Capitais com mais gravidez na adolescência têm menor cobertura de creche

Mapeamento mostra que ausência de ações reforça ciclo intergeracional de pobreza

São Paulo

As capitais brasileiras com maiores taxas de gravidez na adolescência são também as que têm menor atendimento em creche para crianças de 0 a 3 anos, segundo levantamento feito pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Os dados foram compilados para o projeto Primeira Infância Primeiro, que reúne informações e iniciativas que devem ser debatidas nas eleições municipais deste ano. O objetivo da fundação é mostrar aos candidatos a importância de ter projetos voltados para melhorar as condições de vida de crianças pequenas.

Foram compilados para mais de 5.000 municípios brasileiros 33 indicadores com informações sobre saúde, educação, violência e assistência social que interferem no desenvolvimento das crianças nessa primeira etapa da vida.

Os dados mostram, por exemplo, que a menor cobertura de creche está em locais onde há maior vulnerabilidade das mães.

Em Macapá, 1 em cada 5 bebês nascem de mães adolescentes (com menos de 19 anos no dia do parto), enquanto o atendimento escolar só atinge 10% da população de crianças de 0 a 3 anos —considerando a rede pública e privada.

“Não existe uma relação direta entre os dois indicadores, mas eles mostram como a vulnerabilidade e falta de oportunidade só é reforçada.

É entre os mais pobres que há escassez de vaga em creche e é entre eles também que há mais gravidez precoce”, disse Heloisa Oliveira, diretora de relações institucionais da fundação.

Para ela, os gestores deveriam olhar para os indicadores de áreas diferentes para identificar as crianças mais vulneráveis e assim formular políticas que as atendam prioritariamente. Como é o caso dos bebês de mães adolescentes.

“Um fator que torna a pobreza hereditária no Brasil é a gravidez na adolescência, porque, se essa mãe adolescente não tiver apoio, ela terá que abandonar seu projeto pessoal de formação, não vai ter condições de conseguir um bom emprego e de oferecer melhores condições ao seu filho”, disse Oliveira.

Uma das sugestões apontadas pela fundação é de que os municípios priorizem o atendimento em creches para os grupos mais vulneráveis, no qual as mães adolescente pobres estão incluídas.

A situação é parecida em outras capitais do país, como Boa Vista e Manaus, que tem mais de 18% dos bebês nascidos em 2018 com mães adolescentes. A cobertura de creches nessas duas cidades também fica abaixo de 11%. Os dados foram compilados da Pnad e Datasus.

Oliveira destaca que o mapeamento não pretende classificar as cidades, mas apontar as situações de maior vulnerabilidade que ocorrem em todas as regiões do país.

São Paulo, por exemplo, é a capital com maior cobertura de creche, 62% das crianças de 0 a 3 anos estão matriculadas em unidades públicas ou privadas. No entanto, ainda há uma fila de espera de mais de 22 mil crianças, sem que haja dispositivo específico para o atendimento de crianças nascidas de adolescentes grávidas.

A Prefeitura de São Paulo, na gestão Fernando Haddad (PT), institui que crianças de famílias beneficiárias do bolsa família teriam prioridade na matrícula em creche.

“Não queremos criar um ranking e apontar qual o município com situação mais grave, mas mostrar que há desigualdade e falta de atendimento às crianças em todos os locais. É preciso avançar na qualidade da política pública de primeira infância em todo o país se quisermos reverter a falta de oportunidade intergeracional no país”.

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