No Gife, investidores anunciam R$ 33 mi para formar lideranças como Marielle

Quatro organizações nacionais e internacionais vão apoiar iniciativa do Fundo Baobá

Patricia Pamplona
São Paulo

A contribuição do investimento social privado para a sociedade pode vir de várias formas e em diferentes áreas. Como exemplo disso, durante o segundo dia do 10º Congresso Gife nesta quinta-feira (5), em São Paulo, quatro organizações nacionais e internacionais se reuniram para apoiar uma iniciativa do Fundo Baobá de incentivo a novas lideranças políticas como Marielle Franco.

A homenagem à vereadora soma US$ 10 milhões (cerca de RS 33 milhões). Ela surge em resposta ao assassinato, para reforçar as lutas, o que ela significava e fomentar outras Marielles –mulheres negras com protagonismo político.

"Não há desenvolvimento sem igualdade racial", afirmou no anúncio do fundo o vice-presidente da Fundação Kellogg, Joseph Scantlebury. "Pessoas negras aspiram por oportunidades neste país."

A fundação impulsionou a criação do Fundo Baobá em 2011, autor central da iniciativa. Desde sua criação, o fundo trabalha para captar recursos para parear a promessa de doação feita pela Kellogg que, a cada US$ 1 angariado, ela investiria outro US$ 1, em um limite de até US$ 25 milhões.

Com a morte da vereadora, o Baobá começou a estruturar uma iniciativa para homenageá-la, encontrando no Instituto Ibirapitanga, na Fundação Ford e na Open Society Foundations apoiadores dispostos a colaborarem. "O foco é promover o protagonismo de mulheres negras", disse no lançamento Selma Moreira, diretora-executiva do Baobá. "É um fundo em construção para desenvolver ações de longo prazo, na forma de um fundo patrimonial."

Com a força do US$ 1 milhão de cada uma das organizações, o Fundo Baobá conseguiu que a paridade da Kellogg fosse de US$ 3 investidos para cada US$ 1 vindo de organizações e doadores brasileiros e US$ 2 para US$ 1 de internacionais. Assim, os US$ 3 milhões se tornaram US$ 10 milhões.

"É uma grande oportunidade, não só para dar a devida importância à questão da equidade racial, mas alavancar uma quantidade de recurso que até hoje não estava disponível", disse André Degenszajn, diretor-presidente do Instituto Ibirapitanga.

Os recursos devem ser um marco para o Baobá. "O objetivo é ser o maior fundo de igualdade racial fora dos Estados Unidos", disse Selma.

NOVAS VOZES

A homenagem a Marielle põe em questão a necessidade de haver um acontecimento trágico para que o investimento surja, como pontuou Ana Paula Lisboa, ativista negra que compartilhou sua história no espaço Novas Vozes do Congresso Gife.

"Precisou uma mulher negra morrer para aparecer US$ 10 milhões", afirmou no fim de sua palestra. "Que não precise outra mulher negra morrer para aparecer mais dinheiros." André concorda com a crítica, mas pondera que essa resposta, com uma mobilização, é melhor que a alternativa de não conseguir responder a altura. "Isso reforça algumas características do investimento social no Brasil, de se distanciar de certas questões que deveriam ter centralidade."

Na luta pela igualdade racial, Ana Paula tem uma história como a de muitos outros brasileiros: como os pais não podiam pagar aluguel, passou a infância morando em casas de parentes. Além disso, teve o irmão assassinado há quatro anos.

Ela, no entanto, tem a visão de criar uma militância pela felicidade. "O que mais nos é negado como brasileiro e pessoa negra é ser feliz." Para isso, ela criou, recentemente, um programa para que quatro mulheres, três delas negras com cadeiras permanentes, falem sobre assuntos que normalmente não as perguntam.

"Por que minha agenda está sempre lotada em março e novembro e em outros meses eu tô de boas? Por que só posso falar sobre ser mulher e ser negra?" Foi a maneira que ela e suas amigas arranjaram para mover as estruturas, tema discutido na Casa das Pretas no dia da morte de Marielle.

"No dia do assassinato da Marielle, eu estava lá. Esse assassinato foi como dizer que tudo que a gente estava celebrando era uma mentira porque o direito mais básico, o da vida, a gente não tem conseguido dar conta."

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