Aparelhos auditivos usam inteligência artificial e até identificam quedas

Dispositivos digitais também se conectam ao celular e à TV; preço alto, porém, ainda é uma barreira

São Paulo

Se celulares, TVs e eletrodomésticos evoluíram e ficaram mais “smarts” nos últimos anos, era de esperar que aparelhos auditivos também se modernizassem e atraíssem até quem reluta em usá-los.

Os modelos mais atuais, digitais, podem ser programados pelos fonoaudiólogos pelo computador para atender as necessidades de cada usuários e incluir inteligência artificial, conectar-se ao celular, à televisão e ao carro e até avisar sobre quedas.

Os aparelhos antigos, analógicos, precisavam ser ajustados diretamente pelos médicos e só amplificavam os sons. Na prática, ao aumentar sons agudos, eles também aumentavam os graves, mantendo a dificuldade de usuários escutarem a frequência sonora afetada pela perda auditiva.

“Os aparelhos com inteligência artificial são micro computadores com capacidade de armazenar dados sobre como o paciente fazem ajustes em cada ambiente. O aparelho registra o tipo de volume em determinados locais e aprende com isso”, afirma a fonoaudióloga e gerente de produtos do Grupo Sonova, Michelle Queiroz.  

O engenheiro civil Thierry Cintra Marcondes, 32, que tem perda auditiva profunda, está sorrindo olhando para o lado e segurando com uma das mãos o aparelho auditivo pendurado no pescoço.
O engenheiro civil Thierry Cintra Marcondes, 32, que tem perda auditiva profunda, causada pela síndrome de Usher, e usa aparelhos auditivos digitais - Marcelo Justo/Folhapress

Lançado neste ano, um novo aparelho auditivo com inteligência artificial, o VIA AI, do Grupo Microsom, permite que os ajustes sejam feitos pelos fonoaudiólogos a distância, por meio de programas de computador. O usuário pode pedir por aplicativo as alterações, explicando suas necessidades, e o médico, do outro lado da tela, faz as mudanças.

O VIA AI também tem um sensor de queda associado a um mecanismo de alerta de emergência. Se uma pessoa que está usando o aparelho cair, a inteligência artificial —que “estuda” o padrão de movimento do usuário segundo a segundo— reconhece que houve uma queda e envia uma mensagem de texto para até três contatos previa mente cadastrados comum link de acesso a um mapa que mostrará onde o usuário está.

Para evitar alarmes falsos, o usuário tem um intervalo curto de até 90 segundos para cancelar o alerta.

A inteligência artificial aprende com os enganos e se torna mais apta a diferenciar um acidente real de um falso positivo. No país, as principais vítimas de quedas são os idosos. Segundo o IBGE, em 2018 13% da população tinha 60 anos ou mais. As projeções para 2060 indicam que o número de idosos chegará a 32% dos brasileiros.

Dispositivos digitais conectados a aparelhos celulares e aplicativos também podem ajudar a sanar parte dos problemas enfrentados por quem tem deficiência e oferecer outras praticidades, como falar ao celular por meio do próprio aparelho ou escutar o som da televisão direto na orelha.

O uso de aparelhos digitais mudou a rotina do engenheiro civil Thierry Cintra Marcondes, 32, graças à possibilidade de conexão com outros dispositivos.

“Até cinco anos atrás era impossível eu fazer ligações. Hoje, com inteligência artificial, machine learning [aprendizado de máquina], ainda que em grau menor, eu consigo escolher o som do ambiente”, diz. Ele tem perda auditiva profunda, causada pela síndrome de Usher, doença genética que causa surdez e afeta a visão periférica e noturna, e usa aparelho auditivo desde os três anos de idade.

Thierry conta que chegou a experimentar novos modelos, com mais possibilidades de conexões, mas não se adaptou à qualidade do som.

Aparelhos digitais, como o que engenheiro usa, requerem programações personalizadas para as necessidades do usuário, mas há desafios quanto à programação. Thierry afirma que os ajustes, ainda que feitos por computador, precisam ser feitos pessoalmente no consultório, local em que as condições sonoras são diferentes das da rua, de casa e do trabalho.

Apesar das novidades no mercado, a fonoaudióloga e gerente de produto da Microsom, Maria do Carmo Branco, diz acreditar que o aparelho com IA que identifica quedas não trará mais conforto apenas aos idosos e deve atrair também jovens por sua similaridades a tecnologias vestíveis, como os smartwatches.

O mesmo aparelho também é vendido no Brasil desde abril deste ano com outro nome — LivioAI— pela empresa americana Starkey Hearing Technologies. O preço de cada unidade, para cada orelha, custa em torno de R$ 13 mil.

Thierry declara que os preços elevados dos aparelhos criam um ônus da deficiência e leva surdos a pagarem mais do que a média da população por serviços essenciais. “Os aparelhos digitais custam na faixa de R$ 15 mil, e o dispositivo de conectividade custa cerca de R$ 2 mil [em modelos cuja tecnologia não é integrada].”

Modelos de aparelhos mais comuns

Há diversos tipos de aparelhos auditivos disponíveis, com diferentes propriedades, mas, em suma, todos eles seguem quatro etapas básicas:

  1. Captação do som ambiente pelo microfone

  2. Conversão do som captado em sinais elétricos

  3. Análise dos sinais elétricos a partir de programação personalizada previamente para a necessidade do paciente

  4. Conversão dos sinais elétricos em ondas sonoras conduzidas ao ouvido interno por meio do alto-falante


No Brasil, cerca de 10,7 milhões de pessoas apresentam algum grau de deficiência auditiva, dos quais pelo menos 2,3 milhões são casos de deficiência severa, segundo o Instituto Locomotiva.

O SUS (Sistema Único de Saúde) realiza exames de perda auditiva e, se constatada a deficiência, conduz a seleção de pacientes para concessão de aparelhos, chamados de AASI (Aparelho de Amplificação Sonora Individual).

​O Ministério da Saúde não informou quantos aparelhos auditivos concedeu em 2019 e disse não saber qual o tamanho da fila de espera. “O Ministério da Saúde não dispõe de informações quanto à demanda reprimida e filas de espera, sobre tudo no que se refere ao seu dimensionamento e o perfil do público. Os estados e Municípios são responsáveis pela programação, organização, controle e avaliação da execução das ações de saúde.”

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