Patrocínio da indústria farmacêutica faz Fifa parecer anjo, diz médico

Cardiologista critica fato de que decisões médicas sejam baseadas em estudos patrocinados

Cláudia Collucci
São Paulo

Um dos maiores críticos da influência comercial da indústria farmacêutica na prática médica, o cardiologista Aseem Malhotra, 40, afirma que o impacto da corrupção nesse setor é devastador para os sistemas de saúde.

“A Sociedade Americana do Coração e a Sociedade Europeia de Cardiologia, que recebem enormes somas de patrocínio da indústria, fazem a Fifa [que teve dirigentes envolvidos em casos de corrupção] parecer um anjo”, diz ele, responsável pela implantação do movimento Choosing Wisely, contra procedimentos desnecessários, no Reino Unido.

O cardiologista Aseem Malhotra
O cardiologista Aseem Malhotra, um dos maiores críticos da influência comercial da indústria farmacêutica na prática médica e criador do Choosing Wisely - Divulgação

Consultor da Academy of Medical Royal Colleges, ele também lidera um movimento para reduzir o açúcar da dieta, ingrediente que ele considera inimigo número da saúde pública e que precisa ser regulado tal como o tabaco.

Autor do best-seller “A dieta de Pioppi” (no Brasil, a obra se chama “21 dias”, da editora Astral Cultural), que leva o nome de uma cidade italiana de população extremamente longeva, Malhora estará no Brasil no próximo dia 15 onde palestrará em congresso internacional de alimentação.

A boa saúde raramente sai de um frasco de remédio. Por que então a prática médica ainda está tão focada na prescrição de medicamentos?
Nosso modelo de assistência e treinamento médicos é de doença, não de prevenção. Uma população insalubre é economicamente improdutiva, e uma população que toma muitas pílulas é um fator de risco para a morte prematura, já que erros de medicação são a terceira causa mais comum de morte após doença cardíaca e câncer. A medicina moderna é hoje uma grande ameaça à saúde pública.

Qual a solução? Medicina baseada em evidência?
Sim, mas o problema é que, na prática, não estamos aderindo à medicina baseada em evidências porque a maioria dos médicos não consegue defini-la e, em segundo lugar, uma falha do sistema impede que os médicos realmente a pratiquem.

A influência comercial criou uma epidemia de médicos mal informados e pacientes desinformados e prejudicados. Isso está enraizado no financiamento tendencioso da pesquisa, baseado no provável lucro e não em ser uma opção benéfica aos pacientes.

Hoje temos relatórios tendenciosos em revistas médicas, reportagens tendenciosas na mídia, conflitos de interesses comerciais e uma incapacidade dos médicos de entender e comunicar estatísticas de saúde. Em essência, estamos tomando decisões clínicas sobre informações tendenciosas. Isso não só nos leva a obter resultados ruins como também é antiético.

Até que ponto movimentos como o Choosing Wisely conseguem mudar condutas médicas?
O movimento ainda está na infância, mas há muitos exemplos de que, quando isso é respeitado, reduzem-se os danos do uso excessivo dos serviços de saúde. Em relação aos stents cardíacos para doença arterial coronariana estável, eles não previnem ataques cardíacos ou prolongam a vida, mas podem ajudar uma minoria de pacientes com sintomas limitantes de dor torácica, mesmo com a terapia medicamentosa.

Quando os pacientes foram informados [sobre a limitação dos stents], houve uma redução de 25% daqueles que desejavam realizar o procedimento. Se isso fosse extrapolado apenas nos Estados Unidos, haveria uma economia de US$ 864 milhões por ano. Há também uma redução do dano desnecessário, pois há um risco de 1% de que o procedimento cause ataque cardíaco, derrame ou morte.

Os médicos deveriam ser mais céticos em relação às pesquisas clínicas publicadas?
Por décadas os médicos aceitaram dados publicados como verdade absoluta, mas isso está mudando. Uma recente pesquisa no Reino Unido revelou que 80% dos médicos de família e dois terços do público não confiavam nos dados patrocinados pelas farmacêuticas.

Isso é irônico porque a maioria das decisões clínicas sobre prescrição de remédios são baseadas em pesquisas patrocinadas comercialmente.

O governo tem a responsabilidade de proteger os cidadãos das manipulações e excessos da indústria, mas o verdadeiro escândalo é que aqueles com responsabilidade para com os pacientes e integridade científica, como instituições acadêmicas, revistas médicas e médicos influentes, são coniventes com a indústria para obter ganhos financeiros.

A American Heart Association e a European Society of Cardiology, por exemplo, que recebem enormes somas de patrocínio da indústria, fazem a Fifa parecer um anjo.

Você diz que os sistemas de saúde enfrentam uma epidemia de médicos e pacientes mal informados. Como lutar contra isso?
Nossa maior arma é a transparência, e seu sucesso depende de tornar a injustiça contra os pacientes visível por meio da mídia.

Eu acredito que a maioria das pessoas é intrinsecamente boa e todos nós temos um senso de justiça. Ninguém acharia a situação atual aceitável se as pessoas realmente soubessem disso. 

Qual o impacto da corrupção na medicina? Você tem alguma informação sobre essa situação no Brasil? 
O impacto é devastador. Se tomarmos decisões clínicas a partir de informações tendenciosas, isso levará resultados ruins aos nossos pacientes. Combinado com um modelo médico que falha na adoção de medidas preventivas, aí está a raiz do motivo pelo qual muitos sistemas de saúde estão falhando em todo o mundo.

Quando falei recentemente no Parlamento Europeu, afirmei que a situação se tornou tão terrível que os médicos honestos não podem mais praticar a medicina honesta.

Conversando com amigos e colegas que trabalham como médicos no Brasil, entendo que a questão da influência comercial não é diferente da que ocorre nos EUA e na Europa. É um problema global.

Como melhorar a transparência na comunicação entre médico e paciente? 
É uma ótima pergunta. Deveria haver uma introdução obrigatória de habilidades de tomada de decisões compartilhadas para todos os estudantes de medicina e médicos, incluindo uma comunicação transparente de riscos. Sem isso não se pode aderir à prática baseada em evidências, que requer uma compreensão da evidência.

Ao mesmo tempo, é preciso uma campanha em todo o mundo para encorajar os pacientes a fazer as seguintes perguntas ao médico: Eu realmente preciso desse procedimento ou medicação? Quais são os riscos? O que acontece se eu não fizer nada? Existem opções mais simples ou seguras?

Em seu livro, a mensagem central é que as pessoas precisam parar de temer a gordura saturada e o colesterol. Mas especialmente os cardiologistas costumam dizer o contrário e prescrevem muita estatina. Por quê? 
Existem várias razões. Primeiramente, precisamos aceitar que a ciência, especialmente a ciência médica, evolui.

Na verdade, o pai do movimento baseado em evidências, o falecido professor David Sackett, disse que 50% do que você aprende na faculdade de medicina acabará sendo desatualizado ou completamente errado dentro de cinco anos de sua graduação. O problema é que ninguém pode lhe dizer qual metade, então você tem que aprender sozinho.

Quando se examina a totalidade da evidência em relação à gordura saturada, não há nenhum link entre o consumo dela e o desenvolvimento de doenças cardíacas em pessoas saudáveis ​​ou benefício na redução da gordura saturada daqueles que sofreram ataques cardíacos.

E em relação ao diabetes tipo 2, há uma sugestão de que a gordura saturada de laticínios, como iogurte e queijo, pode ser protetora. Recentemente, o maior estudo observacional global, Pure, publicado no Lancet, revelou que aqueles que consumiram a maior quantidade de gordura saturada tiveram uma mortalidade significativamente menor do que aqueles com o menor consumo.

Defendemos que a verdadeira causa subjacente das doenças cardíacas é a resistência à insulina e a inflamação crônica, que podem ser resolvidas por simples mudanças no estilo de vida.

O sr. elegeu o açúcar como inimigo público número um. Temos evidências suficientes para regular o açúcar como o tabaco?
Publiquei uma pesquisa sobre isso no BMJ em maio de 2013. Descobri que as nossas diretrizes estavam dizendo aos cidadãos europeus que consumissem 22 colheres de chá e meio de açúcar por dia como parte da dieta saudável. Depois de rever as evidências, a Organização Mundial de Saúde agora pede um limite máximo de não mais do que seis colheres de chá por dia.

No Reino Unido, fui creditado como o médico mais influente na solicitação de políticas de redução de açúcar, incluindo a introdução de um imposto sobre bebidas açucaradas. Agora o açúcar cumpre quatro critérios para a regulamentação: 1 - é inevitável, pois é adicionado a mais de 70% dos alimentos encontrados no supermercado; 2 - É tóxico quando consumido em excesso; 3 - Tem o potencial de abuso e 4 - tem um impacto negativo na sociedade.

A população brasileira está cada vez mais com excesso de peso. O que sr. recomendaria?
A coisa mais importante que um indivíduo pode fazer pelo seu peso e pela sua saúde é parar de temer a gordura e reduzir a ingestão de alimentos ultraprocessados, a maioria feita de açúcar e amido.

E o álcool? Existe um consumo seguro?
O consumo excessivo de álcool é, de fato, uma grande ameaça à saúde, aumentando o risco de hipertensão, obesidade e resistência à insulina. No entanto, consumir com moderação não é prejudicial e pode proteger contra o desenvolvimento de doenças cardíacas, especialmente o vinho tinto.

O consumo ideal não deve ser superior a 14 unidades por semana ou 7 a 10 copos por semana, melhor com as refeições e ainda melhor com uma dieta de estilo mediterrânico.

O sr. é entusiasta da dieta pobre em carboidratos e isso também não encontra muito apoio na medicina baseada em evidências. Ao mesmo tempo, é crítico em relação às estatinas e isso também é muito controverso. Não há certo exagero nessas duas posições?
Sou um dos maiores entusiastas e defensores da medicina baseada em evidências. Com base na totalidade das evidências, reduzir o consumo de carboidratos de alto índice glicêmico é a maneira mais eficaz de melhorar a glicemia e melhorar os fatores de risco cardiovascular. Qualquer um que diga que não há muito apoio para isso na medicina baseada em evidências está simplesmente errado e espalhando informações incorretas.

Uma revisão sistemática de um dos mais eminentes e respeitados especialistas em diabetes na Holanda e da Cochrane mostrando o impacto da baixa ingestão de carboidratos no tratamento do diabetes tipo 2 deve ser publicada em breve.

Espero que seja um gatilho para uma grande mudança nas orientações dietéticas. No que diz respeito às estatinas, não sou contra elas, mas sim contra a falta de transparência na prescrição.

Devemos dar aos pacientes uma escolha, dizendo-lhes os benefícios absolutos e potenciais danos para ajudá-los a tomar uma decisão informada, em consonância com os princípios da medicina baseada em evidências. 

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