Unifesp cria campus na zona leste de SP; geografia será 1º curso a abrir vagas em 2020

Expansão universitária levará para região graduações como administração pública, arquitetura e urbanismo e engenharias

Sheyla Melo João Vitor Reis
São Paulo | Agência Mural

A Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) vai oferecer o curso de geografia no campus zona leste da instituição, na capital paulista. A chegada da universidade à região é uma reivindicação da população local desde ao menos os anos 1970.

A previsão é que o curso —aprovado em outubro— comece no primeiro semestre de 2020, com 26 professores já contratados. A forma de acesso será por vestibular e atenderá 60 alunos inicialmente (são 20 vagas para o bacharelado e 40 para a licenciatura). 

“Essa universidade tem uma história de mobilização muito antiga dos movimentos sociais que reivindicam a necessidade de ter uma universidade pública na zona leste de São Paulo”, conta Tiaraju D’Andrea, 39, professor de sociologia da Unifesp.

Antiga fábrica Gazarra é o local da Universidade Federal da zona leste de SP
Antiga fábrica Gazarra é o local da Universidade Federal da zona leste de SP - Sheyla Melo/Agência Mural/Folhapress

A unidade tem o nome de Instituto das Cidades, que norteia-se em formar profissionais com foco na resolução de problemas ligados ao desenvolvimento urbano. Geografia é uma das graduações previstas no projeto político-pedagógico que ainda prevê cursos de administração pública, arquitetura e urbanismo, engenharia ambiental e sanitária e engenharia civil. Nenhum dos outros têm previsão para começar.

“A zona leste sempre foi relegada a segundo plano, foi aqui que o transporte demorou para chegar, as políticas públicas chegam sempre tardiamente e se for pensar em universidade, a USP foi implantada no Butantã na década de 1930. A gente está com 80 anos de atraso”, aponta Tiaraju. 

Em 2005, a zona leste recebeu a implantação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (a USP leste). No entanto, distante da região de Itaquera, em Ermelino Matarazzo. 

Com o campus da Unifesp, a expectativa é que o espaço atraia estudantes de distritos como Cidade Tiradentes, Guaianases, Cidade Líder, Cohab 1 e 2.  “A população conquistou esse campus, esse lugar é da população pobre, trabalhadora e negra das periferias, que construiu essa universidade com seu suor”, conclui Tiaraju.

A Unifesp foi instalada onde funcionava a antiga metalúrgica Gazarra, na avenida Jacu Pêssego. De três prédios previstos, apenas um foi concluído. Nele, são realizados cursos de especialização, grupos de estudos, como o CEP (Centro de Estudos Periféricos), também cursinho pré-vestibular, encontros culturais e pesquisas. O curso de geografia será realizado no galpão da antiga fábrica, que será reformado.

Jorge Macedo, 56, é supervisor de planejamento e morador de Itaquera. Ele conta que em 2008 foi convidado para participar das primeiras reuniões com Antônio Luiz Marchioni, o Padre Ticão, conhecido pelo trabalho social na zona leste, em especial na paróquia São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo. 

Jorge é aluno na especialização em Gestão da Cidade, Planejamento Urbano e Participação Popular. “Como fiz parte dessa luta, vi que estava tendo o primeiro curso de pós-graduação e entre os 350 inscritos, entrei na universidade que eu ajudei a construir”, diz.

Foram diversos atos para pressionar a implantação da Unifesp. No ano passado, mais de 200 pessoas participaram de uma manifestação cobrando o começo da unidade. O projeto previa inicialmente 3.500 universitários, no entanto, ainda não há confirmação do total que será implementado no futuro. “Fizemos cinco abraços em prol da universidade, que foram fundamentais para a construção desse campus”, lembra Jorge.

INTERESSES ESTUDANTIS

O DCE (Diretório Central dos Estudantes), principal entidade de representação dos estudantes de toda a Unifesp, se posicionou em defesa da abertura do curso. No entanto, questiona se haverá políticas de permanência estudantil como bolsas, alimentação e moradia aos estudantes. 

“A gente acha que tem que abrir o campus da zona leste e também ter as condições para os estudantes permanecerem”, diz Vitória Louise, coordenadora do DCE, e estudante de pedagogia no campus de Guarulhos, a 20 km do novo campus.

Ela participou da reunião do Conselho Universitário, em 9 de outubro de 2019, que definiu a aprovação do curso.“Tinham vários professores do campus da Zona Leste e a população. Entendemos que é um campus que foi construído pela mobilização da ZL, pela luta da população local”, complementa Vitória.

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