'Vida é feita de escolhas, e eu hoje escolhi sair', diz Teich, sem explicar o motivo

Ex-ministro da Saúde vinha sofrendo pressão de Bolsonaro para ampliar uso da cloroquina

Brasília

Após pedir demissão do cargo, o ex-ministro da Saúde Nelson Teich não explicou o motivo de sua saída nesta sexta-feira (15) e disse que deu o melhor de si à frente do cargo.

"A vida é feita de escolhas, e hoje escolhi sair. Dei o melhor de mim nos dias em que estive aqui nesse período. Não é uma coisa simples estar à frente de um ministério como esse", afirmou.

Mesmo questionado por jornalistas sobre o motivo da decisão, Teich evitou comentar.

Teich pediu demissão de manhã após ouvir um ultimato do presidente Jair Bolsonaro para que mudasse o protocolo para a administração de cloroquina a pacientes com coronavírus.

O Ministério da Saúde indica o medicamento apenas para pacientes graves e críticos internados em ambiente hospitalar. Bolsonaro, porém, defende que o remédio seja indicado também em casos leves, mesmo sem comprovação científica de eficácia.

Em pronunciamento no auditório da pasta, ele agradeceu a equipe de secretários e fez um aceno a representantes de estados e municípios na saúde, com quem teve embates no cargo.

"A missão da saúde é tripartite, e isso é uma coisa importante de deixar claro. O Ministério da Saúde vê isso como verdadeiro e essencial. É um momento em que o país inteiro luta pela saúde", disse.

Em seguida, agradeceu ao presidente Jair Bolsonaro, dizendo que "seria muito ruim" para sua carreira não ter tido a oportunidade de atuar no Ministério da Saúde.

"Não aceitei o convite pelo cargo, mas porque achava que poderia ajudar o Brasil e as pessoas."

Ele afirmou ainda ter sido “criado no sistema público”, em uma referência à formação e residência médica em universidades e hospitais públicos.

A declaração representa uma tentativa do ministro em rebater críticas de que teria pouca experiência na gestão do SUS. Teich atuou na maior parte dos últimos anos no setor privado.

Nos 27 dias em que esteve à frente do cargo, Teich teve seu poder como ministro minimizado por Bolsonaro. A divergência sobre o protocolo do uso da cloroquina no combate ao coronavírus, porém, foi considerada a gota d'água para a queda dele.

Em uma teleconferência com grandes empresários organizada na quinta-feira (14) pelo presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, Bolsonaro afirmou que o protocolo sobre o uso da cloroquina "pode e vai mudar".

"Agora votaram em mim para eu decidir e essa questão da cloroquina passa por mim. Está tudo bem com o ministro da Saúde [Nelson Teich], sem problema nenhum, acredito no trabalho dele. Mas essa questão da cloroquina vamos resolver. Não pode o protocolo —de 31 de março agora, quando estava o ministro da saúde anterior [Luiz Henrique Mandetta]— dizendo que só pode usar em caso grave... Não pode mudar o protocolo agora? Pode mudar e vai mudar", declarou Bolsonaro.

Teich, porém, vinha defendendo que uma eventual mudança na recomendação do ministério só ocorreria após a conclusão de estudos científicos.

"Cloroquina hoje ainda é uma incerteza. Houve estudos iniciais que sugeriram benefícios, mas existem estudos hoje que falam o contrário", disse o ministro, em 29 de abril.

Na segunda-feira (11), em mais um episódio deixou clara a falta de sintonia durante entrevista coletiva no Planalto, Teich foi surpreendido ao vivo com a notícia de que o presidente ampliara o número de atividades consideradas essenciais durante a pandemia, para incluir barbearias, salões de beleza e academias esportivas. O ex-ministro se mostrou surpreso e virou motivo de memes difundidos na internet.

O fato reforçou a visão de que o ministro estava afastado de decisões que interferem em recomendações da Saúde.

Em outro ponto de discórdia, o ministro da Saúde afirmou recentemente que um lockdown — política mais rígida de isolamento social, que proíbe a livre locomoção das pessoas — poderia ser aplicado para os locais onde a situação da covid-19 se mostra mais grave.

Jair Bolsonaro defende a imediata retomada do comércio e demais atividades, para evitar maiores danos para a economia.

Em discurso da saída nesta sexta, Teich disse que deixa um programa de testagem e plano com diretrizes que indica cinco níveis de isolamento social para serem adotados por estados e municípios.

"Traçamos aqui um plano estratégico que foi iniciado e deve ser seguido. Temos o foco total na Covid, e temos todo um sistema que envolve a população e deve ser cuidado. Todo o sistema é pensado em paralelo. Nesse período, auxiliamos estados e municípios a passar por essas dificuldades", afirmou.

Nesta semana, o ministro chegou a anunciar que faria um o lançamento do documento, mas cancelou devido à falta de consenso com secretários estaduais e municipais de saúde. Para o grupo, a medida seria inoportuna em meio ao aumento de casos e mortes pela doença.

Resumo da estratégia divulgado pela pasta previa diferentes pontuações para definir quando estados e municípios deveriam afrouxar ou tornar mais rígidas as regras de isolamento social.

Ao todo, eram previstos cinco níveis de restrições e distanciamento com base em uma classificação que levava em conta a estrutura da rede de saúde e a velocidade de transmissão do novo coronavírus.

A análise deveria ser baseada em quatro eixos: capacidade instalada de leitos, indicadores epidemiológicos (como volume de internações e óbitos), velocidade de crescimento de casos e índices de mobilidade urbana.

A partir daí, segundo as diretrizes, seriam definidos cinco níveis de risco, de "muito baixo" até "muito alto", e as medidas indicadas variavam desde um "distanciamento social seletivo" até "restrição máxima".

Nos últimos dias, Teich já vinha modulando o discurso em relação ao isolamento. Inicialmente, chegou a dizer que o país "não sobrevive um ano parado" e defendeu um "plano de saída".

Em seguida, passou a dizer que o ministério "nunca mudou" de posição sobre o distanciamento. Ainda assim, vinha defendendo que as medidas sejam avaliadas de acordo com o cenário de cada local.

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