Descrição de chapéu The New York Times

Sobe número de casos de doenças pulmonares relacionadas ao cigarro eletrônico nos EUA

Estado de Indiana anunciou terceira morte nesta sexta (6); vítima tinha 18 anos

Matt Richtel Denise Grady
Nova York | The New York Times

As autoridades federais de saúde dos Estados Unidos anunciaram na sexta-feira que o número de pessoas atingidas por enfermidades pulmonares severas associadas ao uso de cigarros eletrônicos ("vaping") havia mais que dobrado, para 450 possíveis casos em 33 estados, com três mortes confirmadas e uma quarta possível.

O Departamento da Saúde de Indiana anunciou a terceira morte na sexta-feira, dizendo apenas que a vítima tinha mais de 18 anos.

"Existe claramente uma epidemia que pede por uma resposta urgente", escreveu o médico David Christiani, da Escola T.H. Chan de Saúde Pública, Universidade Harvard, em um editorial publicado na tarde de sexta-feira pela revista acadêmica The New England Journal of Medicine.

O editorial apelava aos médicos que desencorajassem seus pacientes de usar cigarros eletrônicos e pedia um esforço mais amplo para conscientizar o público sobre os efeitos negativos do chamado 'vaping'.

Funcionários do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) ecoaram esse apelo.

"Enquanto prosseguem as investigações, as pessoas deveriam considerar deixar de lado os cigarro eletrônicos", disse a médica Dana Meaney-Delman, que está liderando a investigação do CDC sobre a doença.

Dirigentes do CDC dizem acreditar que algum "produto químico" esteja envolvido como causa, mas não identificaram um único "aparelho, produto ou substância" responsável, disse Meaney-Delman.

Christiani, o autor do editorial do The New England Journal of Medicine, escreveu que ainda não estava claro quais substâncias no "vaping" estavam causando os danos. Os fluidos dos cigarros eletrônicos contêm sozinhos "pelo menos seis grupos de compostos químicos potencialmente tóxicos", segundo o editorial, acrescentando que a mistura de produtos químicos poderia criar novas toxinas. A revista também publicou  um estudo sobre dois grandes conjuntos de 53 casos nos estados de Wisconsin e Illinois.

O primeiro caso da misteriosa doença pulmonar, no Illinois, surgiu em abril, o que indica que a síndrome surgiu mais cedo que a data citada pelas autoridades federais para o início do surto (metade de junho).

Um estudo mais atento sobre os pacientes e a síndrome foi realizado com base em detalhes sobre 53 pacientes de Illinois e do Wisconsin, descritos pelo New England Journal of Medicine. Os pacientes eram tipicamente "saudáveis, jovens, com idade mediana de 19 anos, e a maioria eram homens", segundo a médica Jennifer Layden, diretora de medicina e de epidemiologia no Departamento Estadual de Saúde Pública do Illinois.

Ela disse que 98% dos pacientes foram hospitalizados, e metade precisou de tratamento intensivo; um terço deles teve de ser colocado em pulmões artificiais. Layden disse que a maioria deles havia usado um produto para "vaping" contendo THC, o princípio químico ativo da maconha, mas a maioria também usou um "produto baseado em nicotina"; o estudo apontou que "uma gama de produtos e aparelhos" foram usados.

"O foco de nossa investigação está se estreitando, mas continuamos diante de questões complexas", disse Ileana Arias, diretora interina do CDC para doenças não infecciosas. Ela acrescentou que "estamos trabalhando incansável e persistentemente".

 
O médico Mitch Zeller disse que estavam surgindo preocupações especiais quanto a produtos improvisados vendidos pelo varejo de artigos para "vaping", ou adulterados ou misturados diretamente pelos consumidores. "Pense duas vezes", ele disse, instando os consumidores a evitar produtos de "vaping" comprados nas ruas ou aparelhos e compostos produzidos ou misturados informalmente.

As autoridades de saúde pública sublinharam um ponto fundamental: que a disparada na doença é um novo fenômeno e não simplesmente o reconhecimento de uma síndrome que poderia estar em desenvolvimento há anos.

Antes que as autoridades de saúde de Indiana confirmassem a terceira morte por uma doença pulmonar severa ligada ao "vaping", duas outras pessoas - uma em Illinois e outra no Oregon, ambas adultas - haviam morrido de doenças aparentemente semelhantes, anunciaram as autoridades de saúde desses dois estados. Os serviços federais e estaduais de saúde estão batalhando para identificar a causa, talvez um produto químico ou contaminante específico contido em alguns produtos para "vaping".

O que pareciam ser alguns casos dispersos em junho se tornou uma crise de saúde pública ampla e grave, causando a alguns adolescentes e jovens adultos em geral saudáveis doenças severas a ponto de tornar necessário que respirassem com a ajuda de máquinas.

As pessoas afetadas tipicamente procuram prontos socorros sofrendo de falta de ar, depois de alguns dias de sintomas parecidos com os da gripe, entre os quais febre alta.

O estado de Nova York, onde 34 pessoas adoeceram, informou na quinta-feira que amostras de produtos de "vaping" de oito de seus casos mostravam altos teores de um composto chamado acetato de vitamina E. Os pesquisadores estão se concentrando na possibilidade de que a substância oleosa desempenhe papel importante na doença.

No entanto, algumas das mais de 100 amostras de produtos de "vaping" em teste pelo governo federal não continham acetato de vitamina E, e por isso o composto continua a ser apenas uma das muitas causas possíveis para a pesada inflamação pulmonar.

Como no caso de um surto de envenenamento alimentar, a busca pela causa da síndrome do "vaping" envolve uma investigação múltipla que pode parecer lenta aos olhos do público e da indústria. O desafio, nessa investigação específica, é amplificado pelos muitos produtos químicos possivelmente envolvidos nos líquidos para "vaping" e pela natureza dispersa da regulamentação do setor, que deixa um grande mercado negro e cinzento de cigarros e produtos de maconha para consumo eletrônico.

O "vaping", uma mudança generalizada na maneira pela qual nicotina e maconha são inaladas, envolve o uso de calor elevado para criar versões em aerossol da maconha e nicotina. No caso dos cigarros eletrônicos, que disseminam nicotina, a indústria e os partidários do setor posicionam os aparelhos como alternativa muito mais segura ao hábito letal do fumo tradicional; isso porque o fumo envolve a combustão e inalação de numerosas substâncias carcinogênicas que afetam o delicado tecido pulmonar, enquanto os cigarros eletrônicos transportam muito menos produtos químicos, e nenhum deles é absorvido por combustão bruta.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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