Descrição de chapéu Coronavírus

Imunidade após coronavírus é provável, mas duração é incerta

Pesquisas sobre o tema abrem novas oportunidades para testes e tratamentos

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The New York Times

Enquanto o número de pessoas infectadas pelo coronavírus ultrapassa 450 mil em todo o mundo, e mais de 1 bilhão estão trancadas em suas casas, os cientistas se debatem com uma das perguntas mais prementes da pandemia: as pessoas que sobrevivem à infecção se tornam imunes ao vírus?

A resposta é um sim relativo, com algumas incógnitas significativas. Isso é importante por vários motivos.

As pessoas que estiverem confirmadamente imunes poderão sair de casa e engrossar a força de trabalho até que uma vacina esteja disponível, por exemplo. Em particular, os profissionais de saúde que estiverem comprovadamente imunizados poderão continuar cuidando dos doentes graves.

Cultivar a imunidade entre a população também é o modo de acabar com a epidemia: com um número cada vez menor de pessoas infectadas, o coronavírus perderá a pegada, e até os cidadãos mais vulneráveis ficarão mais isolados da ameaça.

A imunidade também pode trazer um tratamento precoce. Os anticorpos retirados dos pacientes recuperados poderão ser usados para ajudar os que lutam com a doença causada pelo coronavírus, a Covid-19.

Na terça-feira (24), a Administração de Alimentos e Drogas dos Estados Unidos (FDA na sigla em inglês) aprovou o uso de plasma de pacientes recuperados para tratar alguns casos graves. Um dia antes, o governador Andrew Cuomo anunciou que Nova York seria o primeiro Estado a testar soro de pessoas que se recuperaram do Covid-19 para tratar os doentes graves.

"É um teste para pessoas que estão em condição severa, mas o Departamento de Saúde do Estado de Nova York está trabalhando nisto com alguns dos melhores órgãos de saúde de Nova York, e achamos que é promissor", disse.

A primeira linha de defesa do corpo contra um vírus infeccioso é um anticorpo chamado imunoglobulina M, cuja função é se manter vigilante no corpo e alertar o resto do sistema imune sobre invasores como vírus e bactérias.

Dias após o início de uma infecção, o sistema imune refina esse anticorpo em um segundo tipo, chamado imunoglobulina G, minuciosamente desenhado para reconhecer e neutralizar um vírus específico.

O refinamento pode demorar até uma semana; tanto o processo como a potência dos anticorpos finais podem variar. Algumas pessoas criam anticorpos poderosos que neutralizam uma infecção, enquanto outras geram uma reação mais branda.

Os anticorpos gerados em reação à infecção de alguns vírus —pólio ou sarampo, por exemplo— garantem a imunidade durante toda a vida. Mas os anticorpos do coronavírus que causa o resfriado comum resistem por apenas dois ou três anos, e isso pode valer também para seu novo primo.

Um estudo com macacos infectados com o novo coronavírus sugere que, depois de infectados, os animais produzem anticorpos neutralizadores e resistem a novas infecções. Mas não está claro por quanto tempo os macacos, ou pessoas infectadas com o vírus, continuarão imunes.

A maioria das pessoas que se infectou durante a epidemia de Sars —esse vírus é um primo próximo do novo coronavírus, chamado Sars-CoV-2— tiveram imunidade prolongada, durante oito a dez anos, disse Vineet Menachery, virologista na Universidade do Texas em Galveston.

Os que se recuperaram do Mers, outro coronavírus, tiveram proteção durante muito menos tempo, disse o doutor Menachery. As pessoas que foram infectadas com o novo coronavírus poderão ter imunidade durante um ou dois anos, acrescentou ele: "Além disso não podemos prever".

Mas, mesmo que uma proteção de anticorpos durasse pouco e as pessoas se reinfectassem, o segundo ataque do coronavírus provavelmente seria muito mais brando que o primeiro, explicou Florian Krammer, microbiólogo na Escola de Medicina Icahn no Mount Sinai em Nova York.

Mesmo depois que o corpo para de produzir anticorpos neutralizadores, um subconjunto de células da memória imune pode reativar uma reação com eficácia, comentou ele.

"A pessoa provavelmente daria uma boa resposta imune antes que se tornasse sintomática de novo, e poderia realmente cortar o avanço da doença", disse o doutor Krammer.

Uma questão crucial é se as crianças e adultos que têm só sintomas brandos ainda geram uma resposta forte o suficiente para continuar imunes ao vírus até que uma vacina esteja disponível.

A doutora Marion Koopmans, virologista na Universidade Erasmus em Roterdã (Holanda), e sua equipe rastrearam reações de anticorpos em 15 pacientes infectados e trabalhadores de saúde.

Os pesquisadores também estão usando amostras de sangue de cerca de cem pessoas que estiveram infectadas com um dos quatro coronavírus conhecidos que causam o resfriado comum.

Se essas amostras mostrarem uma resposta imune ao novo coronavírus, disse a doutora Koopmans, isso poderia explicar por que algumas pessoas —as crianças, por exemplo— só têm sintomas brandos. Elas podem ter anticorpos a outros coronavírus que são pelo menos parcialmente eficazes contra o novo.

A maneira mais rápida de avaliar a imunidade é um teste de sangue que procura anticorpos protetores em pessoas que se recuperaram. Mas primeiro é preciso ter o teste.

Os testes de anticorpos são usados em Singapura, na China e alguns outros países. Mas estão apenas chegando ao mercado na maior parte do Ocidente.

Na semana passada, o doutor Krammer e seus colegas desenvolveram um teste de anticorpos que poderá ser aperfeiçoado em "dias ou semanas", segundo ele.

A equipe validou o teste em plasma sanguíneo de três pacientes com Covid-19. Os pesquisadores estão buscando uma aprovação rápida da FDA.

Dezenas de outros laboratórios trabalham em uma grande lista de testes, embora a maioria deles também se baseie em dados que ainda não foram revisados por outros cientistas.

"Não importa quem os faça, desde que sejam confiáveis, é uma ferramenta super boa", afirmou Krammer.

Como este é um novo coronavírus, o teste deve dar "basicamente uma resposta sim ou não, como um teste de HIV —você pode saber quem foi exposto e quem não foi".

Na quarta-feira (25), autoridades da Saúde Pública da Inglaterra disseram que compraram milhões de testes de anticorpos recém-desenvolvidos e os estão avaliando para uso dos pacientes em casa. As pessoas que descobrirem que foram expostas e agora têm certa imunidade ao coronavírus poderiam voltar a suas vidas normais, disseram as autoridades.

Isso seria especialmente útil para os profissionais de saúde. Os que sabem que têm pelo menos alguma imunidade poderiam ser colocados nas linhas de frente do tratamento de emergência, poupando colegas que não foram expostos.

"Se isto realmente continuar durante meses, por 18 meses como algumas pessoas projetaram, ter profissionais de saúde imunes ao vírus será realmente útil", disse Angela Rasmussen, virologista da Universidade Columbia em Nova York.

Mas os testes como esses podem não ser muito úteis para diagnósticos do coronavírus enquanto a infecção avança, por causa do tempo que leva para o corpo começar a produzir anticorpos.

O teste do doutor Krammer capta uma resposta de anticorpos em três dias depois que surgem os sintomas. Como as pessoas podem não mostrar sintomas por até 14 dias depois da infecção, porém, é tarde demais para que o teste seja útil como ferramenta de diagnóstico.

Encontrar pessoas com resposta poderosa de anticorpos poderá ajudar a indicar o caminho para novos tratamentos, porém. Basicamente, anticorpos extraídos do sangue de pacientes recuperados são injetados nos doentes.

Várias equipes já começaram a trabalhar nessa iniciativa, seguindo relatos anteriores de sucesso na China. Uma empresa de Pequim chamada AnyGo Technology forneceu 50 mil testes ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças chinês e para hospitais em Wuhan, Pequim e Xangai, segundo seu fundador, o doutor Le Sun.

O doutor Shangen Zheng, médico do Exército chinês, disse que sua equipe tratou mais de dez pacientes até agora, e dados de muitos outros tratados com plasma na província de Hubei estão sendo avaliados.

Essa abordagem é na verdade "uma coisa muito antiquada", disse o doutor Krammer. Ela foi usada para salvar soldados americanos infectados com o vírus hemorrágico Hantaan durante a Guerra da Coreia e para tratar pessoas na Argentina infectadas com o vírus hemorrágico Junin.

Antes que o método possa ser utilizado amplamente, entretanto, os cientistas precisam resolver questões de segurança, como garantir que o plasma tirado de pacientes recuperados esteja livre de outros vírus e toxinas.

Empresas farmacêuticas como Takeda e Regeneron esperam contornar algumas dessas questões desenvolvendo anticorpos contra o coronavírus em laboratório.

Afinal, é só com esses testes que os cientistas poderão dizer quando uma quantidade suficiente da população foi infectada e se tornou imune --e quando o vírus começou a ficar sem hospedeiros.

Colaborou Denise Grady

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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