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Aos 45 anos, educação de adultos em colégio de SP resiste a encolhimento do setor

Professor viajou com alunos migrantes do Santa Cruz para conhecê-los melhor; 'perdi a vergonha de falar', diz aluna

Angela Pinho
São Paulo

À medida que o dia escurece, as salas e corredores do tradicional Colégio Santa Cruz, em São Paulo, ganham novos rostos, sons e cores. 

Crianças e adolescentes de uniforme amarelo dão lugar a jovens e adultos, muitos com a roupa do trabalho. Em vez de carro, a maioria chega de transporte público. Alguns, inclusive, são motoristas e empregados domésticos das famílias dos estudantes que frequentam o local durante o dia.

Criada há 45 anos, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz resiste ao encolhimento da modalidade no país. Tradicionalmente marginalizada pelas políticas educacionais, ela foi ainda mais deixada de lado nos últimos anos.

No dia 2 de janeiro, a Secadi, secretaria responsável por essa e outras áreas no Ministério da Educação, foi extinta pelo governo Jair Bolsonaro. O único programa de alfabetização de adultos, que já tinha índices baixos de eficiência e havia sido encolhido, não recebeu nenhum repasse.

A EJA também não tem política federal de formação de professores, e há alguns anos suas matrículas têm caído. De 2010 a 2018, a queda foi de 17%, chegando a um total de 3,5 milhões. 

O público em potencial é muito maior. O país tem 11 milhões de pessoas de 15 anos ou mais que não sabem ler um bilhete simples.

A dificuldade de jovens e adultos que trabalham o dia todo estudarem é um dos motivos; outro é o baixo investimento no setor.

Atrair esse público à escola e garantir sua permanência demanda políticas que vão além da sala de aula, afirma Fernando Frochtengarten, diretor de cursos noturnos do Santa Cruz.

Por isso, além de subsidiar integralmente a mensalidade dos 450 alunos da EJA, o colégio também banca o transporte deles, além de um lanche na escola, e tem parcerias com advogados e psicanalistas para os estudantes que precisam. Não à toa, as matrículas ali têm aumentado, na contramão do que ocorre no país.

O auxílio para o transporte é importante porque, ao longo dos anos, a escola teve uma importante mudança no perfil dos alunos do antigo supletivo.

Se antes a maioria vivia em bairros próximos à escola, que fica em Alto de Pinheiros (zona oeste), atualmente a maior parte vem de bairros mais distantes ou de cidades da Grande São Paulo, o que fez o colégio antecipar o fim das aulas em 20 minutos.

Fernando atribui a mudança à expansão imobiliária, que esvaziou as áreas mais pobres perto do colégio, e à redução do número de empregados domésticos que dormem na casa dos patrões.

Uma característica do alunado, porém, se mantém. Eles são, na maioria, migrantes.

Gente como Onésima Bispo dos Santos, 43. Nascida na zona rural de Itaberaba, interior da Bahia, ela chegou a São Paulo para trabalhar como empregada doméstica sem saber ler nem escrever.

Pegar ônibus era uma dificuldade, assim como anotar recados. Até que o filho de sua patroa, que também estudou no Santa Cruz, falou da EJA, e ela começou a frequentar as aulas.

Incluir os estudos na rotina não foi fácil. Onésima chega da escola pouco antes da meia-noite e às 5h já tem que estar de pé para levar seus netos na escola.

Mas vale a pena. Mais do que aprender a ler e escrever, ela diz que recuperou sua voz. Explica: “Há uns anos, eu estaria embaixo da mesa de tanta vergonha de falar. Mordia os lábios, em qualquer lugar queria entrar muda e sair calada”. O motivo era o medo de cometer erros.

A desenvoltura atual não se deve apenas ao aprendizado da norma culta da língua. “A gente aprende aqui que ter sotaque e falar de um jeito ou de outro não é ofensa”, afirma.

De fato, a oralidade também é bastante trabalhada no projeto pedagógico, em atividades como rodas de conversa.

Para conhecer melhor a realidade de seus alunos migrantes, Fernando viajou com alguns deles para a região do sul da Bahia de onde muitos vieram. Também foi para o norte de Minas conversar com familiares de outros estudantes. 

Mas embora ainda seja predominante, a participação dos alunos de fora da capital paulista vem caindo no EJA do Santa Cruz, que começa a receber os filhos dos migrantes.

Não foi a única mudança. Desde que foi criado o curso noturno do colégio, três anos depois da primeira regulamentação dos cursos supletivos, muita coisa se transformou na EJA em todo o país.

Em primeiro lugar, a modalidade ganhou esse nome. Em segundo, deixou de ser uma mera transposição do ensino regular de crianças para considerar o contexto de alunos de uma faixa etária mais avançada, que chegam à escola com outra bagagem e demandam, portanto, abordagem diferente.

Em terceiro lugar, a EJA passou a receber cada vez mais um público mais jovem. Atualmente, quase dois terços dos alunos da modalidade têm até 30 anos.

No Santa Cruz, o perfil predominante ainda é de estudantes mais velhos, mas, no ensino médio, 23% têm até 25 anos.

Um deles é Lucas Neumann, 23, que parou de estudar há dez anos e agora está prestes a concluir o ensino médio. 

Atender a um público heterogêneo, de faixas etárias e origens diferentes, é um desafio. Uma das saídas encontradas é oferecer um leque de opções de áreas em que o aluno pode se aprofundar.

Algo de que a escola não abre mão, diz Fernando, é o ensino presencial, no momento em que a modalidade a distância ganha espaço —a maior parte da carga horária da EJA pode ser oferecida remotamente.

“Os alunos, muitas vezes, são pessoas solitárias, carentes de conversa e escuta, participam de relações muito hierárquicas”, afirmam. “Nesse sentido, a escola é um espaço não só de formação acadêmica, mas também de vida social.”

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