Visto como decorativo, ministro da Educação privilegia viagens e agendas com Bolsonaro

Milton Ribeiro participou de 14 cerimônias com o presidente sem relação com a educação e já acumula 24 dias viajando

Brasília

Prestes a completar quatro meses no cargo, o ministro da Educação, o pastor Milton Ribeiro, tem privilegiado viagens, agendas com o presidente Jair Bolsonaro sem relação com a área e, até agora, pouco se envolveu nos temas da pasta.

A distância e o desconhecimento do trabalho e os desafios do MEC (Ministério da Educação) têm causado preocupação nos bastidores do governo. Para interlocutores, saíram os ministros ideológicos, entrou o decorativo.

Ribeiro não tem experiência em políticas públicas. Ele foi nomeado para agradar a ala evangélica que apoia o governo e cessar as crises criadas pelos ex-ministros de perfil ideológico Abraham Weintraub e Ricardo Vélez Rodriguez.

seis pessoas enfileiradas diante de uma parede
Ministro da Educação, Milton Ribeiro (de boné azul), em Fernando de Noronha com o secretário da Pesca, Jorge Seif, e os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Álvaro Antonio (Turismo) - Reprodução

A avaliação de integrantes nos corredores do MEC e de outras áreas do governo é que Ribeiro não assumiu liderança nos rumos da política educacional e, mais grave, não entendeu o que é ser ministro. Também no Congresso é essa a impressão.

A postura se reflete na agenda oficial. Desde que assumiu o cargo, em meados de julho, Ribeiro abriu mão das atividades no MEC para participar de 14 cerimônias com Bolsonaro sem qualquer relação com a educação.

O ministro já acumula 24 dias em viagem: a cada 10 dias no cargo, em 2 ele esteve fora, às vezes por motivos alheio à pasta.

Na véspera do feriado de Finados, ele foi parar em Fernando de Noronha (PE) com uma comitiva liderada pelos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Marcelo Álvaro Antônio (Turismo). A viagem foi para anúncios da área ambiental e de turismo, mas Ribeiro aparece em fotos e vídeos da programação.

Para justificar a presença de Ribeiro, a programação incluiu visita a uma escola no dia 29 de outubro.

Funcionários da unidade disseram à Folha que ele ficou 40 minutos no local e o encontro só foi agendado na véspera (28), quando o ministro já estava no Recife para encontros na Fundação Joaquim Nabuco, mantida pelo MEC.

Questionada, a pasta não explicou o motivo da viagem a Noronha e os custos de passagens e estadia. O ministro permaneceu em Pernambuco até terça-feira (3).

Ribeiro tem adequado sua rotina para estar com Bolsonaro —o presidente era esperado em Noronha mas desmarcou em cima da hora. O ministro já participou, por exemplo, de eventos militares, sobre habitação e de homenagem a um músico.

Para estar com Bolsonaro em uma cerimônia sobre aviação, em 7 de outubro, o ministro da Educação preferiu faltar a um anúncio no MEC.

Foi o primeiro aporte federal relacionado à Covid-19 para as escolas e a divulgação de um protocolo para volta às aulas. O governo federal tem sido cobrado a dar apoio às redes de ensino durante a pandemia.

Ribeiro fez quatro viagens com Bolsonaro. Em só uma delas, em 14 de agosto, havia relação com a área: a inauguração de uma escola cívico-militar no Rio de Janeiro.

Depois disso, ele seguiu no mesmo dia com o presidente a eventos das Forças Armadas. Ainda posou ao lado de Bolsonaro diante do símbolo do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais).

Bolsonaro e Milton Ribeiro de braços cruzados diante do símbolo do Bope, com facas em uma caveira
Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Educação, Milton Ribeiro, na sede do Bope no Rio de Janeiro - @mribeiroMEC no Twitter

Funcionários do MEC e congressistas apontam que essa proximidade sugerida pela agenda não tem se revertido aos interesses da Educação. O MEC tem baixa execução orçamentária, perdeu R$ 1,4 bilhão de recursos neste ano e a previsão de orçamento para 2021 é também de redução.

Para Luiz Garcia, presidente da Undime (que representa os secretários municipais de Educação), o novo ministro chegou com uma nova disposição de maior diálogo, minado sob Weintraub. Mas falta entender suas diretrizes.

"Houve disposição para se ouvir mais, só que ainda estamos na fase em que as escutas não se transformaram em ações", diz. "O que ainda não nos foi apresentado é uma política norteadora, um eixo."

Ribeiro não tem participado, por exemplo, da discussão sobre a lei de regulamentação do Fundeb —principal fundo de financiamento da educação básica. A discussão com o Congresso é tocada apenas por técnicos.

O Fundeb precisa ser regulamentado neste ano para que as novas regras de distribuição de recursos sejam operacionalizadas.

A deputada Luísa Canziani (PTB-PR) exalta a disposição do ministro para o diálogo, mas diz que ele está em fase de adaptação ao cargo. "Ele ainda está se ambientando no ministério, está averiguando quais serão as prioridades e o que quer deixar de legado."

Na quarta-feira (4), na divulgação dos resultados da avaliação de alfabetização e ciências, Ribeiro disse que ainda hoje tem descoberto "novas complexidades da pasta".

Ele foi embora logo após um breve discurso, sem acompanhar a apresentação dos dados. Isso aconteceu em outros três eventos públicos do MEC, sendo um deles o de divulgação do Ideb, o indicador de qualidade da educação básica.

O ministro não se dispôs a falar com a imprensa nesses dias. Em entrevistas que concedeu, disse que está no MEC para cumprir a agenda conservadora de Bolsonaro na educação e causou polêmica ao relacionar a homossexualidade a "famílias desajustadas".

A fala lhe causou desgaste até entre os políticos de direita. A PGR (Procuradoria-Geral da República) pediu que o STF (Supremo Tribunal Federal) investigue o ministro por crime de preconceito e ele pediu desculpas.

A origem religiosa do ministro tem se refletido em sua agenda. Além de nove reuniões com congressistas da bancada religiosa, Ribeiro teve outros 13 encontros com religiosos, reunindo-se com pastores, padres e bispos.

Uma de suas viagens ocorreu após convite do reverendo Osni Ferreira, de Londrina (PR). O ministro foi sem assessores à cidade, onde passou três dias e ministrou culto na Igreja Presbiteriana, liderada por Osni.

Com relação à educação, visitou um centro universitário particular e, no domingo, conheceu obras no Instituto Federal do Paraná. Esse último compromisso nem sequer fora agendado pelo MEC, mas por congressistas.

Entre hospedagens e passagens, compradas com urgência na mesma semana, o MEC gastou R$ 4.049,81 só com essa agenda do ministro.

O MEC não respondeu os questionamentos da Folha sobre o envolvimento de Ribeiro com a pasta e detalhes de sua agenda e viagens.


As viagens do ministro da Educação

7 de agosto
Acompanhou Bolsonaro em visita ao 2º Batalhão de Infantaria Leve em Santos (SP) e obras de uma ponte em São Vicente (SP)

8 de agosto
Visitou a escola estadual Margarida Pinho Rodrigues, em Santos (SP). Apesar de constar da agenda oficial, disse na ocasião que era uma visita por questões afetivas, uma vez que sua a mãe trabalhou na unidade

10 de agosto
Foi a Bauru (SP) visitar a ITE (Instituição Toledo de Ensino), onde passou o dia todo e só retornou a Brasília no dia seguinte, quando sua primeira agenda ocorreu no meio da tarde. Apesar de constar da agenda oficial, só foi ao local porque estudou na ITE. A passagem, de R$ 590,06, foi paga pelo MEC, segundo o Portal da Transparência do governo

13 de agosto
Voltou a Santos (SP), cidade onde morava antes de virar ministro, para a inauguração de uma escola municipal cujo nome homenageou seu pai, Nilton Ribeiro

14 e 15 de agosto
Acompanhou Bolsonaro na inauguração da escola municipal cívico-militar Carioca. Depois seguiu a programação com o presidente na passagem de comando do Comando Militar do Leste, visita ao Bope e em cerimônia de brevetação dos novos paraquedistas

24 de agosto
Foi a São Paulo para reunião na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Foi a única agenda do dia, volta a Brasília no fim da tarde. Como a viagem foi decidida no dia 21, o MEC pagou R$ 1.978,90 nas passagens entre Brasília e São Paulo

4 de setembro
Visita ao Centro de Altos Estudos de Segurança (SP) e à Fundação Lemann. Encontro na Lemann entrou na mira de militantes ideológicos que apoiam o governo. Passagem emitida com pouca antecedência, custou R$ 1.978,03​ só a ida para São Paulo (encontro foi numa sexta-feira)

25 a 27 de setembro
Já na sexta, 25, o ministro encerra sua agenda pela manhã e viaja no mesmo dia para Londrina (PR). No sábado (26), visita o Centro Universitário Filadélfia e no domingo, obras do bloco didático e administrativo do Instituto Federal do Paraná. Também no domingo faz pregação na Igreja Presbiteriana de Londrina

29 de setembro
Faz nova reunião na Fiesp. MEC gastou R$ 1.824,08 em passagens e ele teve essa agenda neste dia —no dia anterior, também teve uma agenda​

8 de outubro
Visita à Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Compromisso segue das 11h30 às 14h45, depois não mais. Dia 8 foi véspera de feriado prolongado

17 de outubro
Viaja com Bolsonaro para a cerimônia de entrega de espadim aos cadetes da turma centenário da missão francesa no Brasil, em Resende (RJ).

24 e 25 de outubro
Vai a Goiânia, onde conversa com autoridades e visita obras do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás e o Parque Tecnológico Samambaia. Também visita campus do Instituto Federal Goiano

26 de outubro
No Rio de Janeiro, tem audiência com d. Orani João Tempesta, com o presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), Rogério Caboclo, e com a reitora da UFRJ, Denise Pires de Carvalho

28 de outubro
No Recife (PE), tem agenda na Fundação Joaquim Nabuco, ligada ao MEC

29 de outubro a 2 de novembro
Vai a Fernando de Noronha (PE) acompanhar comitiva de ministros do Meio Ambiente e Turismo. Sobre educação, só visita escola na ilha em compromisso agendado um dia antes. Aparece ao lado dos ministros em eventos alheios à educação

3 de novembro
De volta a Recife, participa de almoço com o presidente da companhia aérea Azul ao lado do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, e outros integrantes do governo. Assina protoco de intenções da Fundação Joaquim Nabuco e visita ainda empresa de telecomunicações

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