Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

'A escola não é lugar para ir com medo', diz professora premiada, contrária à volta

Folha entrevistou docentes da escola pública com opiniões diferentes sobre o retorno presencial agora

São Paulo

As duas são professoras da rede pública, têm idades próximas e foram premiadas por trabalhos inovadores em sala de aula. Mas quando o assunto é a controversa volta presencial das escolas, suas opiniões são distintas. Uma é mais a favor, e a outra, contra.

Ao contrário do que pode parecer, porém, suas visões sobre o tema não são tão diferentes assim. Além dos prêmios, as duas têm em comum a frustração com o exercício da profissão no ano que passou e a clareza de que tanto elas como os alunos perdem muito com o ensino remoto. ​

Cética em relação ao retorno, Lidiane da Silva Lima, 36, leciona nos anos finais do ensino fundamental da escola municipal Anna Silveira Pedreira, zona sul de São Paulo. Ano passado ela venceu o prêmio Educador Nota 10, com projeto de leitura de poemas que desconstruíam imaginário sobre a herança africana.

Defensora do retorno, Eveline Andrade Dias, 38, leciona geografia no fundamental de escola municipal e sociologia numa estadual em Elias Fausto (cidade a 131 km de SP). Ela venceu o Professores do Brasil em 2018, prêmio do Ministério da Educação, com projeto que envolvia debates sobre a organização do Estado.

As professoras relataram à Folha como se sentem no retorno, após quase um ano, ainda em meio à pandemia. Lidiane avalia ser muio difícil conseguir que os alunos sigam os protocolos. ​

A professora Lidiane Lima, 36, que dá aulas na zona sul de SP, em casa com tijolo descascado e antena parabólica
Lidiane Lima, 36, que dá aulas na zona sul de SP. No ano passado, ela venceu o prêmio Educador Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita em parceria com Abril, Globo e Fundação Roberto Marinho, por um projeto de leitura de poemas que desconstruíam o imaginário sobre a herança africana. Alguns dos poetas lidos em sala foram convidados a falar com os alunos, que organizaram um sarau. - Danilo Verpa/Folhapress

Como você se sente prestes a voltar às aulas presenciais depois de quase um ano com escolas fechadas?

Bastante aflita e um pouco triste. Esta é uma época do ano em que eu costumo estar muito motivada, ansiosa pelo primeiro contato com os alunos, com ideias fervilhando. Por outro lado, este ano que passou basicamente inexistiu. Então as duas opções postas —o ensino remoto e à volta à escola neste momento, com risco de contágio pelo coronavírus— são bastante frustrantes.

Como é chegar à escola com esse clima?

Ensinar para mim também é um ato político, e estar fora da sala de aula representa uma pausa na modificação que eu desejo ver no mundo. Mas a escola não é um lugar para se ir com medo, apreensiva. Como construir vivências significativas num ambiente hostil? A escola para mim é um lugar de cura, de resgate de autoestima.

E a experiência com o ensino remoto, por outro lado, como foi?

Inicialmente fui bastante relutante ao ensino remoto porque sabia que muitos alunos não teriam acesso. Eu também não tinha um bom notebook e uma internet adequada. Lá para maio, junho já estava até um pouco depressiva. Sentia que os poucos alunos que tinham acesso às aulas esperavam algo de mim. Sempre fui a professora animada, que tem ideias mirabolantes.

Vi que precisava fazer alguma coisa, e então tive experiências incríveis, mas com 18 alunos… de um total de 150. Fiz uma competição de poesia falada online, que a comunidade viu também, virtualmente. Estudamos o gênero debate e fizemos dois debates, um sobre a questão do abuso sexual e outro sobre aborto. Foi interessante.

E os demais que não participavam das atividades, o que justificaram?

Era evidente a dificuldade mesmo entre os que acessavam. Quando eu pedia para abrirem as câmeras nas aulas, via alunos encolhidos no quintal para pegar o wifi do vizinho, ou tentando pegar a rede em alguma praça. Muitos, porém, não acessavam dizendo que não tinham internet, e muitos não acessaram porque não quiseram.

Me preocupo muito com a perda do vínculo deles com a escola por causa desse isolamento extenso. Eu sinto que tenho estudantes na condição de total desânimo e falta de conexão.

O governo do estado tem dito que as escolas foram equipadas para atender as novas exigências sanitárias.

Parece ilógico que tudo esteja aberto menos a escola, mas acho que é balela a história de o Estado de estar preocupado com a saúde mental dos estudantes e aprendizagem. Se essa preocupação existisse, o certo seria planejar o acesso online e garantir que todos conseguissem aprender de forma remota.

Qual é exatamente a preocupação com a volta presencial?

Estamos entre a situação atual, que não atende nossas necessidades, e a volta, que não é segura. Na minha escola, toda a equipe de gestão já pegou Covid. Compartilhamos notebooks e nunca temos livros didáticos para todos os alunos. Eles sempre têm que compartilhar. E também acho muito difícil pedir para os estudantes não se aglomerarem, a gente vê na rua que eles não têm feito distanciamento.

Além disso, estamos apreensivos porque a proposta é de ensino híbrido [presencial para parte dos alunos e remoto para os demais], o que aumentaria nossa carga de trabalho, para atender tanto os que vão à escola como os que não vão.

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