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Marcus Nakagawa

Negócio de impacto com responsabilidade socioambiental?

Marcus Nakagawa

Professor da ESPM e coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (Ceds), é idealizador e diretor da Abraps e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida

Este título ficou meio estranho, né? Já que, se estou trabalhando ou empreendendo em um negócio de impacto socioambiental, quer dizer que já tenho responsabilidade socioambiental, não é mesmo? E a resposta pode ser: talvez sim, talvez não.

Dependerá dos seus indicadores de responsabilidade social e ambiental, ou seja, como você está lidando com todos os outros públicos de relacionamento, como anda a sua governança, como andam os seus indicadores ambientais, outros pontos a tomar cuidado além do impacto socioambiental que o seu produto ou serviço está fazendo.

Sabemos que já é difícil ir atrás do impacto socioambiental do seu negócio, buscar os indicadores positivos, quantas pessoas estou beneficiando, quantas casas construí, quantas pessoas educamos, em quantas comunidades ou parte da natureza estou minimizando os impactos.

Geralmente, este empreendedor acaba focando muito nos serviços e produtos e os seus impactos. Ah, e também na sobrevivência financeira, certo? E os processos e relacionamento para chegar neste impacto às vezes são minimizados. Sim, também não dá para ficar criando processos perfeitos ou buscando os fornecedores mais sustentáveis do mundo, quando o negócio tem que “botar para fazer”.

Mas depois de testar alguns modelos, protótipos e projetos pilotos, precisa-se sempre melhorar essas questões de gestão socioambiental.

Os Indicadores do Instituto Ethos, por exemplo, estão completando 20 anos de existência e avaliações, fizeram 779 aplicações, realizadas por 643 empresas, só no ciclo entre 2018 e 2019.

Desde o seu nascimento, mais de 4.000 empresas usaram a ferramenta no Brasil. Também tive ótimas experiências nas empresas em que trabalhei com esta ferramenta, pois sempre ajudou na avaliação e na busca por melhorias mais responsavelmente sociais e inclusivas, ambientalmente corretas e com a governança mais forte.

Um bom exemplo para aqueles negócios de impacto que começam a escalar, ter mais funcionários e relacionamentos com inúmeros públicos é o foco do compliance e anticorrupção.

No ciclo 2018/2019 dos Indicadores Ethos, cerca de 94% das empresas tinham atividades ou programas de compliance para evitar riscos de fraude, corrupção, de ações socioambientais, entre outros.

Pesado, né? Como isso pode acontecer no empreendimento que nasceu para ser de impacto positivo? Pois é, as empresas são feitas de pessoas e precisamos desenvolver regras, acordos ou políticas formais para que todos sigam na mesma direção.

Às vezes pode ser sim questão de ética, mas em algumas ocasiões pode ser questão de interpretação da ação ou diferente moral e histórico das pessoas. A ideia não é burocratizar, mas sim deixar a gestão cada dia mais transparente, escrita, formal e que sejam discutidos os conceitos e regras para uma construção conjunta.

Outro exemplo é a gestão do fornecedor que, juntamente com a Sylmara Gonçalves Dias, escrevi um capítulo sobre a temática de cadeia de valor no livro "Negócios de Impacto Socioambiental no Brasil – como empreender, financiar e apoiar", que inclusive pode ser baixado gratuitamente em http://ice.org.br/livronisnobrasil/.

A ideia é que o negócio de impacto possa buscar outros negócios de impacto como fornecedores. Ou ainda, o seu negócio de impacto participar de uma cadeia de valor de uma grande empresa, fazendo com que só de escolher os fornecedores a organização já esteja gerando um pouco mais de impacto positivo para a sociedade e o planeta.

Mas o seu empreendimento também precisa escolher fornecedores que possam, no mínimo, não estar gerando impacto negativo, como uso de mão de obra ilegal ou não cumprindo as normas ambientais.

Fazer parcerias com outras empresas e negócios de impacto pode ser uma boa solução --o Sistema B tem uma lista das que são certificadas com estas questões. Assim, é possível saber pelos seus indicadores o que possuem de melhorias também.

Sabemos que são muitas atividades para gerenciar, principalmente quando estamos começando um negócio, mas a proposta é que o empreendedor fique muito atento a todos os relacionamentos que a empresa de impacto fará, entenda bem quem são seus stakeholders e deixe bem claro as suas políticas, ou seja, o seu jeito de operar.

Um negócio de impacto socioambiental precisa ter os indicadores básicos de responsabilidade socioambiental em dia, pois é muito estranho vender produtos e serviços com impacto positivo se sua cadeia de valor ou seus funcionários geram impacto negativo. Pense nisso.

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