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Vera Cordeiro

Pobreza não é normal

Vera Cordeiro

Fundadora e presidente do conselho de administração do Instituto Dara.

Uma pessoa com fome já é o bastante para nos indignarmos. No pré, durante ou no pós-pandemia não deve ser diferente.

Pobreza não é normal. A situação de pessoas que vivem de forma indigna é cada vez mais evidente. Não podemos mais conviver com este cenário em que estamos imersos.

Estatísticas globais apontam o aumento da pobreza extrema, afetando entre 9,1% e 9,4% da população do mundo neste ano, de acordo com o relatório Poverty and Shared Prosperity Report (Relatório sobre Pobreza e Prosperidade) do Banco Mundial. Isso quer dizer que pelo menos 708 milhões de pessoas no mundo vivem —ou sobrevivem— com menos de US$ 1,90 por dia, cerca de R$ 10.

Em agosto deste ano, 2,29% da população do Brasil viviam nessa condição, de acordo com um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid-19. E quando o recorte é da linha da pobreza, que calcula pessoas vivendo com menos de US$ 5,50 por dia (cerca de R$ 31), essa porcentagem sobe para 18% da população, mais de 38 milhões de pessoas.

Não, isso não é normal.

Quando fundei o Instituto Dara (antigo Saúde Criança Renascer) há quase 30 anos, percebi que a pobreza é multidimensional e que para enfrentá-la é preciso ter soluções intersetoriais e integradas.

Há três décadas, implementamos com famílias em vulnerabilidade a tecnologia social conhecida como Plano de Ação Familiar (PAF), com ações conjuntas nas áreas de saúde, de renda, de moradia, de educação e de cidadania. As famílias são acompanhadas por uma equipe de profissionais especializada e de voluntárias, que as ajudam a traçar metas nessas cinco áreas.

Em média, uma família leva dois anos para sair de uma situação de vulnerabilidade social para o exercício pleno de sua cidadania. Ao longo desse tempo, elas se tornam protagonistas de suas próprias vidas. E essa autonomia é sustentada no decorrer dos anos. Uma pesquisa da Universidade de Georgetown provou que, de três a cinco anos após a alta de nosso programa, a renda familiar praticamente dobra e caem em 86% as reinternações hospitalares.

É o que aconteceu com a família de Cristiane Eusébio, 48, moradora de São Pedro da Aldeia (RJ) atendida atualmente pelo Instituto Dara.

Ela participa do Plano de Ação familiar desde 2019 e conseguiu multiplicar, na comunidade onde vive, algumas orientações que recebeu. Ela conta que, além do atendimento ter transformado a vida de sua família em diversas áreas, percebeu que outras mães de sua região também precisavam de apoio. Durante a pandemia, Cristiane criou uma rede local de mães, que viviam em condições semelhantes à dela antes do programa, e foi capaz de encaminhar para o Cadastro Único várias famílias que precisavam receber o auxílio emergencial.

Para combater a pobreza, aprendemos que precisamos de ações estruturantes. Acabar com a fome é um marco zero, um ponto de partida. Porém, não é o suficiente. E para dar um passo além, precisamos prover quem vive em pobreza extrema de conhecimento, de oportunidades, de acesso a seus direitos humanos fundamentais, sempre ouvindo a quem servimos.

Nós normalizamos não só a pobreza, mas também a gritante diferença entre as diversas classes sociais, formando um tecido social esgarçado que gera insegurança e baixa qualidade de vida. Essa sociedade civil desigual é um problema nosso. Precisamos nos conscientizar que todos somos agentes de mudança.

Como médica e fundadora do Instituto Dara, percebi que o ato médico, dentro dos hospitais públicos, muitas vezes não se completa, pois não levamos em conta os determinantes sociais do adoecer.

Você também pode contribuir com essa transformação. Pobreza estrutural tem solução e nós sabemos como atuar, assim como outras organizações sérias que combatem a pobreza.

Acredito que chegou a hora de um levante da sociedade civil, estamos prontos.

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