Startup aposta em SMS contra evasão e engaja alunos da rede pública

Eduq+, tecnologia acessível e barata, criada pela Movva, melhora indicadores educacionais e ganha escala durante a pandemia

Guilherme Lichand, da Movva, que lançou o programa Eduq+, é finalista do Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19 na categoria Legado Pós-Pandemia Renato Stockler

São Paulo

Eduq+

  • Organização Movva
  • Empreendedores Guilherme Lichand, Rafael Zoellner Vivolo e Marcos Felipe Lopes
  • Site https://movva.tech

“O ensino médio é um passo importante na sua trajetória rumo aos seus sonhos! Mesmo com todo aperreio, a pandemia não vai afastar você de conquistá-los.”

A mensagem enviada por SMS a alunos da rede pública de estados como Goiás e São Paulo visa desestimular a evasão em tempos de escolas fechadas e aulas remotas sem perspectivas de retorno ao ensino presencial.

Os nudgebots, assistentes virtuais que reforçam hábitos positivos, são oferecidos pelo Eduq+, serviço criado pela Movva, negócio de impacto social que utiliza inteligência artificial aplicada à economia comportamental para melhorar índices educacionais.

Em parceria com secretarias de Educação e financiadores, como Fundação Lemann e BID, a startup disparou mensagens de incentivo e perguntas para entender se os alunos acompanham as atividades ou se estão desmotivados frente à mudança forçada para ensino à distância.

De início, o fechamento das escolas levantou incertezas sobre o futuro da Eduq+, mas o efeito foi positivo. Se ano passado havia por volta de 150 mil alunos registrados na plataforma, o número saltou para 1,8 milhão em 2020.

“Como já tínhamos construído uma base de evidência clara de que éramos bons em reduzir a evasão com a Eduq+, começou a aparecer uma demanda muito alta”, explica Guilherme Lichand, 34, fundador da Movva, ao lado do colega da Fundação Getúlio Vargas Marcos Lopes, 41, e um amigo de infância, o publicitário Rafael Zoellner, 38.

Com mensagens adaptadas ao contexto de pandemia, em um mês, o disparo duas vezes por semana conseguiu reduzir em mais de 70% a falta de participação em atividades remotas de alunos de ensino médio de período integral em Goiás.

“Foi um presente que chegou na hora certa”, diz Fátima Gavioli, secretária da Educação do estado. Com as mensagens, conta, pais que antes não sabiam que seus filhos não estavam participando das aulas começaram a se envolver mais ativamente.

Além disso, Gavioli avalia que as mensagens deixam os alunos motivados por que eles vêem todo um cuidado para com eles. “Conseguimos praticamente zerar a evasão. Agora, estou lutando e tentando implantar para o Enem e fazer uma contagem regressiva para o exame.”

Para Lichand, mesmo com o fim do isolamento, o ensino híbrido deve ganhar mais espaço. “Isso significa maior uso de tecnologia e como precisa de engajamento, nosso trabalho continua sendo necessário”, diz o economista.

Toda a comunicação é feita por SMS ou ligação de voz, explica Zoellner, uma vez que parte dos alunos de escolas públicas nem sempre têm acesso à internet. As mensagens variam de acordo com o contexto e as características do estudante, como gênero, faixa escolar e localização.

Na Costa do Marfim, onde eles são financiados pela Fundação Jacobs, as mensagens falam mais sobre trabalho infantil e punição física, problemas ainda latentes. Lá, a Eduq+ cortou em um terço a repetência no segundo ciclo do ensino fundamental, na comparação com alunos de fora do projeto.

Para garantir retorno, seja ele positivo seja negativo, pais e filhos são incentivados a compartilhar experiências no fim de cada ciclo de trocas. “Produzimos múltiplas variações da mesma mensagem e testamos”, explica Lichand.

Os números da Pnad Contínua de Educação 2019, pesquisa anual do IBGE em todo o país, mostram que 10,1 milhões de jovens de 14 a 29 anos não frequentam a escola nem concluíram o ensino médio no Brasil.

Com a pandemia, uma das principais preocupações na rede pública de ensino é que esse número piore. “Nosso maior legado é conseguimos manter boas perspectivas de retorno dos alunos às aulas presenciais”, diz Zoellner.

Lichand sempre quis atuar com políticas públicas e sonhava em impactar a vida das pessoas. Chegou a trabalhar no Banco Mundial, em Brasília, mas se sentia frustrado por não “conseguir fazer a diferença que queria”.

Foi fazer doutorado em Harvard e, durante as suas férias, em 2012, conseguiu emprego temporário no Rio Grande do Norte. O estado tinha um programa que distribuía leite gratuito para 150 mil famílias, mas havia grandes falhas e não era barato. Sua missão seria documentar o impacto do programa e mostrar sua ineficiência. “Foi quando eu descobri que coletar dados no Brasil era muito caro”, lembra Lichand.

Ele sabia que, em contextos difíceis como a guerra, a tecnologia podia ser uma ferramenta para coletar dados rapidamente. Nesse sentido, o Brasil tem uma característica favorável: a maioria das pessoas tem celular —mesmo no sertão do Ceará, há oito anos, entre a classe E.

A coleta de dados mostrou que a iniciativa podia ser eficaz e positiva se administrada localmente. Em vez de excluí-lo, o governo universalizou o modelo de gestão.

Nascia a MGov, consultoria que desenvolvia projetos de impacto social para o poder público usando soluções por meio do celular. Em 2019, veio a decisão de rebatizar a empreitada para marcar sua transição para um negócio social.

Desde então, todos os esforços da equipe estão na Eduq+. “Quando você pensa em manter crianças na escola, não é apenas evasão, é também garantir oportunidades melhores. A criança que evade é de uma família mais vulnerável, tem que trabalhar para ajudar.”

Zoellner endossa a visão do sócio. “As pessoas não nascem com as mesmas oportunidades, não é só meritocracia”, afirma. “Estimular a crescente desse movimento [retorno às aulas] é muito importante para a ascensão social e a redução das desigualdades no Brasil.”

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Eduq+

  • R$ 402 mil em recursos mobilizados
  • 1,59 milhão de pessoas impactadas
  • 75% de redução de evasão no ensino a distância com envio de 2 SMS semanais





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