Descrição de chapéu The New York Times

Nova droga contra alergia a amendoins mostra potencial para salvar vidas

Terapia com exposição controlada ao produto, contudo, não cura alergia e não deve ser tentada em casa

Roni Caryn Rabin
Nova York

Desde o dia em que um biscoito de manteiga de amendoim o fez se engasgar, tossir convulsivamente e desenvolver urticária, quando era criança, Carter Grodi vive sob ordens médicas de evitar amendoins. Nas festas da escola, ele levava seu bolo de casa, aprendeu a ler os rótulos de alimentos e chegou aos 15 anos de idade sem experimentar chocolates como Kit Kat, Twix ou Three Musketeers, todos os quais contêm traços de amendoim porque são fabricados em instalações nas quais a oleaginosa é processada.

Mas em 2017, quando Carter chegou aos 16 anos, ele pôde comer doces como esses à vontade, pela primeira vez, e não apresentou reação. Tinha acabado de participar de um teste clínico de um ano de duração para um tratamento de imunoterapia por via oral cujo objetivo era reduzir a sensibilidade de crianças aos alergênicos do amendoim ao expô-las gradualmente à proteína do amendoim ao longo de seis meses, começando por quantias ínfimas, medidas cuidadosamente, e depois elevando a dosagem de modo gradual, sob supervisão médica, à medida que o participante desenvolvia tolerância.

Produtos feitos com amendoim no balcão de uma cozinha
Produtos feitos com amendoim no balcão de uma cozinha - Charlotte Kesl/The New York Times

O objetivo do tratamento não é curar a alergia ou permitir que as crianças comam sanduíches de manteiga de amendoim, e sim reduzir o risco de uma exposição acidental a traços residuais, capazes de causar reação que representaria risco de morte para uma pessoa com alergia severa, e aliviar o medo e ansiedade que acompanham a alergia severa a amendoim.

Os resultados, anunciados no domingo em uma conferência do Colégio Americano de Alergia, Asma e Imunologia, em Seattle, podem levar à aprovação do que poderia ser a primeira medicação oral que atenua as reações de crianças portadoras de alergias severas a amendoim.

Depois de seis meses de tratamento e de seis meses de terapia de manutenção, dois terços das 372 crianças que receberam o tratamento eram capazes de ingerir 600 miligramas ou mais de proteína de amendoim —o equivalente a dois amendoins— sem desenvolver sintomas alérgicos. Em contraste, apenas 4% das 124 crianças que receberam um placebo foram capazes de consumir quantidade semelhante de amendoins sem reações.

O tratamento não funciona para todo mundo. Ainda que apenas 4,3% das crianças que receberam o tratamento ativo tenham experimentado efeitos colaterais classificados como severos, ante menos de 1% das crianças que receberam o placebo, 20% das crianças no grupo de tratamento ativo se retiraram do estudo, mais de metade delas por conta de eventos adversos.

Entre os pacientes que receberam o tratamento ativo, 14% receberam injeções de epinefrina, um medicamento usado em emergências alérgicas, e uma criança passou por uma anafilaxia e teve de receber três injeções de epinefrina. Em contraste, apenas 6,5% das crianças que receberam placebos tiveram de recorrer a epinefrina.

A demanda pelo novo medicamento deve ser alta e, ainda que ele seja feito de amendoim, os ativistas que trabalham em benefício dos portadores de alergias a amendoim já estão expressando preocupações quanto ao preço do tratamento e se os planos de saúde dos Estados Unidos cobrirão esse custo.

Cerca de 2% das crianças dos Estados Unidos são alérgicas a amendoins. Acredita-se que alergias a amendoins causem mais casos de anafilaxia, uma reação alérgica aguda que pode causar constrição das vias respiratórias, do que qualquer outra alergia a alimentos. Mortes são raras, e o número exato de casos não é conhecido. Alergias a amendoim não costumam desaparecer, e por isso os pacientes em geral precisam se manter vigilantes pelo resto da vida.

O teste, conduzido em modo duplo cego e com um grupo de controle cujos integrantes receberam placebos, envolvia um medicamento chamado AR101, desenvolvido pela Aimmune Therapeutics, e será publicado na quinta-feira pelo The New England Journal of Medicine.

A Aimmune Therapeutics planejou e patrocinou o teste clínico, que foi realizado em diversos centros médicos. Cinco dos 13 autores do estudo são empregados da companhia e os demais servem em seu conselho de consultoria científica, em posições remuneradas.

Especialistas que não participaram do teste afirmaram que o resultado foi superior às suas expectativas, e definiram os resultados como tendo "potencial de salvar vidas". Mas também acautelaram que o tratamento não cura alergias a amendoim e não deve ser tentado em modo caseiro. Eles enfatizaram que crianças que concluem o tratamento precisam continuar a seguir uma dieta que exclui o amendoim e podem precisar de terapia de manutenção, com pequenas doses de amendoim, talvez pelo resto de suas vidas.

"Não é a cura, mas é bom primeiro passo", disse James Baker Jr., vice-presidente de medicina da Food Allergy Research & Education (Fare), uma organização sem fins lucrativos cujo foco são as alergias a alimentos, apontando que os resultados superaram as expectativas. Até agora, ele disse, "não tínhamos coisa alguma, nada, para dar a essas pobres crianças a fim de impedir que sofram essas reações, e lhes dar uma perspectiva mais positiva quanto à vida. É maravilhoso que agora tenhamos alguma coisa".

"O fato de que as crianças participantes estivessem comendo o equivalente a um amendoim por dia significa que, caso comam um amendoim por acidente, não sofrerão uma reação que coloque suas vidas em risco", disse Baker.

Michael Perkin, epidemiologista clínico e consultor de alergia pediátrica na Universidade de Londres, autor de um editorial que acompanha o estudo, disse que o tratamento "não era um passeio", e que requeria grande disciplina. As crianças precisam repousar por duas horas depois de receber a dosagem diária, mas não podem dormir devido ao risco de uma reação.

Perkin disse que os efeitos colaterais em longo prazo de consumir alergênicos, para um portador de alergias severas, continuam desconhecidos. Mas definiu os resultados como "mais que empolgantes".

"Não se trata de uma cura como um antibiótico, que faz com que a doença se vá e desapareça de vez", ele disse. Mas "psicologicamente, o tratamento faz imensa diferença, porque permite que uma criança escape de viver com medo. Elas estarão habilitadas a comer amendoim em quantidade suficiente para que seus pais não precisem se preocupar caso uma filha beije alguém que comeu manteiga de amendoim. É difícil estimar a dimensão do alívio psicológico que isso representa".

Para crianças como Carter Grodi, aluno do terceiro ano na escola de segundo grau de Ocala, Flórida, que concluiu o tratamento um ano atrás e continua a ingerir uma pequena quantidade de amendoim a cada dia para manter uma modesta tolerância à presença da oleaginosa, o tratamento foi transformador, e facilitou que ele saia com amigos e finalize seus planos para o ensino superior.

"Posso ir para a faculdade, conhecer a garotada, me sentar no mesmo lugar em que outro garoto se sentou um dia antes sem ter de limpar a mesa, e não preciso me preocupar com o que meus amigos comem ao meu redor", ele disse. "Para mim, um amendoim era como uma arma, era como alguém ter uma arma apontada para minha cabeça, era como se o gatilho pudesse ser apertado a qualquer hora. Essa arma não existe mais agora."

Ele continua a evitar o consumo de amendoins ou produtos derivados, mas é capaz de tolerar traços não declarados de amendoim presentes em doces ou confeitos, por conta da contaminação ambiental de uma fábrica de alimentos ou cozinha. "Tenho essa proteção, esse escudo, para a quantidade que posso tolerar", ele disse, acrescentando que já não toma o remédio, mas come dois M&M de amendoim a cada dia.

O tratamento não se provou efetivo para o pequeno número de adultos que participaram do estudo.

O teste clínico, supostamente o maior de sua espécie até o momento, incluiu 551 pessoas, das quais 496 com idade entre os quatro e os 17 anos. Todos os participantes foram testados para determinar se tinham alergia a amendoins no começo do estudo, e todos experimentaram reações a pequenas quantidades da proteína do amendoim, equivalentes a um terço de amendoim ou menos. A maior parte dos participantes tinha um histórico de reações anafiláticas depois de consumir amendoins, e mais de metade deles eram portadores de asma e de outra alergia a alimentos. Os que tivessem sido hospitalizados por reação alérgica severa nos 60 dias anteriores ao teste foram excluídos do estudo, porém, da mesma forma que os participantes que apresentassem asma severa ou mal controlada.

O remédio é descrito como "um medicamento imunoterápico experimental biológico, baseado em amendoim". Seu princípio ativo é farinha de amendoim da qual a gordura foi removida, e que é medida cuidadosamente e acondicionada em cápsulas ou sachês de papel metalizado de fácil abertura e em doses variadas, para que o conteúdo possa ser misturado a alimentos não cozidos e consumido.

Inicialmente, os participantes receberam dose diária de três miligramas do medicamento, por duas semanas, antes de passarem a uma dose ligeiramente maior, com o objetivo de atingir no final do processo a dose máxima de 300 miligramas, equivalente a um amendoim. O tratamento se estende por seis meses, seguido por seis meses de terapia de manutenção com dose de 300 miligramas ao dia.

Depois da conclusão da fase de tratamento e da fase de manutenção, as crianças passavam por um desafio alimentar, a fim de determinar quanta proteína de amendoim eram capazes de tolerar. A maioria daqueles que completaram o tratamento era capaz de tolerar até 600 miligramas de proteína de amendoim, o equivalente a dois amendoins; metade dos participantes tinham capacidade de tolerar até mil miligramas de proteína de amendoim.

Quase todas as crianças registraram reações alérgicas adversas no curso do teste clínico de um ano de duração, quer estivessem no grupo de controle ou no grupo de tratamento ativo. Mas em termos gerais os pesquisadores se declararam satisfeitos com a baixa incidência de eventos adversos.

Apenas 4,3% das crianças do grupo de tratamento ativo sofreram reações alérgicas classificadas como severas, enquanto 59% tiveram reações adversas moderadas e 34,7% tiveram reações amenas. Entre as crianças que receberam o placebo, menos de 1% tiveram reações sérias, enquanto 44% mostraram reações adversas moderadas e 50% tiveram reações amenas. Dores gastrointestinais, vômito e náusea foram as reações mais comuns entre aqueles que receberam o tratamento ativo, seguidas por coceira, tosse e irritação na garganta.

A ideia da imunoterapia por via oral remonta a 1908, quando um médico britânico reportou sucesso ao dessensibilizar uma criança que tinha alergia a ovos ao lhe ministrar uma pequena porção de ovos a cada dia, disse Brian Vickery o principal autor do estudo e diretor científico da pesquisa. Vickery era empregado da Aimmune Therapeutics durante o período do teste, e agora é consultor da empresa e professor associado da escola de medicina da Universidade Emory e diretor de atendimento a crianças no Programa de Alergia Alimentar de Atlanta.

"Mas a maioria dos estudos a respeito foram pequenos ou apresentavam falhas, ou não dispunham de grupo de controle", ou seja, não envolviam um grupo de pacientes que recebiam um placebo no período do teste, para comparação, disse Vickery. "Esse teste é o estudo mais definitivo da eficiência do tratamento para os pacientes. Gerou as provas de maior qualidade até o momento sobre se a imunoterapia por via oral funciona e sobre seu grau de segurança."

Ainda que o tratamento mesmo possa causar reações alérgicas, os pacientes que o concluem ganham proteção contra exposição acidental ou inadvertida. "Você troca aquele risco incerto e imprevisível de ter uma reação acidental que escape ao controle por sintomas em geral de nível mais baixo, quase sempre amenos ou moderados, que são administráveis para a maioria dos pacientes", disse Vickery.

Daniel Adelman, vice-presidente de medicina da Aimmune e autor sênior do estudo, disse que a empresa planeja submeter um pedido de licenciamento à Food and Drug Administration (FDA), agência americana de fiscalização e regulamentação de alimentos e remédios, até o final do ano. O medicamento já foi designado como terapia promissora, e será revisado em ritmo de emergência e terá sua aprovação acelerada, para que possa estar no mercado pelo final de 2019, disse uma porta-voz.

Outra empresa, a DBV Technologies, já submeteu um pedido de licença à FDA para um produto chamado Viaskin Peanut, que também pretende tratar crianças com alergia a amendoins, com um composto imunoterápico aplicado por meio de um adesivo afixado à pele.

"É bem empolgante", disse Carolee Grodi, a mãe de Carter, sobre o novo tratamento, afirmando que ele chegou em boa hora para seu filho, que está se tornando mais independente. "Não é a erradicação da alergia, e sim só uma proteção contra exposição acidental, mas isso já é muito importante. As pessoas não percebem, mas há amendoins em todo lugar."
 

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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