Descrição de chapéu Nova Escola

Como fazer o seu aluno prestar atenção na aula? Veja dicas

Professores convidados dividem suas dicas e experiências para manter a concentração dos estudantes

“A indisciplina também é um problema de falta de comunicação correta. Se corrigisse isso, acho que resolveria cerca de 90% da indisciplina. ” A afirmação é de Ademir Almagro, professor de História há mais de 26 anos, lecionando para o Ensino Fundamental e Ensino Médio nas redes públicas e particulares e um dos coordenadores do Núcleo da Conectando Saberes de Novo Horizonte, São Paulo.

Ademir e a professora Mônica Felismino, especialista em Matemática, Neurociência, Direito e Gestão Educacional e com experiência de 12 anos em escolas públicas, se reuniram no começo de setembro em NOVA ESCOLA no #TiraDúvidas do Professor, um programa ao vivo para apoiar os professores em sala de aula. O programa foi uma iniciativa de NOVA ESCOLA e da Rede Conectando Saberes. E, nesta quinta-feira não deixem de acompanhar o próximo #TiraDúvidas do professor: como melhorar a conversa com os pais?

Aluno durante aula na ONG Cidadão Pro-Mundo - Jardiel Carvalho - 31.ago.2019/Folhapress

Durante a conversa, Ademir afirmou que é preciso dizer claramente ao aluno qual é a expectativa, quais os combinados para a aula.

“Aí você separa quem está cometendo a indisciplina, que pode realmente existir, daquele que não entendeu o comando. Você separa as coisas e o direcionamento é diferente. Aquele que não entendeu, você precisa explicar e aquele que está com indisciplina, você chama para uma conversa particular. Se não der certo, você passa para outras instâncias. Mas, a primeira coisa é saber o que está acontecendo na sala”, afirmou.

Mônica completa que é importante o professor sempre deixar claro para os alunos o que quer e lembrar que, para cada atividade desenvolvida, há um comando diferente.

“Se você vai variar, se você vai fazer uma atividade comum de lousa, giz e caderno, você sempre faz um esquema, um roteiro: hoje em nossa aula, os primeiros cinco minutos vou fazer uma leitura, depois vamos para a lousa, para registrar. Quando você explica para o aluno o que ele está fazendo, você cria métodos para que ele tenha atenção para você. Você deixa claro.”

Durante a conversa, os professores também falaram sobre como o planejamento pode ajudar e como transformar o aluno em protagonista. Veja os principais pontos abaixo.

Barulho, falta de atenção e planejamento

Mônica lembra que, quando é desenvolvida uma atividade diferente dentro da sala de aula, o professor deve esperar barulho.

“Quando desenvolvemos uma atividade diferenciada, o professor precisa compreender que a atividade que ele propõe, por exemplo, uma atividade em grupo, vai ter barulho. Barulho é diferente de falta de atenção. Os estudantes estão ali concentrados no grupo e eles precisam aprender isso também. Então às vezes tem conversa, eles saem do lugar... Ao chamar por eles, passear pela sala, perguntar ‘o que você está fazendo, precisa de ajuda, o que você está desenvolvendo agora?’... Distribuindo atividades (também) é uma boa forma de mantê-los engajados.”

Para Ademir, a organização dos comandos dentro de sala de aula faz bem para os dois lados.

“Mas tudo isso tem que ser planejado com antecedência. Não adianta chegar na hora e falar ‘vou bolar as regras aqui’. Na verdade, todas as atividades precisam desse planejamento, você planeja a atividade e os comandos para que se evitem grandes problemas. De repente aparece uma indisciplina, é verdade, isso pode acontecer. Mas ela é localizada e mais fácil de ser administrada.” 

Conversas paralelas

Um dos problemas mais comuns em sala de aula é a conversa paralela dos alunos. Mas, Mônica afirma que uma das formas que ela encontrou para enfrentar estas conversas é mudando a disposição das mesas dentro da sala.

“Posso fazer o desenho em U com os alunos, mostro para eles e digo: temos dois minutinhos para organizar nesse formato. Então às vezes eles estão em oval, às vezes eu faço a explicação do fundo da sala. Então, desse modo também podemos diminuir essas conversas”, afirma.

Ademir alerta que é preciso também analisar o teor das conversas paralelas.

“Tem conversa paralela que é produtiva. Outro dia mesmo eu interferi em uma conversa em que, na verdade, estavam debatendo a aula. Então falei: foi mal! Continuem aí, por favor!” 

Conteúdo

Outro ponto que pode prender a atenção do aluno é o conteúdo apresentado em aula e, para Ademir, se o professor não tiver o melhor conteúdo “com certeza teremos indisciplina”.

E o professor se lembra de um caso, no início de sua carreira, quando pensava que estava dando ótimas aulas, mas recebeu um “choque de realidade” de uma aluna que o alertou e fez com que ele enxergasse que sua aula não era tão boa assim.

“Na verdade, eu pegava o livro didático e passava esse livro. Mas se fosse só o livro, ela não precisaria da minha aula, estudaria em casa. E, naquela época nem tinham internet, hoje é ainda mais fácil. Então o conteúdo que eu falo é a aula que vai além do material didático, é aquilo que vai mostrar para o aluno que o professor é fundamental, que ele não conseguiria isso sozinho lendo aquele livro. Aí entra a curiosidade, a reflexão, aí entra toda uma série de itens que os professores vão garimpando.”

Mônica lembra que nem sempre é fácil descobrir qual o melhor conteúdo, pois depende da turma, da região onde fica a escola, do momento em que o professor está ensinando.

“Às vezes a gente tem o melhor conteúdo, mas a criança não está na idade certa para compreender. Então existem vários fatores: não pensamos só no conteúdo, pensamos em como ele será abordado, é o texto que a gente adapta, o formato usado para revisar”, diz.

Estudantes protagonistas

Os professores também falaram da importância de transformar os estudantes em protagonistas do aprendizado, deixando até que eles definam o caminho a seguir e ajudem os demais estudantes.

“Como você faz o aluno ser protagonista? Você precisa entregar sua aula para ele. Ela começa sempre com uma pergunta, são perguntas específicas, que eles vão desvendar nos estudos deles’, esclarece Mônica.

Os professores então dividiram suas experiências de protagonismo dos estudantes.

“Dentro da sala, montamos o timinho dos alunos que são bons em Ciências, por exemplo. Aqueles alunos que já são bons em Ciências caminham pela sala ajudando quem tem dificuldade. Temos o timinho de Arte, quem desenha bem. Tem aluno que é excelente de Língua Portuguesa e Matemática, mas não desenha nem um bonequinho de palito. O aluno que é do time de Arte vai lá e fala: ‘mas você está desenhando errado, tem que começar assim, e se você fizesse desse jeito?’ Eles mesmos em pares vão melhorando. É o modo de você deixar que eles sejam os protagonistas da aula”, explica.

Ademir se lembrou de uma ocasião em que deixou um de seus estudantes determinar como seria a avaliação.

“No ano passado eu tinha um aluno, do 7º ano, chegou com uma certa dificuldade. Ele falou: ‘olha professor, eu não escrevo muito bem, tenho um problema de dislexia. Se fosse possível, na sua prova de História, eu queria desenhar. O que o senhor passou na lousa, eu faço o desenho.’ Eu falei: ‘demorou! Pode fazer, se tiver o contexto histórico, você merece a nota máxima.’ Ele fez e colocou no desenho o que eu não conseguiria fazer na explicação, na lousa. Então os alunos também têm suas competências, seus talentos”, conta.

Sem erros?

Para os professores, não existe um método 100% à prova de erros para fazer com que os alunos prestem atenção à aula.

“Se conseguíssemos (um método 100% eficaz), estaríamos solucionando um dos grandes problemas da Educação no Brasil (risos). Cada caso é um caso. Tem vários fatores que geram essa falta de atenção entre os alunos, então é muito difícil atacar as causas. O que nós temos é como administrar melhor a sala de aula e amenizar os problemas. Nós professores precisamos nos mexer porque não é justo você imaginar o aluno que vem passar 200 dias sofrendo na sala de aula. Nós não merecemos isso e os alunos não merecem”, afirma Ademir.

Para Mônica, além de não existir o método infalível para chamar a atenção dos alunos, o professor também precisa aprender com seus erros quando tenta chamar a atenção da turma em sala de aula.

“Às vezes nós criamos uma atividade que achamos ser maravilhosa. Chegamos, aplicamos e não dá certo. Mas o erro, às vezes, ajuda mais do que o acerto. Porque quando você acerta é bola para frente. Quando erra, precisa rever. Então é preciso permitir o erro. Não tem problema errar, mas eu quero acertar, acho que aí é o caminho”, afirma.

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