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Vestibular no meio do ano

Pandemia amplia abismo entre escolas públicas e privadas no Brasil

No estado de São Paulo, mais rico do país, apenas 50% dos estudantes havia acessado o aplicativo de aulas a distância

Miguel Thompson
São Paulo

Um dos aspectos mais trágicos do coronavírus é a dura maneira como as vidas das famílias menos favorecidas estão sendo afetadas.

A situação escancara o abismo socioeconômico existente no Brasil, da diferença de renda ao acesso a serviços públicos como educação e saúde.

Na educação, estamos constatando a enorme disparidade entre os serviços das instituições públicas e privadas e as condições de estudos de jovens de diferentes classes sociais.

Se, em tempos normais, a garantia do direito à educação é um desafio que exige planejamento e visão, em tempos de crise esses elementos se tornam literalmente vitais.

A falta de uma estratégia nacional de ação educativa é um fator que afeta a todos. Estados, municípios e setor privado buscam encontrar alternativas para manter e levar a melhor educação possível em uma situação emergencial.

A resistência na mudança de datas do Enem já trouxe prejuízos para todos os estudantes, principalmente os das escolas públicas, incutindo desânimo e abandono temporário do projeto universitário.

As redes estaduais de ensino têm sido ágeis em encontrar alternativas para oferecer aulas e materiais didáticos aos alunos, mas muitos problemas vão emergindo a cada dia, desde uma formação frágil em didáticas online dos professores —que vêm lutando para preparar aulas virtuais—até a falta de tecnologia.

Mesmo no estado de São Paulo, o mais rico do país, há alguns dias apenas 50% dos estudantes havia acessado o aplicativo de aulas a distância.

Podemos dizer que este resultado se deve à falta de informação dos jovens, inabilidades com a tecnologia, falta de aparelhos de acesso ou de conectividade à internet.

Lembremos que até casos de falta de alimentação surgiram na quarentena, o que impede a condição humana básica para qualquer outra atividade.

A demora de recebimento dos recursos oferecidos pelo governo federal também é fator que causa desvio de foco dos estudantes, que precisam buscar outros afazeres para a manutenção de sua família.

Não faltam exemplos de situações prosaicas, como a ausência de local adequado aos estudos, o que prejudica a preparação para um exame tão importante para os jovens.

Muitos pais e mães das famílias mais pobres não podem cumprir quarentena em razão da vulnerabilidade econômica de seus lares.

Nesse sentido, mais preocupante é a condição das meninas, que acumulam a condição de gestora da casa, cuidadora dos irmãos e mesmo de uma maternidade precoce.

Como competir com jovens das escolas privadas, com melhor acesso à internet, espaços adequados de estudo e focados no objetivo de fazer um bom Enem?

Nos últimos anos houve notável esforço para garantir que os brasileiros tivessem acesso à educação. No ensino médio, saímos de 51% de jovens até 19 anos concluindo esta etapa em 2012 para 63,6% em 2018.

A somatória de uma pandemia com políticas equivocadas pode destruir não só as vidas das pessoas mas também o sonho dos jovens.

Sem a ação conjunta de entes federativos, setor privado e organizações não governamentais, veremos aumentar esse distanciamento social que a duras penas a nação tem tentado diminuir.

Miguel Thompson é diretor acadêmico da Fundação Santillana

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