - Mary Beth Koeth - 28.fev.2018/Reuters

Klinger conta que, ainda assim, a maioria das escolas quer fazer algo em relação à segurança e não sabe bem o quê. “Já vimos escolas gastando US$ 5.000 em sprays de pimenta. Felizmente, a maioria não toma essas decisões ridículas. Defendemos que a escola pare de comprar coisas e invista em seu pessoal, em treinamento, nas relações.”

O mesmo acontece com pais dos estudantes em busca de algo para aplacar o medo. O empresário Robert Vito, fundador da Unequal Technologies, disse que teve a ideia de criar escudos à prova de bala para mochilas ao receber um pedido de ajuda da diretora da escola católica particular de suas duas filhas, no estado da Pensilvânia.

Para ele, o escudo virou o novo normal. “Não é diferente de usar cinto de segurança. Não espero um acidente, mas se acontecer, estou preparado”, disse Vito por telefone. Sua empresa é focada em acessórios de proteção esportiva feitos com material militar e, desde 2018, fabrica escudos de 7 mm de US$ 150 (R$ 600), mais leves que duas latas de refrigerante.

Ao presentear estudantes e funcionários com o produto, Vito percebeu que alguns alunos ficaram espantados. O escudo bidirecional aguenta facadas e tiros de pistolas curtas, mas não armas longas ou semi-automáticas.

“Houve surpresa, claro. Muitos não sabiam para que servia, como usar. Foi como ver um CD pela primeira vez”, disse. “Minhas filhas os usam em suas mochilas, e eu uso na minha maleta de trabalho.” Ele não diz quantos já vendeu, apenas que está presente em “centenas de escolas”.

Outra empresa líder em mochilas à prova de balas é a Guard Dog Security, fundada por Yasir Sheikh, pai de duas crianças, de 1 e 3 anos. Ele vende 20 tipos diferentes em seu site e em lojas de departamento como Walmart. Os preços variam de US$ 120 e US$ 300.

Sheikh começou a fabricar as mochilas em 2013, após a tragédia da escola Sandy Hook no ano anterior, quando um atirador matou 26 pessoas. “Começamos a receber muita demanda para proteção de eventos do tipo”, disse Sheikh. “Nosso objetivo é aumentar a proteção de todos. Sei que não é a única solução. Muita coisa precisa acontecer para acabar com esses tiroteios.”

O ex-policial Joe Curran é também pai de dois estudantes e fundou a Bullet Blocker após os massacres de Columbine e Virginia Tech, que deixaram 48 mortos em 1999 e 2007. Com experiência em proteção policial, passou a colocar seus escudos antigos nas mochilas dos filhos, e a ideia se espalhou pela escola. Hoje, sua firma vende também fichários e assentos antibala.

“Com as tragédias recentes, vimos um aumento de 200% no nosso site”, disse Curran por email. “Não podemos prever o futuro, mas podemos ser proativos na nossa segurança.”

 

Exercícios contra atiradores

Além do aparato de segurança, há os exercícios de esvaziamento em caso de “atirador ativo”, uma prática que se tornou tão corriqueira quanto os exercícios para incêndios ou terremotos. Porém, algumas escolas levaram o treinamento tão a sério que foram criticadas pelo possível trauma causado em alunos e funcionários.

Neste mês, em um exercício numa escola em Indiana, foi usado um áudio antigo de um professor desesperado ligando para o serviço de emergência durante o ataque de Columbine. No mesmo Estado, outra escola contou com agentes policiais que atiraram balas de plástico nas costas de 20 professores. E, em Missouri, sangue falso foi espalhado em estudantes que se fizeram de vítimas deitados no chão, tudo para tornar o exercício mais realístico.

A educadora Amy Klinger acredita que os exercícios contra atiradores são importantes, mas não precisam ser realísticos. “Precisam ser parte de um plano maior de prevenção contra violência e outros perigos. Em qualquer prédio com 800 ou 2.000 alunos, você vai ter acidentes diversos e precisa estar preparado para todos”, disse.

Para ela, o mais preocupante é o aumento da mentalidade de vigilância, como câmeras, detectores de metais, salas trancadas e até firmas terceirizadas que vigiam as redes sociais dos alunos. “Estamos olhando os estudantes como criminosos ou atiradores em potencial. Lentamente, escolas estão virando prisões”, disse. “E isso não nos fará mais seguros.”

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