Descrição de chapéu Coronavírus

Adolescente é primeiro ianomâmi a contrair coronavírus

Indígenas temem que garimpo ilegal abra caminho para infecção e que mortandade de décadas passadas se repita

Manaus

Um adolescente de 15 anos é o primeiro ianomâmi a contrair o novo coronavírus, informou a Secretaria Especial de Saúde Indigena (Sesai). Ele está internado na UTI de um hospital de Boa Vista (RR) desde a última sexta-feira (3).

O jovem é natural da aldeia Rehebe, às margens do rio Uraricoera, região que serve de porta de entrada para alguns milhares de garimpeiros ilegais que exploram ouro dentro da Terra Indígena Yanomami (AM/RR).

“A nossa maior preocupação com o Covid-19 é que irá contaminar os ianomâmis por meio dos garimpeiros”, disse à Folha Dário Kopenawa Yanomami, 36, vice-presidente associação Hutukara, a mais importante do povo ianomâmi. “Muitos garimpeiros estão entrando sem exame médico. Isso vai espalhar a pandemia na terra indígena.”

Ianomâmis conversam no Centro de Apoio ao Índio (Casai) em Boa Vista (RR)
Ianomâmis conversam no Centro de Apoio ao Índio (Casai) em Boa Vista (RR) - Eduardo Knapp - 11.dez.2015/Folhapress

A associação Hutukara estima que haja 25 mil garimpeiros ilegais. Além de aviões e helicópteros, eles usam três rios para entrar no território: Uraricoera, Mucajaí e Apiaú.

De acordo com o Dsei (Distrito Sanitário Especial Indígena) Yanomami, o adolescente contaminado mora e estuda em uma comunidade do município de Alto Alegre (RR).

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse nesta quarta-feira que é grande a preocupação do governo federal com relação ao contágio nas comunidades indígenas. Segundo ele, a pasta avalia instalar um hospital de campanha para os indígenas, mas não detalhou sobre onde seria esse equipamento.

"Hoje tivemos um caso confirmado nos ianomâmis, o que muito nos preocupa", disse durante entrevista. "Sabedores do histórico de maus resultados quando os indígenas são afetados por vírus vindos de outras partes que não aqueles de seu ecossistema, nós temos extrema preocupação com as comunidades indígenas e estamos extramente atentos."

Segundo Mandetta, o governo tem procurado fazer isolamento. "Há muito tempo que está fechada a entrada de pessoas nas aldeias, mas infelizmente as pessoas da próprias aldeias, às vezes indígenas, não querem ficar e m nenhum isolamento fora e vão para a aldeia", disse ele, sem citar a presença de garimpeiros nas regiões.

A primeira internação ocorreu no dia 17 de março, em Alto Alegre, com suspeita de meningite. Transferido no dia seguinte para Boa Vista, o paciente alternou entre a Casai (Casa de Saúde Indígena) e o hospital Geral de Roraima (HGR). Cerca de uma semana depois, com as aulas suspensas, voltou para a sua aldeia natal, onde moram os pais.

No dia 26, quando estava na aldeia, a saúde piorou. Na última sexta-feira (3), em estado grave, o jovem foi levado de volta ao HGR, em Boa Vista, com sintomas de doença respiratória. Desde então, permanece internado na UTI. O resultado positivo para Covid-19 só apareceu no segundo teste, concluído nesta terça (7).

O Dsei informou que está identificando e isolando ianomâmis da aldeia Rehebe com sintomas de coronavírus e que, até sexta-feira (10), serão enviados 20 testes rápidos. Outras medidas serão tomadas caso se verifique transmissão local, como a criação de espaços para isolamento e uma barreira sanitária de acesso.

Além do adolescente ianomâmi, a Sesai registrou outros quatro casos de Covid-19, todos da etnia kokama, em Santo Antônio do Içá (AM).

O Instituto Socioambiental (ISA) relatou dois indígenas morando em cidades mortos em decorrência do novo coronavírus: uma idosa do povo Borari, em Alter do Chão (PA), e um homem do povo mura, em Manaus. Por não morar em terra indígena, não eram atendidos pela Sesai.

Histórico

Desde Boa Vista, Dário, que é filho da liderança Davi Kopenawa, tem falado por rádio com várias comunidades ianomâmis, orientando-os a não se deslocar, principalmente para as cidades. Roraima tem 49 casos confirmados e um óbito —um motorista da Casai que não teve contato com o adolescente infectado.

Ele afirma que existe o temor de que o novo coronavírus repita a mortandade provocada pelo sarampo e por outras doenças ao longo dos anos 1960 aos 1980, época conhecidas como a “invasão garimpeira”. Cerca de 15% dos ianomâmis foram dizimados. Atualmente, a população está em torno de 27 mil pessoas.

“Os nossos mais velhos estão dizendo que, com a primeira chegada da sociedade não indígena, eles não tinham proteção de vacina. Morreram muitas pessoas, nossos bisavós, avós. E agora essa pandemia está se virando para os ianomâmis. Os mais velhos não querem mais adoecer.”

Colaboraram Paulo Saldaña e Renato Machado, de Brasília

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