Mortalidade materna sobe nos EUA, e pais criam filhos sozinhos

Há maior probabilidade de morte entre mulheres não brancas

Callaghan O’Hare Maria Caspani
Reuters

Zak Tiemann apanhou as filhas na escola mais cedo, no dia do Halloween. Zayleeana, 3, e Zoey, 5, estavam sorrindo entusiasmadas, ao colocar suas fantasias de “Frozen” e sair pedindo doces pelas ruas de Seguin, Texas, a cidadezinha onde vivem.

Mas, para seu pai, as ocasiões familiares são momentos agridoces. A mãe das meninas, Amanda Garcia, morreu três anos atrás, dias depois do parto de Zayleeana. Ela tinha 26 anos.

“Sinto que alguma coisa está faltando para elas”, disse Tiemann, 34, em uma entrevista em sua casa em Seguin, cerca de 80 quilômetros ao sul de Austin, a capital do estado. “Ainda que eu faça o melhor que posso, elas mesmo assim precisam de uma mulher que lhe mostre como fazer as coisas em suas vidas.”

Tiemann teve uma terceira criança, Zay’dyn, que tem um ano, com outra mulher, mas disse que ela não está envolvida em cuidar regularmente de suas duas filhas.

Garcia —cuja família diz que ela morreu por conta de um coágulo sanguíneo— foi uma das cerca de 700 mulheres que morrem por complicações relacionadas ao parto a cada ano, nos Estados Unidos, de acordo com dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças. É o total mais alto entre os países desenvolvidos, e as mortes por complicações relacionadas a gestações e partos estão em alta há duas décadas, de acordo com investigações da ProPublica e da NPR.

Depois da morte de Garcia, Tiemann teve de assumir um papel ao qual não estava acostumado e para o qual disse não estar preparado.

“Eu compro produtos para seus cabelos, compro elásticos”, ele disse. “Tentei pintar suas unhas algumas vezes”.

O sentimento de inadequação o incomoda a cada dia.

Ativistas, profissionais de saúde e legisladores vêm há muito lançando alertas sobre o alto índice de mortalidade materna e o efeito que isso causa sobre as mulheres não brancas, cuja probabilidade de morte por problemas relacionados à gestação é cerca de três vezes mais elevada.

“É péssimo. Na verdade, estamos pior que alguns países do terceiro mundo”, disse Shaven Tierry, deputada estadual democrata no Legislativo do Texas e proponente de diversos projetos de lei sobre a questão.

Para cada 100 mil crianças nascidas vivas no Texas, há 145,6 mortes maternas, de acordo com os mais recentes dados do Comitê de Revisão de Mortalidade do estado. Como no restante do país, as mulheres não brancas sofrem desproporcionalmente.

A senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts que está disputando a indicação de seu partido à presidência, faz da melhora da saúde materna uma das principais propostas de sua campanha para a eleição de 2020.

O plano de Warren modificaria o sistema de pagamento de seguro-saúde e recompensaria os hospitais que melhorarem a qualidade do tratamento oferecido.

Para Tiemann, perder sua parceria por conta de complicações relacionadas à gravidez ainda causa frustração profunda. “Contemplo o passado e imagino se seria possível evitar o que aconteceu. Mas não sei”, ele disse.

Tradução de Paulo Migliacci

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