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'Prefeito' de Paraisópolis empodera moradores e vira exemplo mundial

Gestão de crise de 'Comitê das Favelas - Presidente de Rua' na segunda maior favela de São Paulo é replicada em 14 estados

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Gilson Rodrigues, Flávia Rodrigues, Givanildo Pereira, Igor Alexsander e Eduardo Castro são finalistas do Empreendedor Social do Ano com a iniciativa Comitê das Favelas - Presidente de Rua, na categoria Mitigação da Covid-19 Renato Stockler

São Paulo

Comitê das Favelas

  • Organização União dos Moradores de Paraisópolis
  • Empreendedores Gilson da Cruz Rodrigues, Flávia Campos Rodrigues, Eduardo Castro, Givanildo Pereira e Igor Alexsander Gonçalves
  • Site https://paraisopolis.org/

A ambulância carregando uma senhora pede passagem pela rua estreita com chão de terra batida. O homem faz sinal para o carro do lado esperar. Outro ajuda com as manobras. A criança segura o passo na calçada até que a ambulância suma no alto da rua.

Apesar de corriqueira nos últimos meses, a cena é inédita em Paraisópolis, onde o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) não chega.

É ali na rua Itamotinga que Gilson Rodrigues montou o coração da iniciativa que protegeu a segunda maior favela de São Paulo de sucumbir ao coronavírus. “O medo de morrer nos mobilizou para salvar vidas”, diz ele.

Gilson foi buscar registros de como a população se articulou em 1918 para enfrentar a gripe espanhola. Encontrou experiências de grupos. “Percebi que a melhor maneira de organizar a comunidade era montando comitês, trazendo a responsabilidade para o morador e liderando nossa própria política pública”, diz.

Diante da ausência de ações em Paraisópolis, onde 100 mil paulistanos lidam diariamente com falta de água em casas insalubres, Gilson deixou o medo de lado.

Foram 32 dias para organizar a favela contra o vírus. Na primeira reunião, em 19 de março, ele se animou com os vinte voluntários que apareceram. Essas pessoas cuidariam, cada uma, de 50 casas. As tarefas principais seriam monitorar casos suspeitos da doença e entregar cestas básicas e kits de higiene de porta em porta.

Poucos dias depois, eram 658 voluntários, 85% mulheres, batizados de presidentes de rua. “As mulheres são protagonistas de Paraisópolis. Além de cuidar de suas famílias, cuidam das famílias dos outros”, conta Gilson emocionado.

Nascido em Itambé, na Bahia, o “filho da Muda” tem outros 13 irmãos, dos quais conheceu sete. O menino passou por várias famílias, oscilando entre a criação rígida e a rejeição. Ouvia que seu destino era ser bandido porque cresceu na favela sem pai.

Aos 36 anos, Gilson é presidente da União dos Moradores e do Comércio local e coordenador nacional do G10 das Favelas, bloco de líderes de comunidades Brasil afora. E é considerado o prefeito de Paraisópolis.

Enquanto caminha pelo pavilhão, Gilson recebe pedido de ajuda de uma mulher. Ela balança um documento em mãos. Duas meninas vêm correndo ao seu encontro. “Eu te falei que sou padrinho de 68 crianças?”

Com 12 medidas de combate ao coronavírus desenhadas pela equipe, em abril começou a busca por dinheiro para operacionalizar tudo. Daí veio a surpresa: empresas já tinham destinado seus recursos para ações emergenciais naquele período. “Contratamos três ambulâncias sem ter um centavo. Eram R$ 150 mil", lembra Gilson.

Foram as doações de oito mil pessoas que ergueram a iniciativa Comitê das Favelas.

Com quase cinco milhões de reais, a ação mobilizou, além dos presidentes de rua e das ambulâncias e profissionais de saúde contratados em tempo integral em Paraisópolis, treinamento de 240 socorristas, produção de um milhão de marmitas, distribuição de 80 mil kits de higiene e cestas básicas e 11 mil cartões para compras que mantiveram o comércio local.

Com o Linkedin das Favelas, trabalhadores foram empregados em serviços essenciais e 1.032 diaristas foram “adotadas” durante a pandemia.

Para garantir o isolamento de pessoas com sintomas leves da doença, Gilson transformou duas escolas estaduais em casas de acolhimento por onde passaram mais de 500 moradores. As benfeitorias ficaram de legado para os estudantes no retorno às aulas.

“Os governantes sequer reconheceram o trabalho que deveria ter sido feito por eles”, lamenta Gilson. Em abril, ele e os presidentes de rua foram até o Palácio dos Bandeirantes pedir água para Paraisópolis. “Fomos com macacão, luvas, face shield e máscara. E não fomos recebidos, fomos tratados como marginais.”

Ao lado da movimentada sala com “Gilson Rodrigues” estampado na porta, ficam a cozinha que sedia o projeto Mãos de Maria, o ateliê de costura de máscaras e o espaço AgroFavela-ReFazenda, horta comunitária com 60 espécies de hortaliças e frutas.

Do outro lado, homens e mulheres se enfileiram para receb er uma das 5.000 marmitas que têm sido distribuídas por dia. No auge da pandemia, a iniciativa chegou a oferecer 10 mil quentinhas.

Em agosto, as doações foram diminuindo. “Não tínhamos como pagar as ambulâncias e resolvemos dispensá-las”, diz. Mas os profissionais não deixaram o local. Trabalharam voluntariamente até que Gilson conseguisse recursos. Hoje duas ambulâncias atendem Paraisópolis ao custo de R$ 54 mil reais. “O Samu continua não vindo”.

Em outubro, só seis pessoas contribuíram e os recursos acabaram. Pouco antes, a associação perdeu sua vice-presidente, Josefa Campos, por insuficiência respiratória. A situação mexeu com o emocional de Gilson. Pai de Vinícius, 15, e de Eduardo, 9, ele havia se isolado dos meninos durante três meses para tocar a operação. Estava exausto.

“Falavam que o Brasil seria diferente, mais solidário. Mas acabou. Olha como está a fila neste momento”, diz. Ele toma um gole do café com leite que dona Zuleide, paraibana, trouxe da cozinha. “Será que foi tudo em vão?”, pergunta com os olhos marejados.

Em pesquisa do Instituto Pólis, a taxa de mortalidade por Covid-19 em Paraisópolis era, em 18 de maio, de 21,7 por 100 mil habitantes, quase metade da taxa média da cidade de São Paulo, que era de 56,2.

A metodologia dos presidentes de rua foi replicada em 14 estados pelo Brasil, chegando a mais de 300 territórios vulneráveis. A gestão de crise feita em Paraisópolis é citada como exemplo em jornais mundo afora.

Para aguentar os mais de 250 dias de pressão e as 6.000 mensagens por dia no celular, Gilson conta com amigos. “Eu me apaixono todos os dias pelas pessoas em Paraisópolis. Esse é meu problema”, conta rindo. Ele também medita e é espiritualista. “Mas tem dia que chego bravo. Nossa equipe é muito jovem, tem que dar uma agitada”.

Com 22 anos, Flávia Rodrigues coordena os presidentes de rua e os socorristas. Nos meses mais críticos da pandemia, trabalhou de domingo a domingo, criando estratégias para garantir a entrega das cestas e a organização dos socorristas, que aliviavam a demanda por ambulâncias.

A presidente da Associação de Mulheres de Paraisópolis enxerga em Gilson uma inspiração. “Quando perdia a noção do tempo, ele pedia pra gente respirar que ia dar certo.” Flávia, que tinha o sonho de ser jornalista, quer estudar políticas públicas. Igor Alexsander (26), Eduardo Castro (27) e Givanildo Pereira (21) também tocaram o Comitê das Favelas.

A estrutura montada ficará como legado para a favela. Com o projeto Nova Paraisópolis, Gilson quer seguir o trabalho de apoio sanitário com um eixo econômico. “Precisamos pensar na crise que está por vir. Nós não vamos parar e precisamos de ajuda.”

Perto do meio-dia, a fila começa a andar. As quentinhas vão sendo distribuídas ao som de “Mourão”. A composição de César Guerra-Peixe, que mescla instrumentos e ritmos nordestinos com músicas eruditas, é ensaiada pelo coral de crianças no pavilhão.

Ela se mistura à batida do funk que vem do alto do morro e que logo traz à memória a morte dos nove adolescentes no Baile da Dz7 em dezembro de 2019.

Um ano depois, Paraisópolis e Gilson Rodrigues são protagonistas de uma história que salvou vidas.

*

Comitê das Favelas

  • 100 mil pessoas impactadas
  • R$ 4.479.705,73 em recursos mobilizados
  • 658 presidentes de rua voluntários
  • 1 milhão de refeições distribuídas
  • 100 mil kits de higiene
  • 11 mil cartões auxílio de R$ 200
  • 520 leitos para isolamento

Vote e/ou doe para esta iniciativa na Escolha do Leitor até 30 de abril em folha.com/escolhadoleitor2021.​

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