Descrição de chapéu The New York Times

O que realmente funciona para 'otimizar' a criação de seu filho?

Muitas das coisas que fazemos não chegam a fortalecer os resultados futuros da criança

Emily Oster
Nova York | The New York Times

Alguma coisa que você faz como mãe ou pai faz diferença?

É uma pergunta que a maioria dos pais já deve ter se feito em momentos difíceis na criação de seus filhos —noites sem dormir, crianças com acessos de raiva, doenças e vômito, a insistência para que terminem a lição de casa.

Considerando como educar filhos é trabalhoso, a maioria de nós provavelmente quer acreditar que o que fazemos como pais faz uma diferença, sim, mas as evidências a esse respeito nem sempre são muito claras.

Podemos reunir evidências de muitos campos —psicologia, sociologia, economia—que sugerem que a atuação dos pais, especialmente na primeira infância, afeta o bom desenvolvimento de seus filhos.

Considere-se a questão das palavras. Dois pesquisadores (Betty Hart e Todd Risley) publicaram em 1995 uma obra hoje clássica, “Meaningful Differences in the Everyday Experience of Young American Children” (Diferenças significativas na experiência cotidiana das crianças americanas pequenas). Sua tese  é que crianças de famílias de renda mais baixa interagem menos com adultos e recebem menos estímulo deles. Elas chegam aos três anos tendo ouvido 30 milhões de palavras a menos. 

Tirando as palavras, entretanto, estudos revelam outras maneiras em que os investimentos em crianças parecem fazer uma diferença. Um fato que chama a atenção: ler em voz alta para crianças parece se traduzir em desempenho escolar futuro melhor das crianças.

Bebê assiste ao DVD "Baby Einstein" - Leonardo Wen/Folhapress

O economista ganhador do Nobel James Heckman, da Universidade de Chicago, compilou um conjunto de evidências que sugerem que grandes investimentos em crianças entre o nascimento e os três anos de idade são cruciais para os resultados que elas terão no longo prazo.

Assim, não surpreende que pais hipercompetitivos e muitas vezes economicamente privilegiados possam parecer obcecados em aprimorar seus bebês. Aleitamento materno para melhorar seu QI. A escolha da melhor configuração possível de creche, babá, pré-escola e trabalho dos pais para conseguir filhos bem comportados e geniais. Investimento nos DVDs Baby Einstein e um sistema de “Como ensinar seu bebê a ler”, para que seu filho venha a ser o mais inteligente no jardim de infância.

Há apenas um problema: parece que muitas das coisas que chamam a atenção nessas estratégias para “otimizar seu bebê” não chegam a fortalecer os resultados futuros da criança.

Não há evidências de que vídeos no estilo dos Baby Einstein possam ensinar as crianças a terem um vocabulário maior. Tocar música de Mozart para fetos ainda no útero tampouco encerra benefícios. E, quando se trata da discussão travada na alta classe média há décadas sobre as diferentes filosofias que regem as pré-escolas, a conclusão é que não há evidências de que o método Montessori funcione melhor que o método lúdico ou vice-versa.

Como entender esses contrastes? Por um lado, os primeiros anos de vida são fundamentais para o sucesso; por outro, o tipo de investimentos com os quais muitos de nós somos obcecados não fazem grande diferença?

A resposta é que tendemos a ignorar a importância do contexto mais amplo. As diferenças entre grupos demográficos que constatamos nos EUA —a desigualdade de resultados entre crianças de situação social pobre ou rica—são causadas por um conjunto de diferenças enormes de experiências.

 

As crianças de classe média ou média alta nos EUA não se beneficiam apenas de ouvir mais palavras, ter creche e pré-escola melhores ou vida familiar mais estável. Elas se beneficiam de todos esses fatores juntos, e mais. Os pais em situação econômica melhor gastam mais dinheiro com seus filhos, e essa disparidade vem aumentando com o tempo. Eles também fazem mais investimentos não monetários, como ler em voz alta a seus filhos, uma das poucas intervenções específicas que realmente parecem fazer uma diferença.

Existem muitas boas escolhas, e os pais deveriam de modo geral sentir-se à vontade em fazer as escolhas que funcionam melhor para eles. Desde que você esteja preocupado em conhecer diferentes filosofias para a pré-escola, qualquer uma que escolher provavelmente terá bons resultados.

Essa desconexão entre as discussões em que os pais se envolvem e os dados sobre resultados das crianças tem implicações para a sociedade. As políticas públicas nos EUA voltadas a ajudar famílias e crianças de baixa renda têm um impacto muito maior. Muitas famílias têm acesso limitado à assistência médica e são obrigadas a escolher entre, por exemplo, alimentação ou remédios. 

Apesar disso, muitas de nossas discussões sobre educação de filhos são movidas por preocupações que são essencialmente de elite. Qual é a melhor fórmula orgânica? Papinha feita em casa ou “desmame pelo método baby led weaning”? Amamentação por até dois anos? E, é claro, as filosofias da pré-escola. Essas preocupações estão na cabeça das pessoas e se refletem em discussões no Facebook, mas também ocupam a mídia noticiosa, pelo menos parte do tempo.

Houve a cobertura pelos jornais do fascínio com fórmula europeia, por exemplo. E quem pode esquecer a capa da revista Time sobre amamentação, indagando se você é “mamãe o suficiente” (sendo a resposta implícita “não”).

Esse tipo de escolha tem importância muito pequena, de um modo geral. Mas a atenção prestada a elas desvia nossa atenção de problemas que são mais fundamentais para as políticas públicas. O que fazemos no dia a dia na criação de nossos filhos talvez tenha menos importância do que pensamos, mas o que fazemos no contexto mais amplo para beneficiar as crianças de todo o país pode ter importância muito maior.

Tradução de Clara Allain

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