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Volta às aulas em 8 de setembro vira incógnita em SP com pressão de pais e lentidão na retomada

Governo afirma que manterá plano de retorno, mas ressalta haver várias condições a cumprir

São Paulo

A data de 8 de setembro, colocada apenas como previsão do governo de São Paulo para a volta às aulas presenciais, mas tida como certa por instituições de ensino, tornou-se uma incógnita diante do avanço lento da retomada, da pressão de professores pela manutenção do fechamento das escolas e do medo dos pais.

De acordo com o plano de retomada na educação, será preciso que todas as regiões do estado estejam há no mínimo 28 dias na terceira fase da retomada, a amarela. Por enquanto, a minoria se encontra nessa etapa. A maior parte está na segunda fase, a laranja, e há ainda cinco regiões na primeira, a vermelha. Será preciso que até 7 de agosto todas tenham evoluído para a amarela e que nenhuma recue nos 28 dias seguintes.

Nesta sexta-feira (17), Doria anunciou que a região de Piracicaba, que estava na laranja, recuou para a vermelha em razão do aumento na taxa de ocupação de UTIs, agora em 84,6%. O plano de retomada prevê que as regiões possam pular etapas para frente e para trás. Ou seja, podem ir, por exemplo, da vermelha para a amarela e vice-versa, o que torna ainda mais incerto que as escolas irão de fato reabrir em 8/9.

O plano de retomada na educação foi anunciado em 24 junho e, no dia seguinte, o secretário de Educação, Rossieli Soares, disse à Folha que poderia haver flexibilização para uma volta regional se todo o estado não evoluísse por igual. A questão é que falta ainda respaldo da opinião pública, abalada pela demora na queda do número de mortos, que paira em uma média diária de mil, e de contaminados, que superam 2 milhões no país, sem contar a provável subnotificação.

No fim de junho, o Datafolha apontou que 76% dos brasileiros preferiam que as escolas permanecessem fechadas durante a pandemia. Agravando a situação, nesta semana, um matemático fez uma estimativa de que 17 mil crianças poderiam morrer se as escolas reabrissem, o que se disseminou por grupos de WhatsApp e gerou pânico.

Diante disso, o governador João Doria convocou Rossieli para a entrevista coletiva desta sexta-feira (17) sobre a pandemia. O secretário afirmou que solicitou informações ao matemático Eduardo Massad, da Fundação Getúlio Vargas, sobre a estimativa de mortes que ele havia feito.

O secretário disse que “houve um engano” e que “o professor reconhece” que seriam, em seu modelo, 1.557 mortes em todo o Brasil, não só de crianças, mas de alunos de 1 a 19 anos, e que tudo isso poderia eventualmente acontecer se a reabertura fosse hoje e não na fase mais branda da pandemia, que é quando o governo pretende reabrir as escolas.

À Folha, o matemático afirmou que 1.557 mortes seriam nos primeiros 15 dias de aulas presenciais e que 17 mil, ao longo da pandemia. “Mas é importante enfatizar que isso é apenas uma ESTIMATIVA que pode não se concretizar”, escreveu, usando letras maiúsculas para “estimativa”.

Rossieli, apesar de falar em engano, manteve um tom contido na entrevista e evitou soar muito crítico em relação ao matemático, reforçando que a volta só se dará quando houver segurança. Disse que “há muito estudo saindo na área da educação” e que analisa todos. Reafirmou que o governo segue com o plano de reabertura na educação, mas reforçou a necessidade de se manter o estado no amarelo por 28 dias.

Mais tarde, no entanto, a secretaria foi mais enfática em uma nota enviada à imprensa com o título “Governo de SP mantém previsão de retorno das aulas para o dia 8 de setembro”, e o subtítulo “Divulgação de estimativa de mortes apontada por matemático da FGV está equivocada; se aplica no país todo e é dez vezes menor”.

No final de junho, a Folha perguntou a Rossieli sobre um outro estudo matemático, realizado em diversos países e publicado pela revista científica Nature, que aponta que as crianças têm baixa chance de se contaminarem com o vírus da Covid-19 e que isso pode explicar o fato de o fechamento das escolas não ter contido o avanço da doença.

Ele ponderou que o estudo era quantitativo, que há muitas pesquisas sendo feitas e que o governo não poderia se basear em algumas delas, apesar de realmente haver muitos indícios de que o risco seja baixo para crianças. “Imagine eu na entrevista coletiva dizendo que iria reabrir porque vi esse estudo na Nature”, afirmou.

Já a estimativa do matemático da FGV, diante do terror gerado nas redes sociais, teve de ser tratada na coletiva. Apesar de não ter tido força para cancelar ou adiar a reabertura das escolas, serviu para jogar mais um banho de água fria na convicção sobre o dia 8 de setembro e, por ora, em uma eventual regionalização na retomada.

Também deverá reforçar a pressão de professores da rede pública contra a reabertura. Por outro lado, pode a ajudar o governo a conter a demanda de parte das escolas particulares para que possam voltar às presenciais antes da rede pública, com o argumento de que têm mais estrutura para implementar os protocolos de segurança e o de que correm o risco de falir em razão do aumento da inadimplência, dos descontos nas mensalidades e da perda de alunos.

O governo de São Paulo, apesar da orientação do Conselho Nacional de Educação para que os colégios privados sejam autorizados a voltar antes dos públicos, determinou que a volta será simultânea. Nesse xadrez, as escolas aguardam os novos números e os humores da opinião pública para avançar na tentativa de negociação sobre a data da volta ou mesmo em possíveis ações judiciais.

Erramos: o texto foi alterado

A pesquisa do Datafolha citada apontou que 76% dos brasileiros preferiam que as escolas permanecessem fechadas durante a pandemia, não dos pais. O texto foi corrigido.

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