Descrição de chapéu Dias Melhores

Bisneta de escravizada apoia o empreendedorismo negro

Plataforma impulsiona negócios dos 50% de brasileiros declarados negros

São Paulo

Marcado pela determinação, o povo Ashanti já dominou grande parte da África Ocidental. Na segunda metade do século 19, eles foram derrotados pelas tropas do Reino Unido, mas não sem antes oferecer uma forte resistência ao avanço britânico. Atualmente, concentram-se no território de Gana.

Um dos símbolos da tradição ashanti é o sankofa, pássaro que esboça um movimento curioso: voa para frente, com a cabeça voltada para trás. Essa figura mítica está entre as inspirações da paulistana Adriana Barbosa, 42, para levar adiante a Feira Preta, da qual foi fundadora, há 18 anos.

“Hoje, é um festival com muitas iniciativas que mostram a potência criativa da população negra. Reúne todas as linguagens artísticas”, afirma.

Ao longo dessas quase duas décadas, a Feira Preta se consolidou como um dos maiores eventos da cultura negra no país. Nesse período, recebeu cerca de 1.200 expositores e 900 artistas. Na edição do ano passado, na Praça das Artes, no centro de São Paulo, o festival atraiu mais de 50 mil pessoas. Neste ano, ocupará o Memorial da América Latina nos dias 7 e 8 de dezembro.

O evento evoluiu para a PretaHub, plataforma voltada a impulsionar o potencial dos mais de 50% de brasileiros autodeclarados pretos e pardos. 

Formada em gestão de eventos, Adriana trabalhou como coordenadora de investimento social-privado da Via Varejo. Como o sankofa, ela concilia os sinais do passado, do presente e do futuro. 

Curiosa e atenta, seu sucesso como empreendedora social se baseia, sobretudo, no aprendizado com as mulheres negras que comandaram sua família. É o caso da sua bisavó Maria Luísa, filha de uma mulher escravizada em Barretos, no interior de São Paulo.

Ótima cozinheira, a matriarca preparava coxinhas e outros quitutes para que os bisnetos vendessem pelas ruas de São Paulo. Conscientemente ou não, indicava para a menina Adriana o caminho do empreendedorismo.

“Embora fosse semianalfabeta, a minha bisavó tinha estratégias de comunicação e precificação. Sabia, por exemplo, onde colocar as faixas para atrair os compradores.”

Depois de trabalhar por mais de meio século como empregada doméstica, Naidê Luísa, sua avó e filha de Maria Luísa, teve participação crucial nas origens da Feira Preta.

Além de investir parte da sua aposentadoria no projeto, contribuiu em questões burocráticas. Dona Naidê também fornecia as refeições para a equipe nos primeiros anos do evento. O prato de maior sucesso era a feijoada. 

Para ela, hoje com 83 anos, a persistência e a teimosia acompanham as mulheres da família. Por toda a vida, dona Naidê tentou comprar sua casa. Atualmente, tem um pequeno apartamento em São Paulo, e outro no litoral.

No caso da Feira Preta, haja persistência! No início dos anos 2000, Adriana e a amiga Deise Moisés ganhavam dinheiro com a venda de roupas usadas. Montaram uma banca-brechó em um festa junina na Vila Madalena. O arraial foi vítima de um arrastão, que levou embora grande parte das mercadorias.

A cabeça quente não afugentou as boas ideias, pelo contrário. Ao voltar para casa naquele dia, elas decidiram apostar numa iniciativa própria, dedicada à cultura negra. Logo veio o nome, Feira Preta. “Não tem afro, não tem étnica, não tem negra, é preta. Sou preta! A gente fala de uma cultura preta”, diz Adriana, enfática. 

Após maratona burocrática, as amigas conseguiram realizar o primeiro evento na praça Benedito Calixto, em Pinheiros. Havia 40 expositores e shows de Paula Lima e Clube do Balanço. 

Parecia um início promissor. No entanto, depois da segunda edição, em 2003, moradores do entorno da praça enviaram abaixo-assinado para a sub-prefeitura pedindo a retirada do evento. Adriana não se conformou. Para ela, era uma demonstração de “racismo institucional”, o que a levou a mobilizar órgãos público e movimentos sociais.

Não adiantou, e a Feira Preta teve que deixar a Benedito Calixto. O estacionamento da Assembleia Legislativa, ao lado do parque Ibirapuera, abrigou a terceira edição.

O público aumentava, os problemas também. Uma chuva forte atrapalhou as vendas dos expositores e obrigou Adriana e amigos a promover um mutirão para limpar todo o espaço. “Foi um caos”, recorda-se a empreendedora social, sem perder o humor. Nesse momento, Deise Moisés deixou o negócio. 

As adversidades não impediram que a Feira Preta ganhasse visibilidade e começasse a se tornar referência entre públicos de diferentes idades. 

“Sou cria da Feira Preta, frequento desde os 12, 13 anos. Comprei lá minha primeira boneca preta”, diz Ana Paula Xongani, empresária de moda e influenciadora digital.

Mal havia saído da adolescência e Xongani passou para o outro lado do banca. Passou a vender no evento suas peças de design africano. “Participar da Feira Preta foi fundamental para o meu negócio. Entendi que havia um mercado carente e que nós tínhamos competência para ocupar esse espaço”, diz a empresária de 31 anos. 

Hoje saem de seu ateliê em Arthur Alvim, zona leste de São Paulo, roupas para figuras famosas, como a cantora Iza e o ator Lázaro Ramos.

A Feira Preta não parava de crescer. Ao completar uma década, recebeu mais de cem empreendedores no Centro de Exposições Imigrantes. Entre as atrações musicais, estavam Mano Brown e Criolo. 

Depois da ascensão, veio a queda. Aconteceu em 2016, e o tombo foi grande. Adriana decidiu deixar o Anhembi, que havia recebido o evento em 2015, para promovê-lo num pavilhão recém-inaugurado no bairro da Casa Verde. O público caiu substancialmente —a essa altura, havia venda de ingressos— e patrocínios foram cancelados. “Fiquei devendo para artistas, fornecedores de palco, empresas de segurança”, conta Adriana.

A derrocada financeira conduziu a Feira Preta a uma crise de identidade. Embora fosse graduada em gestão de eventos, a empresária percebeu que era preciso se aprimorar mais nos meandros do empreendedorismo social a fim de reinventar o negócio. 

Aproximou-se de aceleradoras de negócios de impacto social, como Artemísia, Quintessa e Endeavor, e passou a entender o seu negócio como corrente de criação, produção, distribuição e consumo.

Um importante prêmio em Nova York também contribuiu para que Adriana reerguesse a Feira Preta. Em setembro de 2017, ela foi escolhida entre os 51 afrodescendentes abaixo de 41 anos mais influentes do mundo pela Mipad (sigla da organização Most Influential People of African Descent).

Desde então, nasceram programas como o Afrohub, de aceleração para empreendedores negros, e o Afrolab, que promove a capacitação com foco em inventividade. “Criamos filhotes”, diz Adriana.

Filha de Adriana, bisneta de dona Naidê, Clara, 6, gosta de dizer que será empreendedora quando crescer. Quando lhe perguntam o que é empreender, Clara não titubeia: “É o que a mamãe faz”.

Preta Hub

Fundação
2002

Formato
Negócio de impacto social

Área de atuação
Economia e cultura negra
 

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