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Bruno Gualano

Está na hora de falar de uma outra pandemia: a da inatividade física

Estudo já mostrou que 9% das mortes no mundo em 2018 podem ser atribuídas ao sedentarismo

Bruno Gualano

Metade da população brasileira não atinge a quantidade mínima de atividade física necessária para se manter saudável: 150 minutos de atividade em intensidade moderada ou 75 minutos em intensidade vigorosa por semana.

Mas não há um único país que não apresente índices preocupantes para esse fator de risco. Seu alcance global confere à inatividade status de pandemia. Em época de Covid-19, poder-se-ia alegar que o termo soa descomedido. Vejamos. Um estudo de pesquisadores da Universidade Harvard demonstrou que, das 58,7 milhões de mortes ocorridas no mundo em 2018, nada menos que 9% (ou 5,3 milhões de mortes) podiam ser atribuídas à insuficiência de atividade física. Em outras palavras, a inatividade física seria responsável por uma em cada dez mortes no planeta.

As estimativas dos pesquisadores demonstraram, ainda, que a falta de atividade foi responsável por 6% dos óbitos por doenças cardíacas, 7% por diabetes do tipo 2, 10% por câncer de mama e 10% por câncer de cólon. No total, 1,3 milhão de vidas por ano poderiam ser poupadas se a inatividade fosse reduzida em 25%.

Eis que surge a pandemia da Covid-19, e com ela necessidade de isolamento social para conter seu avanço. O efeito colateral do isolamento é o aumento da inatividade, como revela um levantamento feito pela empresa americana Fitbit, que analisou dados de 30 milhões de usuários de dispositivos que medem o número de passos diários. Americanos, espanhóis, italianos e brasileiros apresentaram uma redução de atividade física de 12%, 38%, 25% e 15%, respectivamente, na quarta semana de março deste ano, em comparação ao mesmo período de 2019.

A atividade física poderia proteger contra a Covid-19? É cedo para responder, mas um estudo recente que avaliou 380 mil ingleses jogou luz sobre essa questão. Estimativas de risco demonstraram que a inatividade pôde explicar 8,6% dos casos graves de Covid-19. Outros 29,5% foram atribuídos à obesidade — condição, por sua vez, que pode ser prevenida pela atividade física.

No nosso artigo publicado na revista da Sociedade Americana de Fisiologia, estimamos que, por causa da pandemia, o número de óbitos por todas as causas pode escalar em 535 mil mortes ao ano se a inatividade aumentar em 10% na população. Com incrementos de 25% — um cenário mais realista — seria 1,3 milhão de mortes a mais. Caso a inatividade aumente em 50% em decorrência da pandemia e do isolamento social, isto poderá resultar na morte adicional de 2,7 milhões de pessoas.

Mesmo com o progressivo relaxamento das medidas de isolamento social, grupos de risco como idosos, obesos e doentes crônicos deverão continuar enfrentando restrições de circulação mais rígidas e duradouras, pelo menos até que uma vacina seja desenvolvida ou a imunidade populacional atingida. A promoção de atividade física em domicílio —modalidade barata, segura e eficaz — pode ser uma saída, e segue sob escrutínio no nosso laboratório.

Esse tipo de programa consiste na prescrição de atividade física estruturada, entregue em cartilhas ou vídeos e com monitoramento remoto. A intensidade do acompanhamento profissional depende da necessidade de cuidado do indivíduo: pacientes com doenças crônicas e idosos debilitados podem precisar de assessoramento periódico para checar aderência ao programa, ajustes de cargas e da execução de exercícios e possíveis eventos adversos, ao passo que jovens e adultos saudáveis acostumados a se exercitarem requerem menos ou nenhuma supervisão e podem seguir programas online com progressão gradual. O monitoramento pode se dar por dispositivos e plataformas de saúde digital (ou eHealth), aplicativos de videoconferência e troca de mensagens, email ou por telefone.

Para além da atividade física estruturada, medidas simples como a interrupção do sedentarismo prolongado (a cada uma hora sentado, caminhe por cinco minutos) também são úteis. No “novo normal”, não há espaço para a inatividade.

Bruno Gualano

É professor da Faculdade de Medicina da USP, especialista em fisiologia do exercício clínico e conduz estudos sobre promoção de estilo de vida saudável para populações clínicas

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