Descrição de chapéu The Washington Post

Cientistas encontram substância tóxica em cigarros eletrônicos com maconha

O produto é um óleo derivado da vitamina E que, se inalado, pode causar doenças pulmonares graves

Lena H. Sun
Washington | The Washington Post

As autoridades de saúde federais e estaduais dos Estados Unidos que estão investigando doenças pulmonares misteriosas ligadas ao uso de cigarros eletrônicos ("vaping") encontraram o mesmo produto químico em amostras de produtos de maconha utilizados por pessoas que adoeceram em diferentes partes do país, e que usaram marcas diferentes de produtos nas últimas semanas.

O produto é um óleo derivado da vitamina E. Investigadores da FDA (Food and Drug Administration), a agência americana de fiscalização e regulamentação de alimentos e remédios, encontraram o óleo em produtos de cannabis, em amostras fornecidas por pacientes que adoeceram em diversas regiões dos Estados Unidos. Representantes da FDA transmitiram a informação às autoridades estaduais de saúde em uma reunião por telefone esta semana, de acordo com diversas pessoas que participaram da conversa.

O mesmo produto químico foi encontrado em quase todas as amostras de cannabis fornecidas por pacientes que adoeceram em Nova York nas últimas semanas, informou uma porta-voz do departamento estadual de saúde.

Embora esse seja o primeiro elemento comum encontrado em amostras de todo o país, as autoridades de saúde dizem que é cedo demais para saber se é isso que está causando o problema.

A vitamina E é encontrada naturalmente em certos produtos, como o óleo de canola, azeite de oliva e amêndoas. O óleo derivado dela, conhecido como acetato de vitamina E, está disponível regularmente como suplemento nutricional e é usado em tratamentos de pele. Não há informações de que cause danos quando ingerido como suplemento vitamínico ou aplicado à pele. Seu nome soa inofensivo, dizem especialistas, mas a estrutura molecular do produto pode torná-lo nocivo quando inalado. As propriedades oleosas podem ser associadas ao tipo de sintomas respiratórios que muitos pacientes reportaram: tosse, falta de ar e dores no peito, disseram as autoridades de saúde.

"Sabíamos com base em testes anteriores em Nova York que acetato de vitamina E havia sido identificado, mas quando a FDA falou sobre seu plano geral de testes, essa foi a coisa mais notável que ouvimos", disse um funcionário da área de saúde que participou da conversa mas não estava autorizado a falar publicamente.

A FDA também disse às autoridades estaduais na quarta-feira que seus testes de laboratório não encontraram nada incomum nos produtos de nicotina recolhidos de pacientes doentes, de acordo com outra pessoa que participou da reunião.

A investigação foi especialmente desafiadora para as autoridades de saúde. "Não sabíamos o que estávamos procurando", disse um funcionário do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), que está liderando a investigação, na semana passada.

As autoridades estão tentando desenvolver uma definição coerente da doença e um sistema padronizado de coleta de informação dos estados. Diferentemente de certas doenças infecciosas, como o sarampo, que devem ser reportadas obrigatoriamente às autoridades federais, os estados não têm obrigação de reportar ao CDC casos de doenças relacionadas ao "vaping".

Os departamentos de saúde estaduais vêm reportando novos casos a cada semana. Até 27 de agosto, havia 215 possíveis casos, reportados por 25 estados. Novas informações sobre doenças pulmonares estão sendo investigadas, de acordo com representantes do CDC.

Na quarta-feira, as autoridades de saúde do Oregon informaram que um adulto de meia-idade que morreu na metade de julho de uma doença respiratória severa havia usado um cigarro eletrônico contendo óleo de maconha comprado em um estabelecimento que vende o produto legalmente. É a segunda morte relacionada ao "vaping" reportada no país e a primeira a ser relacionada a um produto comprado em loja. As autoridades do Illinois reportaram a primeira das mortes, na semana passada. Não especificaram que tipo de produto foi usado, naquele caso.

As autoridades federais e estaduais disseram que estão se concentrando no papel dos contaminantes ou de substâncias falsificadas como causa provável das doenças pulmonares relacionadas ao "vaping". Muitos pacientes informaram às autoridades de saúde que compraram produtos de maconha nas ruas. Muitos daqueles que adoeceram disseram ter usado produtos de maconha para "vaping", mas outros informaram ter usado cigarros eletrônicos tradicionais, de nicotina. Muitos reportaram usar ambas as substâncias. As autoridades disseram que não descartam a possibilidade de contaminantes em produtos de nicotina para "vaping".

Ainda que a descoberta de um produto químico comum em testes de laboratório pela FDA e pelo respeitado laboratório do Wadsworth Center, de Nova York, ofereça potenciais pistas, as autoridades acautelaram que ainda estão longe de compreender o que exatamente está levando tantas pessoas a adoecer.

Um porta-voz da FDA disse que a agência "está estudando possíveis pistas quanto a qualquer componente ou composto que possa estar envolvido". A FDA está analisando amostras de uma ampla variedade de produtos químicos, entre os quais nicotina, THC, outros canabiáceos, "agentes de mistura" que podem ser usados na diluição de líquidos, outros aditivos, pesticidas, opiáceos, venenos e toxinas. O THC é o componente da maconha que causa "barato".

"O número de amostras recebidas continua a crescer, e agora temos mais de 100 amostras para teste", disse Michael Felberbaum, porta-voz da FDA, na quinta-feira.

"Nenhuma substância, incluindo o acetato de vitamina E, foi identificada em todas as amostras testadas", ele acrescentou. "O mais importante é que identificar quaisquer compostos presentes nas amostras será uma peça do quebra-cabeças mas não necessariamente responderá perguntas sobre a cadeia causal".

Nem todas as amostras são apropriadas para teste. A FDA analisou 12 amostras viáveis de nicotina e 18 produtos de THC viáveis, disseram as autoridades estaduais. O acetato de vitamina E foi identificado em 10 dos 18 produtos de maconha.

"Essa foi a única coisa que pareceu estar presente em 10 dos 18 produtos de cannabis", disse um representante estadual que participou da reunião telefônica.

Os resultados do laboratório federal parecem confirmar as constatações do estado de Nova York. Na semana passada, o laboratório encontrou "níveis muito elevados de acetato de vitamina E em quase todas" as amostras de cannabis testadas. Mais de uma dúzia de amostras foram testadas, anunciou uma porta-voz do departamento de saúde na quinta-feira. No mínimo um produto para "vaping" contendo acetato de vitamina E foi ligado a cada paciente que submeteu amostras para teste, disse o departamento.

"O acetato de vitamina E não é um aditivo aceito para amostras autorizadas de produtos de 'vaping' pelo Programa de Maconha Medicinal do Estado de Nov York, e não foi identificado nos produtos de nicotina testados. Como resultado, o acetato de vitamina E se tornou um foco essencial" da investigação em Nova York, afirmou Howard Zucker, o comissário estadual da saúde de Nova York, em comunicado na quinta-feira.

Até quinta-feira, Nova York havia recebido 34 relatórios de médicos sobre doenças pulmonares severas entre pacientes dos 15 aos 46 anos de idade que usaram pelo menos um produto de "vaping" contendo cannabis antes de adoecer. Todos os pacientes reportaram uso recente de diversos produtos de "vaping", disseram as autoridades. Há suspeitas de que muitos dos produtos são suspeitos sejam versões falsificadas de maconha recreativa, na forma de produtos de "vaping" disponíveis em outros estados.

A segunda morte informada enfatizou o perigo da doença pulmonar. "Foi surpreendente que o paciente aparecesse sem outro problema de saúde subjacente e adoecesse com gravidade suficiente para morrer dessa síndrome", disse Ann Thomas, médica da Autoridade de Saúde do Oregon.

"Vaping" significa a prática cada vez mais popular de inalar vapor produzido por um aparelho de fumo eletrônico, em um processo que frequentemente envolve aquecer um líquido que pode conter nicotina, maconha ou outras drogas.

O acetato de vitamina E é basicamente graxa, disse Michelle Francl, professora de química no Bryn Mawr College. Sua estrutura molecular significa que "é preciso aquecê-lo bastante" para que se vaporize. Seu ponto de ebulição é de cerca de 184 graus, bem acima do ponto de ebulição de 100 graus da água, e mais de quatro vezes mais alto que a temperatura normal do corpo humano.

Quando o  óleo é aquecido a ponto de se vaporizar, tem o potencial de se decompor, e "a pessoa estaria respirando sabe-se lá o quê", disse Francl.

Quando o vapor resultante se resfria nos pulmões, volta ao seu estado original àquela temperatura e pressão, ela diz, o que significa que "o interior dos pulmões de quem o consome fica revestido de óleo", disse Francl.

No Utah, clínicos trataram diversos pacientes com lesões pulmonares agudas que foram diagnosticados com condições raras como a pneumonia lipoide, com sintomas que incluem dores no peite e dificuldade para respirar. Esses pacientes tinham células anormais cheias de lipídeos em seu sistema imunológico, disseram os médicos.

Diferentemente do aparelho digestivo humano, que é capaz de dissolver e eliminar substâncias estranhas, os pulmões não foram projetados para lidar com qualquer outra coisa que não gases, disseram especialistas.

Laura Crotty Alexander, que pesquisa sobre inflamações pulmonares e cigarros eletrônicos na escola de medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, disse que não está claro se o produto químico em si era tóxico, ou seus subprodutos.

"Não estudamos a toxicidade da vitamina E nos pulmões", ela disse. "Os pulmões foram concebidos para trocar moléculas gasosas, e não para serem expostos a outros produtos químicos".

Quando as células pulmonares morrem, isso muitas vezes provoca uma resposta inflamatória, e "outras células precisam limpar os detritos celulares", disse Alexander. Mas os pulmões são muito delicados. Quando células adicionais entram, "elas interferem com a troca de gases", ela disse. Isso dificulta que o oxigênio penetre na corrente sanguínea da pessoa. A inflamação pode fazer com que líquido se acumule nos pulmões, o que dificulta que a pessoa respire, disse Alexander.


The Washington Post, tradução de Paulo Migliacci

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