Desigualdade racial transparece em notas de meninos negros, mostra pesquisa

Aumento da renda tem impacto menor no desempenho do grupo, diz estudo

Érica Fraga
São Paulo

A enorme desvantagem educacional de meninos pretos que vivem em São Paulo em relação a garotos brancos da mesma faixa etária é ainda maior se ambos pertencerem a famílias de nível socioeconômico mais elevado.

Isso significa que, embora a renda dos pais tenha grande impacto sobre o desempenho escolar das crianças no Brasil, parte desse poder de alavanca é perdida dependendo da combinação entre gênero e cor da pele do aluno. 

A conclusão —reforçada por outros dados— é de um estudo inédito da Fundação Tide Setubal, com foco nas notas de alunos do 5º ano do ensino fundamental em língua portuguesa, na rede pública da capital paulistana, que será divulgado nesta semana.

A análise da intersecção entre renda, cor e sexo dos alunos mostra que há um padrão de desempenho escolar que se repete dentro de cinco níveis socioeconômicos diferentes. 

Meninas brancas, seguidas das pardas, têm melhores resultados. Depois, vêm os garotos brancos. Num quarto lugar —que também se torna mais distante do terceiro em faixas de renda maior—, aparecem os meninos pardos. Logo atrás deles, surgem as garotas pretas. E, num longínquo sexto lugar, estão os meninos pretos. 

Os dados do estudo, que refletem essas diferenças, se baseiam em uma medida estatística complexa, que mensura a distância do desempenho dos alunos dos diferentes grupos em relação a uma referência considerada ideal. 

retrato de jovem negro, de camiseta azul e cabelo crespo de tamanho médio, sorrindo para a câmera com luzes ao fundo
Jadson Oliveira de Jesus, 21, estuda engenharia do Insper; bolsista, ele afirma que a ênfase de sua mãe em sua educação desde a primeira infância o ajudou a superar barreiras impostas a meninos pretos, mas que além disso precisou de sorte - Bruno Santos/Folhapress

A pedido da Folha, os pesquisadores forneceram dados mais intuitivos que apontam resultados parecidos aos que embasam as conclusões do estudo. 

No menor nível socioeconômico analisado, as fatias de meninos pretos e brancos com desempenho abaixo da referência são de, respectivamente, 44,4% e 38% do total. A distância entre eles é, portanto, de 6,4 pontos percentuais.

No recorte de renda mais alta, ambas as parcelas caem para, respectivamente, 30,4% e 18,9%. Mas, como o progresso dos garotos brancos é mais acentuado, o hiato entre os dois grupos quase dobra, atingindo 11,5 pontos percentuais.

“Esses resultados mostram que os meninos pretos, claramente, estão em situação desvantajosa dentro da escola”, afirma o sociólogo Mauricio Ernica, um dos responsáveis pelo estudo.

As conclusões reforçam a importância de que a política pública se preocupe não só com o nível geral de aprendizagem no país mas também com a desigualdade de resultados que se esconde atrás das notas médias.

Ernica ressalta que, embora os meninos pretos sejam os mais prejudicados no ambiente escolar, as meninas pretas e os garotos pardos também estão em frequente desvantagem.

“Temos um regime de castas, como a Índia. Embora aqui isso não esteja na lei, dados como esses confirmam que, na prática, há pouca mobilidade”, afirma a economista Fabiana de Felício, diretora da consultoria Metas Sociais.

Especialistas ressaltam que, para o aprimoramento da política pública, é importante evidenciar que há outros fatores —além do nível socioeconômico— que desfavorecem alguns alunos e investigar quais são eles. Uma hipótese ainda pouco debatida para o contexto escolar é a discriminação racial.

“Essa pesquisa é um indicador evidente de racismo e da segregação que afeta a população negra”, afirma Marília Pinto de Carvalho, professora livre-docente da Faculdade de Educação, da USP.

A pesquisadora já conduziu diversos trabalhos de campo sobre a realidade de alunos, em recortes de gênero e raça, no ambiente escolar, em áreas urbanas. 

Em um deles, as autodeclarações de cor das crianças foram comparadas com a classificação feita por seus respectivos professores. 

“Na classificação das educadoras, a coincidência entre raça negra e problemas escolares é muito mais intensa que na autoclassificação dos alunos”, diz um trecho do estudo. No caso dos meninos, esse descasamento é mais forte.

Tanto Marília quanto Ernica acreditam que a forma como os meninos pretos são percebidos no ambiente escolar pode contribuir para seu desempenho pior:

“A escola tende a reproduzir em seu interior o racismo que existe na sociedade. Assim como o homem preto está associado à violência, o menino preto está associado à indisciplina”, diz Marília. Segundo ela, isso cria um atrito entre esse grupo e a escola, dificultando sua aprendizagem.

O papel da família, de acordo com especialistas, também se mostra crucial. 

O estudante de engenharia mecânica Jadson Oliveira de Jesus, 21, classifica como sorte o fato de ter nascido em um lar estruturado, embora de baixa renda.

“Minha mãe sempre foi uma supermãe. Me ensinou a ler quando eu tinha dois anos, a escrever quando eu tinha três. Ia às reuniões da escola, conversava com os professores”, diz ele, que nasceu e cresceu na Bahia e, hoje, estuda em São Paulo, no Insper, com bolsa integral. 

Ele diz acreditar que a atenção e o incentivo que recebeu dos pais desde a primeira infância —época crucial para o desenvolvimento infantil— contribuiu para que ele superasse barreiras associadas à cor e à renda e alcançasse ótimo desempenho escolar. 

O estudante conta ter visto muitos meninos, também negros e pobres, na região violenta onde cresceu serem tragados pelo tráfico.

Tanto Jadson quanto os pesquisadores ouvidos pela Folha dizem acreditar que o destino de muitos meninos negros também poderia ser diferente se a sociedade valorizasse mais modelos de homens da mesma raça bem sucedidos.

“No Brasil, a escola é caracterizada pela ausência do personagem negro como herói da história, como pessoa ativa, que encontra soluções, luta pelos seus direitos”, afirma Marília.
 

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