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Coletivos femininos levam máscaras a comunidades indígenas e negras na Bahia

Rede Kunhã Asé e Delas Para Todxs e associações indigenistas promovem ação para ajudar cinco povos

São Paulo

O novo coronavírus trouxe insegurança e medo de contaminação a todo o mundo, principalmente em áreas menos assistidas, onde faltam recursos básicos. Mas também trouxe união e redes de apoio.

Uma dessas redes foi criada na Bahia por seis coletivos com ação pioneira de mulheres. Tudo começou quando Cândida Specht, dona de uma marca própria, voltou a produção de seu ateliê, em Salvador, para a confecção de máscaras de proteção.

Junto com outras três amigas, Luciana Leite, bióloga, Carola Hoisel e Jéssica Ribeiro, também estilistas, fundou o coletivo Delas para Todxs e, por meio de doações virtuais, conseguiram fabricar e distribuir 10.600 máscaras para comunidades carentes da capital baiana.

A partir daí, foram procuradas por coletivos indígenas e indigenistas (apoiadores da causa indígena) para confeccionar máscaras para povos indígenas.

“Recebemos pedido da Anai (Associação Nacional de Ação Indigenista) para doarmos cem máscaras para anciães pataxós hãhãhães do sul da Bahia. Fizemos as máscaras e depois mulheres tupinambás também solicitaram ajuda para arrecadar recursos e produzir equipamentos”, explica Leite.

Essas mulheres tupinambás vivem na Serra do Padeiro, na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, área de 47 mil hectares no sul da Bahia. Segundo dados da Funai, o território foi delimitado, mas ainda não demarcado. Elas tinham feito curso de corte e costura e queriam ajudar na fabricação das máscaras dentro da sua comunidade.

O território abriga mais de vinte comunidades indígenas, além de assentamentos e famílias de pequenos agricultores.

Para atender ao pedido, porém, seria necessário arrecadar mais fundos e conseguir mais apoiadores.

Outras associações se uniram: a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espirito Santo (Apoinme), o Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba) e o Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro (Pineb), da UFBA. Com o mapeamento dos povos indígenas que vivem em municípios já afetados pela Covid-19, chegaram a uma demanda de 20 mil máscaras.

Luciana, que também faz parte da Rede Kunhã Asé para Mulheres na Ciência (lê-se ‘cunhã axé’, a primeira palavra significa mulher em guarani e a segunda vem do iorubá e significa força), coletivo de mais de 30 mulheres formado no instituto de biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), levou a proposta para o grupo. As demais integrantes aceitaram o desafio.

A Kunhã Asé foi criada no final de 2019 com o objetivo de formar uma rede de apoio intelectual e emocional para mulheres na ciência, discutindo questões de gênero e organizando cursos e debates voltados à participação feminina na academia, com enfoque na ecologia.

Com uma já sólida rede de contatos e atuação nas redes sociais, criaram uma vaquinha virtual para arrecadar recursos e comprar tecidos e elásticos para fabricação inicial de 7 mil máscaras.

“Nós começamos o ano com agenda voltada para a participação das mulheres e outras minorias na ciência, mas a pandemia acabou interrompendo quase tudo. Como somos um grupo muito ativo, queríamos transformar ideias em ações mais práticas, entramos de cabeça na campanha para ajudar as comunidades indígenas”, diz Priscila Camelier, professora de biologia na UFBA e integrante da rede.

Kunhã Asé entra com a divulgação e arrecadação de fundos, enquanto a Delas para Todxs vem com a expertise de costura, o corte e a distribuição dos materiais.

Os tecidos comprados são higienizados e cortados já no tamanho certo para fabricação das máscaras, explica Speicht, e são distribuídos às comunidades com instruções de confecção. São quatro povos abraçados pela campanha: tupinambás da Serra do Padeiro e tupinambás do Acuípe, pataxós, pataxós hãhãhães e tuxás do norte do estado.

Segundo Nathalie Pavelic, da ANAI, as mulheres tupinambás fabricam também para os povos que não têm capacidade de produzir. Para cada máscara produzida, ganham um real de renda, auxiliando também na subsistência das comunidades.

Jéssica, 29, tupinambá da Serra do Padeiro, diz que não há casos de Covid-19 na sua comunidade, mas dentro do território pelo menos vinte casos em indígenas foram contabilizados.

Pavelic explica que o governo da Bahia não apresentou nenhuma ajuda no início da pandemia aos povos indígenas, e que as comunidades tomaram medidas de criação de barreiras sanitárias e arrecadação de fundos.

Recentemente, o estado anunciou a entrega de 30 mil máscaras para os povos indígenas baianos. Mas a campanha, diz, vai continuar, pois não há ainda previsão do fim da pandemia, e essas máscaras podem atender ainda diversos povos.

A aproximação dos povos indígenas com uma rede de apoiadores e colaboradores se estendeu também para fora do Brasil, com campanha internacional em inglês, espanhol, francês e italiano. “Uma consequência muito positiva dessa ação foi aproximar pessoas que normalmente não chegariam até os povos e à cultura indígena”, completa.

“A sensação é que estamos mesmo dependentes de solidariedade e da auto-organização, porque há um completo abandono do poder público”, diz Luciana Leite.

A bióloga finaliza dizendo que com muito trabalho e a generosidade das pessoas, a quantidade de máscaras produzidas têm se multiplicado. O projeto foi um dos selecionados em edital da Fiocruz para ações emergenciais junto a populações vulneráveis, e devem produzir mais 15 mil máscaras para distribuição em comunidades negras.

“A gente brincava no início que a solidariedade precisava se espalhar mais rápido que o coronavírus. Acho que essa ‘corrida’ nos motiva, sabe? E se cada máscara ajuda a proteger uma vida, não há batalha perdida.”

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