Descrição de chapéu Enem

Quem fizer redação de esquerda no Enem não deve ser prejudicado, diz presidente do Inep

Chefe de órgão que faz a prova diz que exame precisa evitar polêmicas para não tirar foco do aluno do conteúdo exigido

Paulo Saldaña
Brasília

O presidente do Inep (Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais), Alexandre Lopes, diz que a decisão do governo Bolsonaro de criar uma comissão para fazer análise ideológica de questões do Enem não vai impactar o que se espera dos candidatos: “Vamos avaliar o conhecimento do aluno, buscar uma prova mais neutra possível.”

Lopes é o terceiro a ocupar a presidência do Inep, responsável pro produzir a prova, neste ano. A diretoria responsável pelo exame ficou sem titular por quase cinco meses. Mas, segundo ele, tudo está preparado.

Alexandre Ribeiro Pereira Lopes, presidente do Inep
Alexandre Ribeiro Pereira Lopes, presidente do Inep - Luis Forpes/MEC

Em que este Enem, primeiro do governo Bolsonaro, é diferente dos outros? 

Essa edição não tem muita diferença com relação às anteriores. A gente não fez as questões, tem um banco de itens e a gente trabalha nas questões que vão cair na prova. Eu não li, o ministro não leu [Lopes já declarou que Bolsonaro também não viu]. A área preparou e houve orientações para ter uma prova neutra. 

Vamos avaliar o conhecimento do aluno, buscar uma prova mais neutra possível. A polêmica que eu quero ter no Inep é sobre se a forma de fazer o item é melhor do que há dez anos, se a prova avalia melhor. O Inep tem é que se aproximar do aluno. Nosso foco é fazer tudo ocorrer de forma tranquila, como está ocorrendo, e preparar o Enem do futuro [digitalizando o exame].

O importante é que os jovens pensem na prova porque o resto a gente está cuidando para vocês. Façam a revisão, descansem, foca na prova, esquece política, confusão. Administrem seu emocional.

No ano passado, Bolsonaro criticou uma questão que citava dialeto falado entre homossexuais e depois o Inep criou uma comissão para excluir itens. Fica a impressão de que nenhuma menção à homossexualidade pode aparecer. Isso atrapalha seu trabalho?

Pelo contrário. Quando o então candidato e hoje presidente se manifesta sobre o Enem, ele reverbera um incômodo de uma parcela da sociedade. Por que ninguém comentou as outras questões? São ruins? O Inep errou na mão quando coloca uma questão que gera esse tipo de polêmica. Por que as outras não geraram?

Porque as outras não falavam de gay, e falar de gay parece que não pode nesse governo.

A questão é a forma como aborda. Polêmicas e temas controversos são importantes de discutir na sociedade, mas esse não é o objetivo do Enem ou do Ministério da Educação nas avaliações, pois há dubiedade. Avalia-se a opinião sobre o tema ou uma habilidade? Enem não é pesquisa de opinião.

A pergunta não pedia isso [pedia-se para identificar o que caracterizaria um dialeto].

Mas ao colocar a temática, desvia o foco. Se gerou desconforto, polêmica, na minha opinião está errado. Porque os outros itens [não geraram].

Há grupos que combatem a abordagem desse tema, não se trata de polêmica solta.

Temos diferentes formas de pensar na sociedade e todas têm de ser respeitadas. Diversos outros mais ou menos sensíveis, direitos humanos, são tratados e não gerou reação. Se teve desconforto, está errado, seja lá qual for o tema. Alguém perguntou "então não pode botar [Karl] Marx na prova e pode colocar Olavo de Carvalho?"

Marx e Olavo de Carvalho estão muito distantes.

Aí você é preconceituoso.

Marx é um pensador do século 19 com influência no mundo todo, Olavo não.

Não importa [um dos auxiliares do Inep que acompanhou a entrevista diz que, ao incluir variável passível de polêmica, pode-se levar o aluno a achar que se espera determinada resposta].

Ao criar essa comissão, o governo não induz a ideia de que se espera um tipo de resposta?

A partir do momento em que houve repercussão na sociedade, o governo coloca de forma transparente e fala "vou olhar isso". Se você me pergunta como deveria ser, é porque houve uma portaria [que cria a comissão]. Antes não se sabia como isso era feito.

Em governos do PT, críticos do partido diziam que o candidato deveria concordar com a esquerda, por exemplo, na redação, para ter nota melhor. No governo Bolsonaro, quem endireitar vai melhor?

Disponibilizamos a cartilha de redação, e a gente não muda a regra. A banca de correção não é de servidores do Inep. Quem fizer uma redação de esquerda vai ser prejudicado? Acho que não. Quem fizer de direita vai ser prejudicado? Também acho que não. Tem que saber argumentar e defender seu ponto de vista.

O senhor citou Olavo de Carvalho. Ele vai cair no Enem?

Espera dia 3 e 10 [risos]. Quero dizer é que Olavo ou Marx são temas que geram sensibilidade e podem tirar foco da questão. Se vai cair, não sei, não olhei. Pode cair tudo, desde que meça [conhecimento]. Mas se o texto for gerar polêmica, para quê?


ALEXANDRE RIBEIRO PEREIRA LOPES, 45
Presidente do Inep desde maio deste ano, o servidor público desde 1999 é formado em engenharia química (UFRJ) e direito (UnB) e serviu, por quatro meses, como diretor legislativo da Casa Civi, além de ter atuado no governo do Distrito Federal.

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