Como virar o rei do lixo unindo empresas, catadores e comunidade

A receita de sucesso da Boomera, fundada por Guilherme Brammer Jr., finalista do Empreendedor Social, na visão da executiva Gabriela Onofre

Cristiano Cipriano Pombo Rodolfo Stipp Martino
São Paulo

A executiva Gabriela Onofre, 46, se lembra bem do dia em que conheceu o engenheiro de materiais Henrique Guilherme Brammer Jr.

Foi no final de 2010, numa feira de cosméticos. Ele fazia a apresentação de um projeto para reaproveitar plásticos de difícil reciclagem (com dupla ou tripla composição).

Para Gabriela, a proposta soou tão inovadora quanto desafiadora. “Poucos naquele dia compreenderam o quanto o Guilherme estava à frente de seu tempo e como ele pensava a reciclagem de materiais de um jeito completamente diferente.”

 

À época, ela era diretora de comunicação e relações institucionais da Procter & Gamble. E relata que a empresa buscava soluções para a reciclagem de embalagens de seus produtos, mas também desejava gerar impacto social.

Guilherme, fundador da Boomera e finalista do Prêmio Empreendedor Social 2019, oferecia tudo o que empresa queria. Mas, segundo a executiva, ele teria que passar por um desafio.

“O grande diferencial da solução dele foi envolver e treinar os catadores. Não tinha ninguém que estava fazendo isso de maneira organizada”, afirma Gabriela. 

O resultado do projeto beneficiou uma cadeia inteira, passando por quem coleta materiais para reciclagem até por quem manufatura.

E ajudou a Boomera a alcançar os resultados que têm hoje, com mais de 60 mil toneladas de plásticos reaproveitados.

Abaixo, o depoimento de Gabriela Onofre, que revela também o desafio proposto ao empreendedor social.

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Estávamos procurando na P&G uma solução que nos ajudasse a resolver o problema de reciclagem. Queríamos ter um programa que incluísse os catadores.

Olhamos no mercado e não tinha ninguém. Naquele momento, era muito difícil achar um fornecedor que fizesse do jeito que a gente queria e que tivesse especialização técnica.

Cheguei ao Guilherme, que tinha uma proposta muito interessante, mais customizada. Ele tinha vivência técnica em embalagens que era muito importante para a gente. Conhecia toda a cadeia e o problema. E ainda tinha visão da economia colaborativa. 

Guilherme apresentou um PowerPoint e, logo de cara, eu falei “ok”. Vi valor no que ele tinha dito. Mas lancei um desafio. Disse que ele teria que convencer o meu time na P&G de que o projeto era viável, de que poderia ser executado. Se ele fizesse isso, ganharia um cliente. 

E não deu outra. Guilherme tem muito carisma, sabe tratar bem as pessoas e acredita na economia circular. E o projeto dele é ótimo. Tão ótimo que o desenvolvimento foi muito interativo. Ele nos levou para visitar as cooperativas e passamos a entender o impacto de tudo o que ele estava falando.

Resolvemos dar o projeto para ele pela competência técnica e por esse impacto que a iniciativa causava.

Nós fizemos várias coisas, inclusive com clientes supermercadistas. Começamos a pensar em como fechar este ciclo: depois de reciclar, de como transformar em coisas úteis.

Ele trouxe expertise técnica, parceiros tecnológicos para a solução de reciclagem da resina e uma vontade grande de fazer acontecer. Eu falava para ele: “Você vai ser o rei do lixo”.

Aquilo teve um impacto socioambiental gigantesco, e a gente teve uma relação muito boa. Isso também o ajudou a conseguir novos clientes, mas foi totalmente por mérito, esforço e empreendedorismo dele.

Ele entregou resultados e abriu portas para outras empresas. O grande diferencial da solução dele foi envolver e treinar os catadores. Não tinha ninguém fazendo isso de maneira organizada.

Ele entendeu qual era a situação dos catadores e como eram esses lugares onde havia a separação [dos materiais coletados]. 

Parte do projeto tinha todo esse desenvolvimento dessas pessoas. Eles não são catadores por opção. É, provavelmente, o único trabalho que encontraram naquele momento. E o projeto do Guilherme trazia dignidade para eles.

O mais inovador foi a visão do Guilherme de que dava para juntar partes completamente diferentes e trazer a solução.

Hoje parece que isso já está no nosso dia a dia, mas naquele momento, ele estava muito à frente do tempo.

Ele acreditou que dava para fazer inclusão social. Trouxe de uma maneira formatada que uma empresa grande poderia comprar. Todo mundo da cadeia saía ganhando.

Ele propunha uma parceria, que ia da empresa até os catadores. Enxergava o valor humano e os ganhos ambientais. Isso era inovador, formatar uma visão social numa cadeia de logística reversa, com todos os atores ganhando.

Tirou ainda o intermediário, dando mais segurança a quem apostou nesse modelo. Esse trabalho da Boomera acrescenta um valor de marca para a corporação. É um jeito de resolver um problema e, ao mesmo tempo incluir pessoas na cadeia, o que a gente não seria capaz de fazer sozinho.

O fato de olhar o ciclo inteiro e juntar pessoas de níveis tão diversos também foi muito importante. Primeiro, começamos a conseguir dar valor para aquilo que estava sendo coletado. Mas, mais do que isso, o impacto atingia milhares de vidas. 

Estávamos conseguindo colocar no ciclo econômico pessoas que antes não inseridas. Isso fez e faz muita diferença para uma empresa que quer ser parte da comunidade. E a Boomera acelera esse processo de cuidado dentro das empresas.

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