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Avanço da fome e da desigualdade revela urgência da noção de coletivo

Relatório destaca que número de pessoas em situação de fome vem aumentando desde 2014

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Luciana Quintão

Economista, é fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos

Infelizmente estamos muito distantes do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 2 da Agenda 2030, referente à fome zero. Divulgado no dia 13 de julho, o principal levantamento internacional sobre a fome no mundo revela, mais uma vez, dados assustadores.

Produzido pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), ONU e Organização Mundial da Saúde, o relatório “O Estado da Insegurança Alimentar e Nutrição no Mundo” destaca que o número de pessoas em situação de fome vem aumentando desde 2014.

No total, mais de 2,3 bilhões de pessoas —30% da população mundial— não tiveram acesso à alimentação adequada em 2020. E, pior, a projeção é de que a insegurança alimentar, termo utilizado pela FAO para indicar quando uma pessoa não tem acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade suficientes para sua sobrevivência, deve aumentar nos próximos anos entre grupos mais vulneráveis da população, em razão do impacto socioeconômico da Covid-19.

No Brasil, segundo o relatório, a insegurança alimentar grave –quando as pessoas passam até mais de um dia sem comer– quase dobrou: entre 2014 e 2016, eram 3,9 milhões de brasileiros; entre 2018 e 2020, atingiu 7,5 milhões.

Considerando o número de brasileiros que sofrem insegurança alimentar moderada, ou seja, enfrentam dificuldades para obter alimentos e são forçados a reduzir quantidade e qualidade, o total passou de 37,5 milhões de pessoas, em 2014, para 49,6 milhões em 2020.

Ainda segundo o relatório, um décimo da população mundial está subnutrido, o que corresponde a 811 milhões de pessoas.

No Brasil, o total de subnutridos em 2014 era de 12,1 milhões. Hoje, deve ser muito mais. O total não está disponível porque o Brasil foi o único país da América do Sul que não forneceu dados oficiais para os organizadores do relatório.

Os dados revelam um momento crítico para o mundo, mas não apenas no que se refere à fome. A pobreza aumenta, a desigualdade também e há retrocessos profundos na educação e na saúde.

A pandemia agravou a desigualdade social e compromete os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030. Mas é importante lembrar que a questão é estrutural, muito anterior à Covid-19.

Há 23 anos venho combatendo a fome e o desperdício de alimentos no país com a ONG Banco de Alimentos. Cada vez mais tenho a certeza de que a saída só será possível à medida que as pessoas mudem seus comportamentos e assumam o papel de cidadãos na sociedade, praticando a inteligência social.

Descrevo o conceito em meu livro "Inteligência Social - A Perspectiva de um Mundo sem Fome(s)". É urgente que cada um coloque em prática a inteligência coletiva, de forma presente e atuante, tendo olhar crítico e consciência de seu papel dentro da sociedade. A verdadeira transformação só virá quando a maioria dos cidadãos se conscientizar da importância de sua atuação em prol do coletivo.

Na ONG Banco de Alimentos temos estruturado, incansavelmente, ações que possam levar consciência à sociedade para o combate do que chamo de as “várias fomes”. Não é fome só de comida, mas de justiça, transporte, moradia, educação e saúde.

É urgente olhar para o coletivo e entrar em ação: cada um em sua área de atuação, dentro de suas possibilidades, com o coração aberto para transformar e construir um mundo melhor.

Só assim, de forma articulada e em rede, conseguiremos nos aproximar de uma sociedade mais humana e sustentável. Só assim conseguiremos nos aproximar da sonhada Agenda 2030.

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