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Quando a internet faz mal

Escola deve debater o uso excessivo da rede e os efeitos das redes sociais na vida dos alunos

Em julho deste ano, o Instagram, uma das redes sociais mais populares entre crianças e jovens, anunciou o fim da divulgação das curtidas nas fotos. Nesse modelo, o famoso "like" fica visível apenas para o administrador da conta, não permitindo que os seguidores vejam qual conteúdo foi mais ou menos curtido.

De acordo com a própria empresa, que testou a prática em alguns países (caso do Brasil), o objetivo é reduzir a pressão que os usuários sentem para conquistar muitos “likes” e, assim, propiciar mais espontaneidade às postagens, mitigando a sensação de competição entre as pessoas.

A medida não foi implantada por aqui à toa: de acordo com o site de estatísticas Statista, somos o terceiro país em número de perfis na plataforma, com 72 milhões de contas ativas, perdendo apenas para Estados Unidos e Índia. Os dados são de outubro deste ano.

A “pressão” a que o Instagram se refere é baseada principalmente na percepção de que a vida muitas vezes exibida ali, com cenas incríveis de lugares paradisíacos e pessoas que se encaixam em padrões de beleza, é uma vida editada, artificial e cheia de “filtros”. Em linhas gerais, a chance de alguém publicar uma selfie não muito favorável ou uma foto que mostre problemas de saúde ou de dinheiro é bem mais baixa do que a probabilidade de se postar imagens de viagens, festas e outros momentos especiais.

Mesmo com essa consciência, é difícil escapar à glamourização que as redes sociais provocam. Levando em conta que passamos cada vez mais tempo nessas plataformas, a questão é, sim, bastante preocupante. A empresa de pesquisa GlobalWebIndex analisou neste ano dados de diversos países para estimar o tempo médio diário que cada pessoa dedica a sites ou aplicativos.

Os brasileiros ficaram em segundo lugar no ranking, atrás apenas das Filipinas, ao alcançarem um total de 3 horas e 45 minutos conectados, o que demonstra um aumento de seis minutos em relação ao ano passado.

Se as novas tecnologias propiciaram acesso a uma infinidade de conteúdos, também nos colocaram em contato com situações para os quais talvez não estivéssemos preparados emocionalmente. Isto pode ter consequências reais na vida de muitos usuários, especialmente no caso de adolescentes, que são mais suscetíveis a esse tipo de pressão por estarem em uma fase do desenvolvimento em que a aceitação, seja individual ou coletiva, torna-se um dilema. Em uma geração em que muitos consomem conteúdo de youtubers e até mesmo sonham em ser um, como lidar com a disparidade entre o que faz parte do mundo cotidiano e o que é uma realidade selecionada para ser exibida?

As consequências do uso excessivo dessas plataformas são tema de pesquisas em diversas áreas. Um bom exemplo é o estudo da Royal Society for Public Health, entidade britânica sem fins lucrativos com mais de um século de existência, sobre como as mídias sociais afetam jovens com idade entre 14 e 24 anos. O levantamento mostrou que, apesar de reconhecerem a importância desses recursos, a maior parte desse público considera que as redes são nefastas para o seu bem-estar em questões como insatisfação com o corpo, sentimento de exclusão e ansiedade. 

Em outra perspectiva, a psicóloga e escritora Jean M. Twenge publicou dados que mostram, de acordo com suas investigações, que adolescentes que ficam no mínimo três horas por dia nessas plataformas são 35% mais vulneráveis à depressão do que aqueles que as usam durante uma hora diária. Twenge é autora do livro “iGen - Por que as crianças de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para vida adulta”. 

O efeito “viciante” de aplicativos, jogos e mídias sociais faz parte da vida de uma geração conectada e obviamente não pode ser ignorado pelas escolas. Crianças e jovens precisam compreender que, apesar de serem um lugar de possível aprendizado, inspiração e conexões, as redes podem ser um ambiente especialmente tóxico, em diversos níveis, que passam inclusive por cyberbullying e manifestações de ódio. Interações nocivas podem minar a autoestima e a autoconfiança, podendo causar isolamento, angústia e frustração, impactando a vida acadêmica e social dos estudantes.

Ao considerar como papel da escola o desenvolvimento da comunicação e do pensamento crítico no contexto da cultura digital em que professores e alunos estão inseridos, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) permite que esse debate adentre o ambiente escolar. A discussão sobre cidadania digital passa pelo entendimento que os estudantes devem ter sobre os tipos de uso que fazem das redes, compreendendo que o consumo de conteúdo deve ser realizado com reflexões e análises sobre valores, representações e estereótipos.

Atividades que relacionem redação, edição e interpretação de texto, em língua portuguesa, à edição de posts em redes sociais podem servir para introduzir as ideias de narrativa, autoria e perspectivas/vozes, fazendo com que os alunos percebam as consequências da seleção intencional de eventos como forma de se contar uma história.

O uso educativo de recursos de edição de foto e vídeo, mostrando como aplicativos diversos trazem diferentes resultados em uma mesma imagem também é viável para mostrar como editar ou mesmo distorcer a realidade é algo fácil de se fazer.

Uma boa proposta é sugerir à turma que publique nas redes, durante alguns dias, apenas conteúdos não editados, sem manipular fotos ou textos, para depois compará-los com os posts em que usam filtros e demais efeitos. Algo como "meu fim de semana editado" e "meu fim de semana sem edição", provocando assim uma reflexão de caráter prático. Um debate subsequente à essa atividade pode ser baseado em vídeos como “Are You Living an Insta Lie? Social Media Vs. Reality”, da entidade de combate ao bullying Ditch the Label, que mostra como as pessoas simulam uma vida irreal no Instagram. 

Outra possibilidade é apresentar, em sala de aula, perfis que tentam subverter esse mundo de ostentação, desconstruindo ideais de perfeição. É o caso de influenciadores que se dedicam a algumas causas, como combate a doenças mentais e padrões estéticos, incentivando a discussão em torno de transtornos psiquiátricos e questões como gordofobia.

A cantora internacional e ícone adolescente Demi Lovato é um exemplo. Com quase 76 milhões de seguidores no Instagram, ela costuma usar suas postagens para falar de autoimagem. Já vlogger brasileiro PC Siqueira propõe reflexões parecidas, usando uma linguagem que se aproxima do universo desses jovens – como também faz a atriz Cleo Pires, que recentemente sofreu ataques virtuais por conta de seu corpo e passou a discutir o assunto em suas postagens. 

A própria Safernet, organização reconhecida por seu trabalho na garantia de um ambiente saudável na internet, também promove campanhas e publica cartilhas que focam na depressão e na prevenção do suicídio adolescente, e também podem ser trabalhadas pela escola. 

A interpretação crítica da realidade e a reflexão sobre um consumo consciente de conteúdo são habilidades imprescindíveis às gerações atuais, e é por essa razão que constam na BNCC de maneira transversal, podendo ser debatidas especialmente nas ciências humanas. Ao incentivar o foco em informações e perfis relevantes, debatendo o sentido dos “likes”, a escola cumpre uma de suas principais missões: a de formar cidadãos responsáveis para viver em uma sociedade conectada. 

Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

Isabella Galante

Jornalista do Instituto Palavra Aberta

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