Rede solidária recupera equipamentos vitais em casos graves de Covid-19

Iniciativa + Manutenção de Respiradores, do Senai, articula 700 voluntários em 40 pontos de conserto de ventiladores parados em 330 municípios do país

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Rafael Lucchesi, finalista na cateogia Mitigação da Covid-19, do Empreendedor Social do Ano 2020, com iniciativa + Manutenção de Respiradores Renato Stockler

Maysa Provedello
São Paulo

+ Manutenção de Respiradores

  • Organização Senai
  • Intraempreendedor Rafael Lucchesi
  • Site https://senai.br/respiradores

Ao visitar o polo de manutenção de respiradores em Campo Grande (MS), após 21 dias entubado usando o equipamento, Edgar das Neves Pereira reconheceu o papel da rede solidária de consertos de ventiladores pulmonares na sua recuperação.

“O trabalho de vocês é tão importante quanto o da equipe médica”, disse o paciente, sobre a ação de voluntários que deixaram seus empregos temporariamente para se dedicar ao reparo de equipamentos essenciais para salvar vidas durante a pandemia.

O paciente agradecido e os profissionais engajados são exemplos do impacto e do espírito que moveram engenheiros e técnicos. Um trabalho diuturno, muitas vezes longe de casa, para o sucesso da iniciativa + Manutenção de Respiradores.

A ação liderada por Rafael Lucchesi, diretor-geral do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), recuperou 2.400 equipamentos em momento crítico da pandemia no Brasil.

Em final de fevereiro, o economista convocou a equipe para pensar em como ajudar a suprir déficit estimado de 25 mil respiradores no país. A carência aterrorizava dirigentes mundiais, gestores hospitalares e pacientes e seus familiares em todo o planeta, gerando batalhas comerciais pelo insumos produzidos quase na totalidade na China.

“Embora não fôssemos diretamente ligados ao setor de saúde, tínhamos outras competências que poderiam ser úteis”, conta Lucchesi.

Após refletir sobre quais estratégias teriam “impacto positivo, de forma rápida e eficiente”, foi dada a largada à operação que representou ao menos 24 mil vidas salvas.

Aos 55 anos, pai de uma jovem de 22 e com muito medo do que se anunciava em mortes pela Covid-19, o professor universitário pôde exercer sua paixão por educação e a busca por inovação. Em uma semana, o Senai criou protocolos e um curso a distância para orientar na manutenção de respiradores.

“Trabalhamos com delegação de tarefas e frentes paralelas, com tomadas de decisão rápidas”, explica o intraempreendedor. Foram centenas de reuniões virtuais. Segundo Lucchesi, o entusiasmo e a urgência que permearam o trabalho foram ainda mais fortes neste período, diante da perda de pessoas próximas para a Covid-19.

Havia uma série de obstáculos: da necessidade de medidas rápidas para impacto a curto prazo à inviabilidade de compras públicas. Era preciso, ainda, garantir segurança jurídica aos 700 técnicos voluntários e parceiros.

“Entramos de cabeça no desenho de um projeto que viabilizasse a manutenção de grande parte das 3.600 máquinas paradas no país.” O desafio era gigante. “Não havia uma central que nos dissesse onde estavam os respiradores danificados e muito menos como consertá-los.”

A primeira frente era capacitar técnicos voluntários. Ao mesmo tempo, era preciso engajar empresas com conhecimentos sofisticados de engenharia e logística. Foi primordial a aproximação do setor público (ministérios da Saúde, Defesa, Economia, estados e municípios), para auxiliar no levantamento dos equipamentos danificados e na validação das práticas a serem adotadas.

As primeiras adesões foram das montadoras, sob a coordenação da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), com a disponibilização de engenheiros voluntários e o custeio de peças.

Carlos Sakuramoto, gerente de inovação da General Motors e um dos líderes da iniciativa no setor automotivo, avalia que a rede formada em tão pouco tempo foi capaz de atingir um patamar de qualidade técnica e agilidade jamais imaginado.

“Eram muitas reuniões online, um processo de ir fazendo e aprendendo, com muita vibração conforme os sucessos iam sendo alcançados.”

A cada aparelho pronto entregue era uma comemoração. “Seria um sonho se essa mobilização continuasse. Nossa retomada econômica seria infinitamente melhor.”

O que começou com um ponto inicial de manutenção, que serviu para levantar dúvidas e ajudar na documentação da metodologia, chegou a 40 unidades para onde eram enviados os equipamentos danificados.

Ao todo, 28 instituições nacionais fizeram parte da iniciativa, sendo que, indiretamente, pelos menos outras 200 regionais aderiram ao processo de logística e conserto dos respiradores.

De acordo com Lucchesi, foram investidos, com recursos do Senai e das empresas e associações, cerca de R$ 10 milhões na iniciativa que recuperou máquinas provenientes de 330 municípios de 24 estados e Distrito Federal.

Se os equipamentos fossem comprados a um preço mínimo, custariam R$ 150 milhões. Ao calcular a quantidade de vidas salvas e o empenho de cada engenheiro, o economista destaca os resultados alcançados por um time de primeira linha.

“Quando se junta capacidade técnica, educação e solidariedade com propósito, não há investimento financeiro que alcance o que se é capaz de desenvolver com uma equipe motivada”, diz.

Em momento de inflexão para a humanidade, + Manutenção de Respiradores prova, diz Lucchesi, que “uma causa justa mobiliza toda a sociedade e uma missão clara é capaz de engajar empresas, poder público e voluntários”.

*

+ Manutenção de Respiradores

  • 24 mil pessoas impactadas
  • R$ 10 milhões em recursos mobilizados
  • 2.398 ventiladores consertados e entregues em mais de 330 municípios
  • R$ 150 milhões foi a economia proporcionada aos cofres públicos com a reutilização de equipamentos que evitaram a compra de novos aparelhos, que custam em média R$ 60 mil a unidade
  • 40 pontos de manutenção pelo Brasil, engajando mais de 28 instituições e empresas em âmbito nacional
  • 700 voluntários

Vote e/ou doe para esta iniciativa na Escolha do Leitor até 30 de abril em folha.com/escolhadoleitor2021. ​

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